INTRODUÇÃO

A grande novidade do Cristianismo está em sua teologia cristológica. De maneira particular, Paulo nos traz o conhecimento de que, através de Jesus, o Cristo, Deus nos justifica e nos dá o privilégio de sermos “nova criatura”. Paulo nos ajuda a construir uma vida sem medo e livre de qualquer culpa que produza uma dependência doentia da fé. Em sua carta aos Romanos, escreve: “Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 5,1). As Palavras de Paulo não são confortáveis, pois nos levam a refletir sobre a eficácia da nossa fé.

A partir da afirmação do apóstolo, surgem várias perguntas acerca da justificação. Na história da Igreja, não são poucos os pensadores que se debruçaram sobre este tema. De Agostinho a Lutero, muitos buscaram maior clareza e entendimento acerca dessa doutrina, porém com os avanços das ciências humanas e, principalmente da psicologia, o termo exige mais do que uma definição bíblica e se abre uma reflexão mais interdisciplinar, considerando principalmente temas como culpa e sentimento de culpa. Esse ensaio pretende trabalhar a relação justificação e culpa. 

Muitas perguntas surgirão no decorrer do texto, mas algumas serão norteadoras: Por que, entre os fiéis, muitos “sofrem” pelos erros passados, cultivando um pesado sentimento de culpa? O que é a doutrina da justificação? Essa doutrina pode ajudar os fiéis a lidarem com o sentimento de culpa e darem um novo sentido à sua existência?

A fim de responder a essas perguntas, partimos de uma hipótese que nos vem da prática do aconselhamento pastoral e da escuta de alguns testemunhos de lideranças da igreja que tendem sempre a se repetir. De um lado, muitos entendem que, “uma vez salvo”, estão justificados e libertos de toda a culpa. Essa certeza é do campo da consciência, porém isso nos faz questionar quando nos deparamos com fiéis ainda atordoadas pelos pecados passados. Essa “repetição” é do campo do inconsciente e a psicanálise pode nos ajudar a entender o que se passa no interior da fé dessas pessoas. Por outro lado, se o fiel desconhece a culpa e faz o que bem entende em sua comunidade de fé, desconsiderando qualquer lei, deve ser também questionado, pois aqui ele manifesta algo que brota do inconsciente.

Este artigo pretende analisar a conduta religiosa em diálogo com a psicanálise. Conceitos comuns à psicanálise como neurose e perversão ajudarão a pensar, com mais profundidade, as reações religiosas e propor uma pastoral que ajude a igreja a ser sinal de alegria e lugar de festa.

O objeto da reflexão, neste trabalho, diz respeito à justificação e sua relação com o sentimento de culpa: a justificação elimina o sentimento de culpa ou este se torna mais pesado na medida em que se cultiva o arrependimento? A teoria da justificação pode ajudar alguém a lidar com culpa? O caminho a ser seguido exige três passos importantes: primeiro: um olhar para o sentimento de culpa ou a falta dele no trato com a religião; depois, uma análise teológica da justificação e, por fim, a justificação e libertação da culpa.

1. A CULPA COMO PROBLEMA TEOLÓGICO

Não é raro ver, em pessoas que se dizem novos “convertidos”, ou em outras, já com algum tempo de caminhada cristã, a exibição de testemunhos sobre o seu passado pecaminoso e que, na maioria das vezes, refere-se a problemas morais, de ordem sexual, ou ligada a vícios diversos. Em quase todas as falas, o que se manifesta é o sentimento de culpa por ter transgredido a “lei de Deus”. Muitos observam que aceitaram Cristo, como o único Salvador e que, resgatados da culpa e redimidos dos pecados, vivem uma nova vida. Dão a entender que, sob o medo da justiça divina, elas continuam perseguidas pelos fantasmas do passado e pelo “possível” castigo de Deus. Ainda que atribuam a Cristo a graça de sua conversão, o que fica é a desconfiança sobre se ali há uma conversão sincera ou é mera “dependência” de uma fé ingênua e mal orientada. Buscam o alívio em paliativos como rituais, louvores e exorcismos advindos de pregações de líderes religiosos que, já de antemão, sabem o que oferecer. Ainda assim, o sentimento de culpa continua atordoando o fiel, pois em seus contínuos testemunhos são ressaltados, e com ênfase, os “erros” passados.

