RESUMO

 

Na  celebração  dos  500  anos  do  movimento  da  Reforma Protestante,  este  artigo  quer recuperar o pensamento de Lutero a partir de sua contribuição própria: como professor e pregador   da   Palavra   de   Deus. Lutero lê a   Bíblia apresenta elementos históricos e hermenêuticos presentes no legado teológico de Martinho Lutero. Assim como o apóstolo Paulo,  que  como  leitor,  intérprete  das  Escrituras  Sagradas,  escreveu  a  Timóteo  “Tu, porém,  permanece  naquilo  que  aprendeste  e  de  que  foste  inteirado,  sabendo  de  quem  o aprendeste  e  que,  desde  a  infância,  sabes  as  sagradas  letras,  que  podem  tornar-te  sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus. Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino,  para  a  repreensão,  para  a  correção,  para  a  educação  na  justiça,  a  fim  de  que  o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2 Tm 3.14-17), na  mesma  perspectiva  queremos  demonstrar  como  Lutero  nos  conduz  para  as Escrituras Sagradas como a verdadeira Palavra de Deus e fonte para o estudo teológico.

 

INTRODUÇÃO

 

Qual  é  o  principal  legado,  depois  de  500  anos,  do movimento  reformador  iniciado  por Martinho  Lutero  naquele  31  de  outubro  de  1517?  Este artigo  quer  refletir  sobre  o  legado  de Martinho Lutero e demonstrar que, antes de prescrever algo em termos teológicos, Lutero nos inspira a olhar para verdadeira e única fonte em termos teológicos: as Escrituras Sagradas. 

A genialidade de Lutero vista a partir de hoje reflete o seu cuidado pastoral com o texto bíblico.  Assim  como  o  apóstolo  Paulo,  a  obra  de  Martinho  Lutero  difunde  a  fragrância  de Cristo, pois sua cátedra e sua homilia conduziam seus ouvintes e leitores para a obra própria de Deus revelada ao mundo através da pessoa e obra de Jesus Cristo. A Bíblia não é apenas um alimento para  nos  suprir  diariamente,  mas  é  o Pão que  vem  dos  Céus.  Ao se  revelar em  Lei e Evangelho, em meio ao juízo e à misericórdia, em meio à condenação e ao consolo, o professor e  pastor  Martinho  Lutero  nos  conduz  para  as  Escrituras  Sagradas  para  seu  uso  próprio,  não oferecendo uma solução psicológica nem social, mas a única solução que pode vir de um Deus que escreve quem Ele e o que Ele quer nas suas Escrituras.

 

 

  1. LUTERO É CONDUZIDO ÀS ESCRITURAS

 

Lutero é um professor (lector in Biblia), um pregador, um tradutor e um revisor da Bíblia, antes  de  ser  um  reformador.  Por  isso,  para  caracterizar  Lutero  como  reformador  precisamos conectá-lo  com  seu  encontro  e  confronto  com  as  Escrituras.  Para  Lutero,  tudo  depende  da Bíblia  porque  nela  Deus  é loquens,  sendo  ela  é  a viva  vox  evangelii, pois  traz  o  reino  de  Cristo  e produz fé (fides ex auditu) e vida cristã.

Lutero utilizou o púlpito e a cátedra para descobrir um Deus presente media do por sua Palavra (“maturação evangélica”). Alunos, em sala de aula, e o povo, nos sermões, perceberam Lutero lendo e ensinando a Escritura em busca do sentido literal (Lutero é um acontecimento linguístico),  o  sentido  cristológico  e  o  sentido  existencial das  Escrituras  (soteriológico). Lutero aprendeu de Paulo que o teólogo começa e termina sua tarefa ao pé da cruz!

Contrário ao pensamento medieval platônico, que definiu a história humana como nada além de um acidente inconsequente do eterno espírito e significado, Lutero foi ao encontro do sentido  literal  da  Palavra  de  Deus.  Foi  a  resposta  ao  sentido  quádruplo  das  Escrituras Medieval: o literal  (histórico-gramatical),  o alegórico  (espiritual),  o  tropológico  (parenético) e o anagógico (escatológico).

