Analisando o conflito

Segundo López há três formas de se encarar as narrativas do Pentateuco relacionadas a Jacó e seus descendentes: a) seria o resultado redacional obtido com a junção de vários relatos de grupos distintos, isto levando-se em conta os estudos histórico-críticos clássicos; b) a existência de uma gesta unificada, abrangendo desde o nascimento, os primeiros encontros dos dois irmãos, o relato de Betel, o encontro entre Jacó e Labão e seu retorno a Canaã, conforme interpreta os estudos histórico-críticos recentes; e c) para os estudiosos de estilo sincrônico, a história de Jacó seria considerada como uma unicidade (López, 2004, p. 94).

Enquanto que Michaud (1983, p. 48) encara a narrativa de Gênesis 27 como uma mera “saga” criada apenas para representar duas classes sociais: Jacó simbolizando o homem social, civilizado que trabalha em sua região para torná-la habitável e cultivável, enquanto que Esaú seria o representante do não civilizado, do homem das matas.

Todavia, como conciliar o fato de que segundo vários autores o Pentateuco em sua editoração final tem uma influência sacerdotal com direcionamento contra a monarquia e seus desmazelos? Ou seja, ambas as teorias são mutuamente excludentes. Isto é, se houve interesse sacerdotal em usar as histórias ou relatos orais para ir contra toda a sociedade institucionalizada (e isso é fruto da civilização) não teria lógica registrar uma narrativa que deporia contra esta tese.

Entretanto, não há como negar que através dos relatos bíblicos (Gn 25.21-26,27-34; 27) Esaú e Jacó não aparecem como meros irmãos, mas também como dois povos (Edom e Israel), duas regiões (fértil e infértil) e duas classes sociais (caçador e pastor). Todavia, pelo fato de suas narrativas estarem interligadas e dentro de uma estrutura maior, certamente deve ter algo maior do que simplesmente a teoria que R. Michaud propõe.

Outra questão, um tanto generalizada, diz respeito à interpretação do nome de Jacó, pois segundo Motyer, ele corresponde a “suplantador” e diz ainda que “por muito tempo a marca registrada de seu caráter foi o oportunismo, a luta para tirar vantagem a qualquer preço e desonestamente.” (Motyer, 1999, p. 292)

López (2007, p. 47,46) também parece concordar com este posicionamento que condena a atitude enganadora elaborada por Jacó; pois o vê como alguém sem escrúpulos morais. Ela diz ainda que o estilo da narrativa sobre os dois aponta de forma positiva para Esaú, apesar de uma tendência pró-Jacó na fonte javista. Em outras palavras, parece haver uma certa propensão em solidarizar-se com Esaú.

Embora se possa concordar com a percepção desta atitude negativa adotada por Jacó, ao enganar seu pai, não se pode dizer ou sustentar que ele tenha roubado a bênção do irmão; pois, Esaú havia lhe vendido (Gn 25.30-34). É bem verdade, que o “malandro” aproveitou a fome do primogênito para lhe fazer aquela proposta indecorosa da troca do direito de primogenitura por um prato de lentilhas.

Porém, deixando-se de lado os meios escusos e indignantes da negociação, a venda foi consumada. Jacó tinha uma promessa divina a seu favor (Gn 25.26) e havia comprado o direito de primogenitura (Gn 25.31-33), portanto tinha o direito de receber a bênção do primogênito.

Mas, a grande questão é: Isaque sabia disso quando quis abençoar a Esaú? Ou será que ele já havia esquecido do momento em que ao consultar a Yahweh, quando Rebeca ainda estava grávida, Este lhes dissera que o menor deveria “dominar”?

Certamente Rebeca deve ter contado a história da gravidez para Jacó (seu favorito), que deve ter usado isso como motivação para elaborar a proposta de compra ao seu irmão. Portanto, depois de uma negociação favorável, seria ilógico Jacó guardar isso como segredo de irmãos. Por isso é bem provável supor que Isaque sabia muito bem das coisas que estavam acontecendo.

Assim, pode-se concordar com Bledstein (In: Brenner, 2000, p. 308-323) quando defende uma nova teoria para explicar a “trapaça” exercida contra Isaque. Destarte não se poder crer em seus argumentos gerais a respeito da autoria feminina para o livro de Gênesis, a luz que ela lança na história de Isaque é deveras interessante.

Essa autora procura mostrar um Isaque nem um pouco passivo, bobo ou vítima de uma trama, como geralmente tem sido descrito. Muito pelo contrário, o vê como alguém sagaz, um legítimo “trapaceiro”. Ela chega a esta conclusão a partir do episódio de Isaque com Abimeleque narrado em Gênesis 26, considerado uma narrativa nos moldes dos contos de trapaça da antiguidade e, ainda, pela possibilidade de tradução do nome (Ytshaq) como “trapaceiro – aquele que ri ou zomba”.

Assim, à semelhança dos deuses antigos que usavam de trapaças para conseguir seus objetivos, nas histórias dos pais e mães de Israel, os humanos vulneráveis é que usam de artimanhas para galgarem suas pretensões. (Bledstein. In: Brenner, 2000, p. 308-323).

No próximo artigo continuaremos desvendando a trapaça de Jacó, sob o prisma de um contexto maior.