Por um lado, há a certeza religiosa da justificação divina, através de Cristo; por outro lado, há uma incerteza inconsciente que se manifesta como sintoma, visível em seu comportamento. De um lado, há a certeza da salvação, é certo que, em Cristo, não há mais medo e insegurança; do outro, a persistência da culpa que continua assombrando: o fiel não tira da cabeça o ato da transgressão e muitas vezes há certo prazer nisso. É na comunidade religiosa que ele busca ser compreendido e isso pode levá-lo a uma submissão religiosa, não por iniciativa livre, mas por indução ou coação da própria culpa. Todo o mal ou ressentimento de si mesmo é projetado no outro e, apesar de se dizer convertido, vive como se não o fosse. Essa incerteza inconsciente da remissão pode conduzir à neurose obsessiva.

Freud trata da neurose obsessiva em seu artigo: “Observações Adicionais sobre as Neuropsicoses de Defesa” (1894). Para ele, as ideias obsessivas estão relacionadas às autoacusações sobre o recalque sexual infantil, isto é, sobre aquelas ideias repelidas da  consciência por serem sofridas ou perigosas. Essas ideias tendem a retornar como sintomas primários de defesa: sentimento de vergonha e pensamento obsessivo.

Esses sintomas vêm carregados de sentimento de culpa e será levado ao longo da vida do sujeito enquanto não for trabalhado e simbolizado. Em “Atos Obsessivos e Práticas Religiosas” (1907) Freud observa que o obsessivo tem consciência da finalidade de suas atitudes, porém não as compreende, pois elas expressam motivações e ideias inconscientes. Há, nas suas atitudes, “compulsões” e “proibições”. Ele se sente culpado pelas compulsões que, desde a infância, o atordoavam e, por isso, se envergonha delas e, invés de colocá-las em prática, ele as realiza no pensamento à medida que substitui o agir pelo pensar. Nesses atos, se revelam o sentimento inconsciente de culpa: “Esse sentimento de culpa origina-se de certos eventos mentais primitivos, mas é constantemente revivido pelas repetidas tentações que resultam de cada nova provocação”.

O neurótico obsessivo vive na incerteza e na dúvida, por isso necessita de um superego forte (lei externa) que venha dizer a ele o que é a verdade e como discernir entre o certo e o errado. Ele precisa se proteger das tentações que o envergonham e martirizam suas ideias, por isso cria medidas protetoras como cerimônias, rituais e subserviência às leis, sejam elas humanas ou divinas: “Assim, o cerimonial surge como um ato de defesa ou de segurança, uma medida protetora”.

Por outro lado, há mais um risco. A falta de sentimento de culpa pode levar o fiel a uma apatia em relação à fé, pois vai se sentir totalmente livre e certo que não é mais pecador. Essa negação do sentimento de culpa leva à certeza de que não precisa mais de perdão, pois seus pecados já foram todos perdoados. A absoluta certeza da redenção pode levar, numa perspectiva psicanalítica, à perversão. A perversão, numa perspectiva freudiana, é oposta à neurose obsessiva apesar de se fundamentar também a partir do complexo de Édipo.

Freud, em 1905, em sua obra “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, entendia que a perversão se desenvolve como estrutura e que se manifesta no início da vida, na sexualidade infantil, particularmente naquela fase que ele denomina de Complexo de Édipo (3 a 5 anos). A partir dessa obra, ele aborda esse problema como um desvio de conduta sexual que se desenvolverá pela vida afora influenciando as relações humanas. Essa estrutura manifesta uma realidade inconsciente: o desejo, antes de ser organizado ou freado por uma lei superior e racional se coloca em cena e atua mostrando uma personalidade angustiada. Duas realidades são colocadas na base dessa angústia: a castração, própria do complexo de Édipo e a angústia da alteridade, ligada ao Narcisismo.