Uma rápida olhada nas Preleções sobre Gênesis nos leva a concluir o que Lutero fez. Lutero no  comentário  aplica  seus  princípios  hermenêuticos  fundamentais  para  interpretar  o  texto bíblico:  primeiro,  a  Palavra  de  Deus  é  manifestada  na  Segunda  Pessoa  da  Trindade, Jesus Cristo;  segundo,  Jesus  Cristo  é  o  centro  e  o  conteúdo  principal  das  Escrituras,  tanto  do Antigo como do Novo Testamento; terceiro, a própria Escritura é sua própria intérprete, visto quem lê a narrativa de Gênesis percebeu seu conteúdo revelado também no Novo Testamento; quarto, a revelação precisa ser vista historicamente, contrária assim à possibilidade alegórica de interpretar o texto; e, quinto, a função querigmática do texto, visto que Deus se pronuncia e  revela  em  Jesus  Cristo,  isto  é  vivo  e  ativo  no  mundo,  portanto,  o  evangelho  é  para  ser proclamado, assume a função querigmática.

Para descobrir esses elementos hermenêuticos, Lutero teve seus embates teológicos com adversários  que  o ajudaram  a forjar  esses  princípios. Lutero teve  pelo  menos  três  adversários que o ajudaram a compreender a Escritura. 

O  primeiro  adversário  foi  o  humanismo  representado  na  controvérsia  com  Erasmo.  Na controvérsia,  Lutero  destacar á que  a  Escritura  Sagrada,  mesmo  com  passagens  obscuras,  é clara  e  não  erra  nas  afirmações  decisivas,  tendo  Cristo  como  o  seu  centro.  Para  Lutero,  a Escritura  Sagrada  promove  a  Cristo  (was   Christum   treibet).  Segundo  Lutero,  contrário  ao pensamento  de  Erasmo, que  definia  a  Escritura  como  texto  igual  ao  outro,  há  uma  clareza externa  e  interna.  A claritas  externa  scriptura faz  reconhecermos  Cristo  como  seu  centro.  Já  a claritas  interna  scriptura é  a  luz  do  Espírito  Santo,  que  clareia  o  coração  obscurecido  do  ser humano. 

O   segundo   grupo   é   representado   pelos   defensores   do sola   scriptura medieval.   A interpretação da Bíblia que chegou a Lutero era validada pelo magistério eclesiástico. Lutero escreve em 1521 contra a norma das normas: “Que o papa teria o poder de interpretar e ensinar a  Sagrada  Escritura  de  acordo  com  a  sua  própria  vontade  e  de  não  permitir  a  ninguém interpretá-la  de  modo  diferente  do  que  ele  quer.  Com  isso  ele  se  coloca acima  da  palavra  de Deus e a rasga e extingue”. A norma das normas teológica medieval era um consenso entre 

Sagrada  Escritura,  tradição,  a  compreensão  de  fé  do  povo  de  Deus  (sensus  fidelium,  a fides carbonaria) e o magistério eclesiástico. Lutero apela para que o texto bíblico chegue ao povo de forma   que   o   compreenda,   mas   também   que   se   retomemos   concílios   para   se   ler hermeneuticamente o texto bíblico.

O   terceiro   grupo   são   os   leitores   entusiastas   do   texto   bíblico.   Basicamente,   os entusiastas  seguiram  Erasmo, separando o elemento externo do interno.  Diz Lutero: “Tudo isso é o antigo diabo e a antiga serpente, que também transformou em entusiastas Adão e Eva, levando-os  da  palavra  externa  de  Deus  a  uma  espiritualidade  de  entusiastas  e  inventiva própria”. Lutero resolve o problema com o ministério pastoral que deve manejar bem a clara e externa  palavra  com  a  gramática,  a  filologia  e  a  hermenêutica  e  administrar  a  palavra  física presente nos meios da graça (Batismo, Absolvição, Proclamação e Santa Ceia).

 

  1. A  HERMENÊUTICA  DE  LUTERO:  A  NATUREZA  E  FUNÇÃO  DA ESCRITURA SAGRADA

 

Para  Lutero,  a  fé  e  a  igreja  são  estabelecidas  pelas  Escrituras  Sagradas.  A  Bíblia  forja  a comunhão de ouvintes. Desta forma Lutero estabelece o principal princípio hermenêutico: de que  a sacra  scriptura  sui  ipsius  interpres  (was  is  das?  do  Catecismo),  o  texto  bíblico  tem  primazia sobre o intérprete. É o texto que me lê. Não é o intérprete que confere sentido ao texto ou que torna  o  texto  compreensível.  Antes,  é  o  texto  que  deve  poder  dizer  aquilo  que  tem  a  dizer  a partir  de  si  mesmo.  A  Escritura  é  autoridade  porque  ela  é  a  voz  do  seu  autor. Não  há obscuridade  nela,  mas  uma  reafirmação  clara  de  seu  conteúdo  ao  buscar  conhecer  a  Deus através de Suas próprias palavras. 

