A Teologia do Oprimido

Antes de se adentrar no conflito de Esaú e Jacó e suas explicações, se faz necessário dar uma olhada em alguns pressupostos dentre eles um que diz respeito à “Teologia do Oprimido”.

Quando se observa a relação de dois irmãos, na qual o mais novo tem uma trajetória mais bem sucedida que o mais velho, logo de imediato pode-se imaginar que se trata de um bom exemplo de atuação da “Teologia do Oprimido”, onde seria defendido que Yahweh sempre olha e atenta para o menor, o que tem menos chances, “o coitadinho”, o mais fraco.

Ao notar os casos de irmãos nestas condições, como: Abel versus Caim, Isaque versus Ismael, Jacó versus Esaú, Perez versus Zerás, Judá versus Rúben, José versus Judá, Efraim versus Manassés, Moisés versus Arão, Davi versus Eliabe e Salomão versus Adonias, geralmente se imagina que Deus fez estas escolhas porque, segundo Rösel, “a bênção divina se impõe contra todas as aparências. Essa também é razão por que se introduz o motivo de sempre o filho sem direito à herança tornar-se o portador da promessa” (Rösel, 2009, p. 23).

É interessante pensar sob a ótica de que Deus estaria atento para reverter a vergonha do desprezado, como fez Douglas, que ao olhar para os casos dos conflitos entre irmãos, ele diz que “as Escrituras sagradas mostram certa predileção pelo filho mais novo como o menos privilegiado” (Douglas, et al. 1995, p. 1315). Todavia, apesar dos possíveis significados que tais afirmações possam trazer, elas não podem ser consideradas como legítimas; pois abordam apenas a escolha divina e não consideram a ocorrência de intervenção dos pais ou das mães.

Todavia, também existem situações que foram aparentemente determinadas por Deus, com ou sem possibilidade de explicação. Neste caso, situações decididas por Deus com possíveis explicações seriam: Abel, em lugar de Caim – pois, Deus olhou para a oferta; Isaque em lugar de Ismael – Deus havia feito uma promessa e Abraão não a entendeu, por isso nasceu Ismael; Jacó em lugar de Esaú – há indícios de uma tentativa de mostrar um interesse mais nobre do menor; Moisés em lugar de Arão – possivelmente por sua experiência no palácio e no deserto.

Já as situações divinas que parecem vazias de justificativas e que deixam transparecer certa arbitrariedade poderiam ser: José como Governador do Egito em vez de Judá; Davi em vez de Eliabe; Salomão em vez de Adonias e Israel em vez da Mesopotâmia ou outra . Nestes exemplos, os irmãos menores tiveram uma trajetória mais bem sucedida que o primogênito e sem qualquer possibilidade de justificativa a respeito.

Há episódios em que o pai é quem promove a possível subversão, também podendo ser dividido em decisões justificadas e as arbitrárias, como Judá (o quarto filho) que é abençoado em lugar de Rúben (como castigo a este por ter coabitado com Bila, a concubina de Jacó); José em detrimento aos demais irmãos (porque era filho da esposa amada); e as decisões sem justificativas são Efraim em vez de Manassés e Sinri (I Cr 26.10).

Também há ocorrências provocadas pelas mães. Por ciúmes Sara ordena a Abraão que mandasse Ismael embora; Rebeca é quem planeja e instiga a Jacó para receber a bênção que Isaque daria a Esaú; e Bate-seba, juntamente com seu partido político, é decisiva na coroação de Salomão como rei sucessor a Davi.

Existem ainda “conflitos” nos quais há o envolvimento do próprio interessado, como na compra da primogenitura e na posse da bênção por Jacó; e a suspensão da primogenitura por castigo, como no caso de Rúben. E ainda há o casamento de Jacó com lia e Raquel, no qual ele escolhe a menor por sua beleza, enquanto que Deus, segundo o hagiógrafo, abençoa a primogênita por ter sido desprezada (cf. Gn 29.31).

Desta forma pode-se encontrar momentos em que a interação divina em favor do mais fraco ou desprezado se destaca, porém não é possível afirmar que esta é a única regra ou a chave hermenêutica ideal para entender todos os casos de brigas ou disputas entre irmãos. Por isso, no próximo artigo continuaremos na explicação da trapaça de Jacó sob o prisma de um contexto maior.