Excluído do complexo de Édipo, fase em que deveria se submeter à lei paterna, e da relação com outro, o perverso transgride a lei e sente prazer nisso. Em primeiro lugar, na sexualidade infantil, recusa a lei que impõe limites à relação mãe e filho; em segundo lugar, se satisfaz consigo mesmo e a relação com outro é puramente objetal. Em outras palavras, o perverso recusou a castração edipiana da infância e, diante da impossibilidade da mãe, assimilou uma relação egoísta como substitutiva. Essa situação, estruturada na infância, vai se desenvolver de tal forma que, no mundo adulto, redunda em recusa das leis morais e sociais (SEQUEIRA, 2009). Os atos do perverso não revelam nenhum sentimento de culpa. Tudo lhe é permitido. No campo da fé, o perverso não conhece a culpa e, muitas vezes, com o argumento da absoluta redenção, faz o que bem entende em nome de um Deus que ele procura impor, segundo os seus próprios interesses.

Neurose obsessiva e Perversão aparecem sob duas formas de sintoma: repetindo inconscientemente a transgressão ou não as considerando. Na primeira forma: ainda que a pessoa não cometa mais os erros do passado, ela os relembra e, de forma repetitiva, pelos testemunhos, revela o seu pecado. Relembrar a causa é, de certa maneira, uma forma de lidar com o sentimento de culpa. Na segunda forma: se pode lidar com o sentimento de culpa não dando a devida atenção ou não considerando erradas as transgressões. Nesse caso, esta frase é reveladora: “não existem transgressões ou pecado, pois Jesus já os eliminou”. Esta “suposta” liberdade em Cristo faz com que o sujeito se ache superior aos outros por ter recebido a salvação divina e, porisso, faz o que bem entende e, além disso, é capaz de ver as transgressões alheias sem prestar atenção às suas.

O campo religioso é um lugar revelador desses sintomas, principalmente quando se trata de liderança e liderados. Há aqueles que dizem saber o caminho, e aqueles que procuram o caminho. O perverso oferece salvação aos neuróticos desesperados por autopunição e perdão. Ter um sentimento de culpa demasiado ou não ter nenhum são duas situações prejudiciais à igreja e a uma espiritualidade sadia. Os dois casos precisam ser trabalhados, e uma postura interdisciplinar na interpretação da Bíblia pode ser terapêutica à igreja.

2. POR UMA TEOLOGIA DA JUSTIFICAÇÃO

A justificação é gratuita ou é preciso que a pessoa faça algo para alcançá-la? Eis uma discussão antiga. O primeiro debate, no Novo Testamento, gira em torno de Paulo e Tiago. O primeiro, particularmente, utiliza o termo na Epístola aos Romanos e sempre o relaciona ao perdão dos pecados. A justificação é dom gratuito do Pai que, através de seu Filho, absolve legalmente do pecado (Rm 3,26) e liberta de toda condenação (Rm 8,1). Tiago, em contraste com a fé dos falsos mestres, não se opõe à teologia paulina, pelo contrário, ensina que a fé sem obras é morta (Tg 2,21-26). E não basta conscientizar-se do pecado, é preciso transformação na maneira de pensar e viver a vida. Ter a convicção do perdão, mas não viver a paz gratuita é sinal de contradição. Paulo testemunha a unidade fé e vida: “Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 5:1). Apesar da discussão acerca do ponto de partida, Paulo e Tiago entendem que a justificação é obra de Deus.