São  as  Escrituras  Sagradas  que  me  dizem  quem  eu  sou. Lutero: “Atenta para o fato de que a força da Escritura é esta: ela não se transmuta naquele que a estuda, mas transforma em si mesma e nas suas forças aquele que a ama”. “Creio que Deus criou a mim juntamente  com todas as criaturas” é uma confissão que brota da autoridade das Escrituras porque me coloca no meu devido lugar: sou criatura!

O lugar apropriado para a criatura se encontrar com seu Criador revelado nas Escrituras é na comunhão daqueles que ouvem, creem e depois falam! Fundamentado na perspectiva de pertencer à igreja una, santa, católica e apostólica, Lutero lê a “pequena Bíblia” (Os Salmos) e afirma que ela te leva à comunhão dos santos, “pois ela te ensina, em alegria, temor, esperança e tristeza, a pensar e falar da mesma maneira que todos os santos pensaram e falaram”.

Quando  reflete  sobre  a  inspiração  das  Escrituras  Sagradas,  Lutero  nos  ajuda  a  ver  a autoridade  da  mesma.  A  pergunta  central  que  levou  Lutero  às  Escrituras  como  autoridade (Lutero  utiliza  96 vezes a palavra “inspirada” para caracterizar a autoridade das Escrituras) era responder à pergunta escatológica de Gênesis: como resolver o juízo de Deus da morte que sobreveio  ao homem  quando este  comeu  do fruto da árvore  do bem  e  do mal  (Gn 2.17)? É  na leitura bíblica  que  ele  se  descobre  como  ele  é  um ens  miserrimum, um  ser miserabilíssimo, que precisa  da  atividade  exclusiva  de  Deus!  Antes  de  ser  ativo  na  leitura  bíblica,  ele sofre  a experiência de um Deus que entra na história. 

Para  tomar  conta  dessa  atividade,  Lutero  estabelece  seu  método  de  leitura  bíblica  a partir  da Oratio,  meditatio,  tentatio retirada  do  Salmo  119  (1539).  Na  leitura  do  Salmo,  Lutero descobriu que a oratio era o contorno da inspiração do Espírito Santo. Não apenas a inspiração original dos Profetas e Apóstolos, mas uma continua inspiração e através das Escrituras que a fé em Cristo Jesus é criada e sustentada. 

Por  isso,  ancorado  na   leitura  e  no  ouvir  das  Escrituras  Sagradas  (oratio),  Lutero entendeu que as Escrituras continuam vivas e ativas como Palavra de Deus, o espaço da ação do Espírito Santo.  Portanto, oratio nada mais  é  do que  a leitura e  em  oração e  meditação.  No seu  comentário  a  Gênesis, Lutero afirma: “Estou muito feliz com o que tenho, a Escritura Sagrada, que abundantemente ensina e alimenta com todo o necessário para esta vida e para a vida que há de vir”.

A oratio envolve os ouvidos, engaja o coração e a mente daquele que recebe a Palavra de Deus em fé. Com os lábios, a palavra implantada no coração é confessada, proclamada e orada (Lutero   descreve    a   sequência    da   Primeira    Tábua–Primeiro,    Segundo   e    Terceiro Mandamentos – Nesta perspectiva). 

O   próximo   passo   conduz   a oratio para   a meditatio. Diferente   do   pensamento espiritualista, a meditação precisa ocorre com a palavra externa. Meditação é oral e  da boca para fora. Meditação tem a ver com promessas e necessidades do próximo (fé e amor). 

Aqui  Lutero  assume  um caráter  pastoral da  Palavra  de  Deus.  À  letra  acrescenta-se  o Espírito. A  palavra (narrativo) torna-se Promessa (promissio)!, “isto é dado em favor de nós”!, porque o favor Dei é donum. A dádiva torna-se evangelho.