Jesus, diante de uma situação de pecado, abomina o julgamento, mas preza pela justiça. Sabe que muitos juízos, sobre os outros, são projeções de pecados e culpas que, não trabalhados, encarceram a alma e se tornam senhores do espírito. O caso da adúltera é um exemplo (Jo 8, 1-10). Jesus observa a cena: uma mulher pecadora e seus acusadores. Diante de tal constrangimento, o mestre indaga sobre o pecado, levando estes a se confrontarem com suas próprias limitações: “quem não tem pecado, atire a primeira pedra”. Jesus não teve a oportunidade de dizer a cada um daqueles que a acusavam: “vá e não peques mais”, pois eles se retiraram antes, mas à mulher, Jesus, antes de dizer tais palavras, ele a levantou, olhou-a com compaixão e a justificou.

O Espírito de Deus instrui sobre o certo e o errado e fortalece a fé daquele que crê para que seja maior do que suas transgressões. Devemos buscar força em Deus para não cair em “tentação” e uma das maiores tentações é o deixar-se dominar pelo pecado e a culpa. Na oração do “Pai nosso”, Jesus ensina isso. Nele os olhos foram abertos, as escamas caíram e o discernimento sobre o justo e injusto torna-se mais claro; nele uma nova vida se faz presente e, até o sofrimento toma outro significado, como nos escreve Paulo: “Fui crucificado com Cristo. Assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. A vida que agora vivo no corpo, vivo-a pela fé no filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20).

Era necessário que Deus, em Jesus, se tornasse humano, a fim de revelar a misericórdia e a justiça divina. Ele sofreu e venceu as tentações, socorrendo, com seu exemplo, àqueles que passam por provações (Hb 2,17-18). À luz dessa palavra, nos certificamos de que Deus conhece o coração humano e sabe de suas dificuldades. Porém, tais limitações não nos livram do arrependimento e da humildade. Deus é fiel e misericordioso, porém a fé é fundamental para a certificação desses atributos.

Na Patrística, Irineu de Lion observará que o desejo de Deus em reunir ou recapitular todas as coisas, decaídas com Adão, se concretiza em Jesus Cristo. Irineu entendia que o castigo da morte foi uma forma de justificação, isto é, de fazer justiça à criação. Mas a forma mais perfeita, a encarnação do Verbo, foi o jeito que Deus encontrou para justificar a humanidade perdida. O pecado perde todo o poder quando a justiça de Deus se revela completamente na pessoa do Mestre de Nazaré. Nele cultivamos a certeza de que, por seu sangue derramado, a pessoa é resgatada e perdoada para sempre:

Não teríamos absolutamente podido aprender os mistérios de Deus se o nosso Mestre, permanecendo Verbo, não se tivesse feito homem. Com efeito, nenhum outro nos podia revelar os segredos do Pai a não ser o seu próprio Verbo. “Quem mais conheceu os pensamentos do Senhor?” Ou “quem mais foi o seu conselheiro?” Por outro lado, não era possível aprender a não ser vendo o nosso Mestre e percebendo com os nossos ouvidos a sua voz, para que imitando as suas ações e praticando as suas palavras tivéssemos comunhão com ele.

Agostinho debateu com os pelagianos relacionando o termo da justificação ao perdão dos pecados. Segundo ele, não é pela vontade e nem por obra humana que a pessoa é justificada, mas pela graça de Deus. Em sua teologia da história, entendia que, pela Graça, Deus criou o ser humano à sua imagem e semelhança (Gn 1, 26-27), porém, com o pecado, sua imagem ficou ofuscada, mas em Cristo a imagem foi resgatada (Cl 1,15). Deus, em Cristo, o “novo Adão”, liberta do pecado e da culpa que ele acarreta. Em Jesus, o caminho para Deus tornou-se acessível.

Em Dogmática evangélica, Alfredo Borges Teixeira escreve que o crente, pela justificação, assume o próprio ato de Deus: o perdão. Livre da punição divina, o fiel se sente capaz de perdoar a si mesmo, reconciliar-se com Deus e amar ao próximo. Pela fé no filho de Deus, podemos prosseguir. Não há nada que nos condene, mas é possível que o cristão deixe de ser justificado ao pecar? Como resistir às tentações? Uma leitura do evangelho de João 1.8-9 pode ser pertinente nesta reflexão.

João escreve: «Se afirmarmos que estamos sem pecado, enganamos a nós mesmos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça” (Jo 1.8-9). O que podemos pensar, acerca dessa leitura, é que em Cristo há uma nova consciência do poder de Deus e do fortalecimento sobre toda opressão. Apesar de justificada, a pessoa está vulnerável à influências deste mundo, mas essa nova consciência é que a fortalecerá em suas relações.

Jesus, na oração sacerdotal diz: «eles não são do mundo, mas estão no mundo, não peço para que os tire do mundo, mas que os fortaleça para vencerem o mundo» (Jo 17:1). Sob a pressão do pecado, a vida neste mundo está sujeita a erros, e a própria humanidade tem suas limitações e dificuldades em relação à perfeição.

A leitura da carta de Efésios capítulos 4 e 5 ajuda a refletir sobre a “nova vida” com Cristo: com ele, apesar dos pecados, aprendemos a viver. Ele, na cruz, pagou as dívidas com a moeda do amor divino e ensinou a compartilhar um novo sentido. Paulo, ao entrar em contato com essa nova realidade, não quis negar aos efésios essa boa notícia. Embora a velha natureza milite, procuramos, com toda força, viver de forma diferente, ou seja, devemos nos converter, mudar de direção. Nessa carta, Paulo, inúmeras vezes, utiliza-se de vários exemplos a fim de exortar a comunidade quanto à nova forma de viver. Insiste, em nome de Jesus, que eles abandonem a velha natureza, destruída pelos enganos do pecado e da culpa.

O que se ressalta é o fato de que Deus perdoou e continua a perdoar, ainda que a tentação persista. Com Jesus no comando, há a certeza da misericórdia de Deus que regenera e justifica. Nele nascemos novamente e, se há um nascimento, este deve contribuir para que a glória de Deus seja manifesta.

3. A JUSTIFICAÇÃO E LIBERTAÇÃO DA CULPA

Considerando os pressupostos acima, como entender a culpa face à teologia da justificação? É comum que a culpa se instale na alma do fiel, como um enigma a ser decifrado e trabalhado. Ele tem consciência de sua angústia, mas não compreende o sentimento de culpa que está por trás. A ignorância religiosa, muitas vezes, confunde e oprime.

O sentimento de culpa se relaciona mais à neurose obsessiva, por isso Freud via uma forte ligação entre religião e neurose. O sentimento de culpa pode ser consciente ou inconsciente. Nos dois casos, é insuportável ter que lidar com ele. Conscientemente, a pessoa procura quitar sua dívida a fim de se livrar dela, porém, há nele um sentimento de cobrança muito forte, quase insuportável, que o leva à angústia e ao desespero de se livrar desse incômodo; inconscientemente, esse incômodo, por mais que a pessoa procure escondê-lo, não consegue, isto é, ele se expressa ou se manifesta de  uma forma ou de outra, principalmente, como diria J. Lacan nas repetições.

Podemos dizer que esse sentimento aparece como sintoma ou mensagem do inconsciente acerca da transgressão da lei de Deus e geralmente está ligada à sexualidade e à moral. É algo de quem se vê perseguido por ter “errado o alvo” ou transgredido os mandamentos divinos. Através da autopunição, o sujeito tenta se redimir das transgressões e busca justificação e remissão junto à sociedade legal e, especificamente, junto à comunidade religiosa que, seguramente, trabalha com o perdão.

O conhecimento acerca de si mesmo, da Bíblia e a convivência numa comunidade de fé, podem ajudar a minimizar esse peso. Um dos conceitos, bem ressaltados na história da teologia cristã, se coloca ao cristão como uma informação importante no processo de conhecimento e vivência: a justificação. A etimologia da palavra diz do ato de fazer justiça a alguém: dikaiõsis. É um substantivo determinado pelo verbo dikaioõ que quer dizer justificar ou testemunhar a favor de um condenado, declarando-o inocente. Sob essa autoridade, o réu se sente livre e pronto para viver sua liberdade. É uma declaração que, independente dos merecimentos da pessoa, chega de forma gratuita, ainda que ela tenha “culpa no cartório”. Na perspectiva da fé, aquele que antes padecia pela culpa do pecado ora é libertado através de Cristo Jesus (Jo 5,24; Rm. 8,1; 2Co. 5,5, 10-11; Ef. 2,1-0).