Como  a  oração  e  a  meditação  não  ocorrem  em  um  vácuo, Lutero  acrescenta  a tentatio. Baseado no Primeiro Mandamento, onde Deus quer ser o centro da nossa vida “Eu sou o Senhor teu Deus e por isso devemos temer e amar e confiar nele acima de todas as coisas”, a tentatio é  espiritual  porque algo  quer  tomar  o  lugar  de  Deus  na  nossa  vida  e  ela  nos  leva  de volta a Deus. Por isso, Deus assume nossa vida sob o contrário. Portanto, descobrimos Satanás na nossa vida que nos empurra de volta à face de Deus, tornando-nos um doutor em Bíblia.

Se aproximamos, como faz Paulo na sua teologia, o pensamento de Lutero da Escritura Sagrada, precisamos afirmar que Lutero não tem um sola  scriptura, como se defende hoje. Para Lutero, a Escritura não é uma norma formal. A sua autoridade consiste no fato de operar a fé. Se  queremos  atualizar  o pensamento de  Lutero, podemos  definir  a autoridade  das  Escrituras porque dela brota a autoridade causativa, a autoridade que fundamenta a fé. 

Quando perguntamos para Lutero sobre qual é o “artigo que a gente não se pode afastar ou  fazer  alguma  concessão,  ainda  que  desmoronem  céu  e  terra  ou  qualquer outra  coisa” (Artigos de Esmalcalde, II, I,5) (articulus stantis et cadentis ecclesiae), para ele é a compreensão da Bíblia em Lutero que ele aprendeu de Paulo quando aproximou a Cristologia da Soteriologia: “Que  Jesus  Cristo,  nosso  Deus  e  Senhor,  morreu  por  causa  da  nossas  transgressões,  e ressuscitou por causa da nossa justificação”(Artigos de Esmalcalde II, I, 1).

 

  1. A UTILIDADE DAS ESCRITURAS SAGRADAS – O DESDOBRAMENTO DA CRUZ!

 

 

Assim  como  Paulo,  Lutero  também  defende  um  uso  das Escrituras  Sagradas.  À  luz  de Paulo, organizamos o pensamento de Lutero em quatro aspectos.

O  primeiro,  a  Escritura  Sagrada  é  útil  para  o  ensino. É  fundamental  para  Lutero  ler  a Bíblia  em  termos  de Lei  e  Evangelho e  não  separar  o  Antigo  do  Novo  Testamento em  termos duas partes distintas.

Segundo  Lutero,  os  Testamentos  são  distintos  por  sua ênfase: “Assim como o principal ensinamento  do  Novo  testamento  está  em  proclamar  a  graça  e  a  paz  através  do  perdão  dos pecados  em  Cristo,  de  modo  semelhante  o  principal  e mais  próprio  ensinamento  do  Antigo Testamento é ensinar a lei, apontar os pecados e exigir o bem”.

Do  Gênesis  ao  Apocalipse,  Lutero  encontrou  na  Bíblia  um  ponto  focal  totalmente diferente  para  a  religião  e  a  prática  religiosa. Ele  centrou  a  fé  cristã  na  vinda  de  Deus  para  o seu  povo,  e  assim  na  sua  Palavra,  do  modo  como  foi  anunciada,  em  suas  formas  escritas  e  na sua  oferta  sacramental  da  promessa  de  Deus.  Lutero  descobriu  que  o  Deus  revelado  nas Escrituras é, acima de tudo, um Deus de conversa e de comunidade.

A  segunda  utilidade  está  na  repreensão. O  centro  das  Escrituras:  o  Deus  revelado  na Cruz.  Lutero  desencorajou  qualquer  especulação  que  tentasse  revelar  o  que  separa  criaturas humanas pecadoras do Deus Escondido (teologia da glória). Os crentes devem manter o foco em Deus, como ele se revelou em Jesus Cristo e na Escritura Sagrada.

A  leitura  da  Bíblia  com  Lutero  começa  e  termina  ao  pé  da  cruz.  O  amor  de  Cristo, expresso em sua morte sacrificial e sua ressurreição restauradora da vida, coloca tudo o que se encontra nas  Escrituras  em  seu  devido lugar.  Na  cruz,  o ocultamento  do  Deus  que  tem  raiva do pecado é revelado, assim como sua misericórdia infinita, levando os pecadores à vida como novas criaturas através da morte e ressurreição de Cristo.