A teologia da justificação parte da ideia de que o pecado gera uma dívida que só pode ser quitada em Jesus Cristo. O pecador continuará pecador, por sua própria condição humana, mas alegre por saber que o pecado não mais tem poder sobre ele. Se a culpa é fruto do pecado, e se o pecado pode ser vencido, então a culpa não tem mais a última palavra sobre as ações humanas. Os pecados são perdoados e, ainda que permaneça a condição para pecar, permanece a certeza do perdão e da misericórdia divinas. Sob esses pressupostos, podemos considerar algumas contribuições importantes à teologia da justificação.

Os Primeiros teólogos da Igreja entendiam que a justificação é o centro da soteriologia cristã porque ali se concretiza a pura graça de Deus. À luz do pensamento paulino, muitos deles observaram que a justificação é a obra gratuita de Deus que concretiza na vida de Jesus Cristo: “sabedoria, justiça, santificação e redenção” (1Cor 1, 30). Historicamente a humanidade foi condenada pelos pecados de Adão e carrega, ainda hoje, a culpa pela transgressão da lei, mas, pela fé na obra de Jesus Cristo, todos têm acesso à salvação (Rm 5,18). Na fé reside a certeza de que, apesar das transgressões, a pessoa é justificada, e o peso do pecado não tem mais poder sobre ela. É nessa certeza que a pessoa, “nova criatura”, pode lidar com a culpa sem se desesperar.

Agostinho, entre os Pais da Igreja, foi quem mais abordou o tema da justificação. Segundo ele, o pecado, mais que a “deformação” da alma humana, é a deformação da imagem de Deus na pessoa humana; é a decadência do saber sobre uma lei maior e a negação da alteridade. Nesse sentido, o pecado é, como observou M. Huftier, a pretensão humana de “alegrar da própria excelência e de não dever nada a Deus”.

Para Agostinho, a justificação se dá através de Cristo; nele Deus livra a pessoa das suas próprias cadeias ou da pretensão de si mesmo. Em sua obra De Trinitate, à luz da cristologia paulina, ele defendeu que o ser humano, Criatio à imagem e semelhança divina, foi deformatio pelo pecado, porém não ficou sob o julgo da culpa, pois, em Cristo, ele foi reformatio. Essa “reforma” é, para Agostinho, o ato de justificação divina. Em oposição aos pelagianos, o bispo de Hipona observara que todos trazem, desde o nascimento, o signo do pecado, por isso a justificação é necessária: ela é gratuita porque é dom de Deus e independe dos merecimentos humanos; é interior, pois apaga todos os pecados da alma.

Martinho Lutero, seguindo as interpretações de Paulo e Agostinho, observou contra os neopelagianos que a justificação pela fé não é um privilégio pessoal, mas uma ação gratuita de Deus através de Cristo. Essa ação independe das boas obras apesar das fórmulas: “Obras boas e justas jamais fazem um homem bom e justo, mas um homem bom e justo faz boas obras. – Obras más não fazem um homem mau, mas um homem mau faz más obras”.

Na esteira de Lutero, João Calvino observou que não há nada no ser humano que possa merecer salvação, portanto a justificação, que é pura graça divina, é um dom que chega aos fiéis por intermédio de Cristo. O fiel, na perspectiva da Reforma Protestante, é (“simul justus et peccator”), isto é, ele é ao mesmo tempo justo e pecador.14 Justificação não quer dizer perfeição da criatura que recebeu a graça, mas libertação de sua ignorância acerca da lei e vontade divinas. Ainda que o saber-se pecador continue, o que é novidade, no ato da justificação, é a certeza que todos os pecados foram lavados na cruz e que a culpa não tem o poder sobre a alma. A culpa sempre existirá, porém, pelo ato da justificação, o que muda é a forma de lidar com ela: sem opressão e depressão.

A Cristologia ensina que todas as dívidas contraídas pelo pecado foram quitadas em Cristo Jesus. Elas não têm mais o poder de oprimir e desesperar aquele que crê. Na cruz, ele julgou e resgatou a todos trazendo um recomeço e um novo sentido de liberdade. Aquele que acredita em Jesus, como o libertador, que assumiu sobre si toda a culpa e soube vencê-la, não imputa a outrem o juízo. Nele, com ele, e por ele, os pecados são perdoados, e os pecadores, justificados. Ele se entrega como vítima e, sem se fazer de vítima, leva oprimidos e opressores a uma nova consciência. Por sua obra, surge uma nova teologia capaz de influenciar a cultura e demonstrar valores de justiça e amor.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Para concluir, esta reflexão foi uma busca de entendimento sobre a relação pecado, culpa e justificação. Deparamos, muitas vezes, com fiéis que vivem agarrados ao passado, e isso os impede de ver a misericórdia de Deus e seguir adiante em busca de uma nova vida. Outros, não raras vezes, vivem como se fossem deuses, com a ideia de que foram lavados, para sempre, com o sangue do cordeiro. As duas situações não fazem bem à comunidade de fé. Os conceitos da psicanálise sobre neurose e perversão são fundamentais no trato do pecado e da culpa, pois, muitas vezes, a fé se torna mais uma patologia do que um meio terapêutico para ajudar as pessoas a viverem felizes. Na doutrina da justificação, podemos aceitar as discussões da psicanálise, pois assim como Freud, que disse que a civilização consiste em amar e trabalhar e estes atos são justificados por uma ética universal, Jesus, nessa direção, havia dito que o Reino de Deus é justiça e amor.

Ninguém escapa ao pecado, ele está à espreita, e todos estão sujeitos a cair novamente, porém isso não pode levar a uma vida onde a morte fala mais alto. Se houver uma sincera confissão diante de Deus, ele perdoará, pois conhece o coração de cada um. No Antigo Testamento, como também no Novo, homens e mulheres dão testemunhos dos seus pecados, não para se vangloriarem deles, mas para ressaltar a misericórdia e a compaixão. À luz dessa verdade, a vida tem um novo sentido.

É fundamental que os fiéis possam se libertar da culpa do pecado e levar uma nova vida em Cristo, porém, é importante a humildade a fim de reconhecerem que são pecadores e que ninguém está isento de cair novamente. O cristão não deve ter dúvidas sobre o perdão. Pela fé nos reconciliamos com Deus, que se ofereceu de forma graciosa e não meritória em Cristo Jesus, e nos tornamos aptos a receber sua Palavra, como bem escreveu Emil Brunner, e isso, apesar dos nossos pecados, não nos foi tirado.

Ele pagou e redimiu a culpa da humanidade, não há nada que possa condená-la. A paz de Deus deve tomar conta do coração, pois Ele, como bem escreveu o profeta, sabe qual é o melhor plano para a vida (Jr 29:11). O amor de Deus é tão imenso a ponto de perdoar e continuar a oferecer o perdão em todo tempo.

Deus entregou o seu Filho para que, na cruz, pudesse resgatar a humanidade perdida. A partir dele, nasce uma nova criatura, livre da dívida do pecado, porém precisamos ficar atentos às novas dívidas que estão por vir. De acordo com a vontade divina, Paulo escreve aos Coríntios: “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” (2 Cor 5:17-18). Viver uma nova vida é olhar para frente, sem se apegar ao passado; adquirir novas atitudes de glorificação ao Senhor da vida para que sua glória resplandeça.

José Neivaldo de Souza
Priscila Rocha Kume.