A  cruz  ergue  a  fé  como  o  fundamento  de  toda  a  vida  humana;  a  confiança  em  Jesus Cristo  molda  a  vida  humana  de  forma  divina. O  ato  de  salvação  de  Deus  na  cruz  e  a ressurreição de Cristo formavam o centro da compreensão de Lutero sobre a história humana e a vida diária individual do crente. Pecca fortiter (1521) (peca com coragem). Lutero não incita ao  pecado.  A  frase  completa  escrita  a  Melanchthon afirma:  “Sê  um  pecador  e  peca  com coragem,  mas  com  mais  coragem  ainda  crê  e  alegra-te  em  Cristo,  que  é  o  vencedor  sobre o pecado, a morte e o mundo”.

A correção é a terceira função das Escrituras Sagradas. A troca feliz é um bom termo para caracterizar  a  “correção”  em  Lutero.  A  partir  da  comunicação  dos  atributos  das  duas naturezas  de  Cristo,  Cristologia,  ela  é  estendida além  do  próprio  Cristo,  para  o  crente (Soteriologia). Aí acontece a troca feliz, quando Cristo toma o meu pecado sobre si e quando ele coloca sobre mim o perdão, a vida e a salvação.

“A alma é copulada com Cristo como a noiva com o noivo, sacramento pelo qual (como ensina o apóstolo) Cristo e alma são feitos uma só carne” (Ef 5.31s.).  Sendo eles uma carne, é consumado  entre  eles  o  verdadeiro  matrimônio,  sim,  o  mais  perfeito  de  todos,  enquanto  os matrimônios humanos são figuras tênues desse matrimônio único.

Daí  se  segue  que  tudo  se  lhes  torna  comum,  tanto  as  coisas  boas  quanto  as  más,  de modo que a alma fiel pode apropriar e gloriar-se de tudo que Cristo possui como sendo seu, e de  tudo  que  tem  a  alma  Cristo  se  apropria  como  se  fosse  seu.  Confiramos  isso,  e veremos coisas  inestimáveis. Cristo  é  cheio  de  graça,  vida  e  salvação;  a  alma  está  cheia  de  pecados, morte e condenação.

Intervenha  agora  a  fé,  e  acontecerá  que  os  pecados,  a  morte  e  o  inferno  se  tornam  de Cristo, e a graça, vida e salvação são da alma. Pois se ele é o noivo, tem que simultaneamente, aceitar o que é da noiva e compartilhar com a noiva o que é seu. Porque, quem lhe dá o corpo e a si próprio, com não lhe daria o que é seu? E quem aceita o corpo da noiva, como não aceitaria tudo o que é da noiva?” (Da Liberdade Cristã, 444).

A correção torna a morte de Cristo na cruz necessária porque é a forma de Cristo existir como pessoa entre   pecadores   e   é   a   forma   para conhecermos   que   Ele   confiou   no   Pai, enfrentando a morte, mesmo que se sentisse abandona do por Deus. Ao olharmos para a cruz, percebe-se como nossa  velha  natureza  chega  ao  fim e conhecemos  nela  o  resgate  de  nosso pecado. Lutero:  “Essa  é  justamente  e  apropriadamente  a  tarefa  dos  apóstolos,  que  eles coloquem a obra e a honra de Cristo na luz e restaurem e consolem as consciências pesarosas” porque  na Cruz  vemos  tanto aqueles  que  crucificaram  o Filho de  Deus  como também  aquele que foi crucificado com ele e salvo!

A educação na justiça é um quarto aspecto que podemos destacar no uso das Escrituras. A  compreensão  bíblica  de  Lutero  de  um  Deus  generoso  e  incessantemente  doador  contradiz com veemência o ativismo moderno, que não quer aceitar nada de presente. A atitude doadora de  Deus  que  é  caracterizada  pelo  ato  de  tornar  justo  o  ímpio  é  do  mesmo  que vivifica  os mortos e chama à existência as coisas que não existem. 

Este é o Deus revelado nas Escrituras que diz “De tudo isso podes comer” (Gn 2.16) e que precisa repetir “Tomai e comei. Isto é o meu corpo, dado por vós” para  que  a  primeira criação tenha sentido novamente após Gênesis 2.17, para evitar, como sugere Nietzsche, num mundo transformado “em mil desertos, mudo e frio”. 

Aí podemos voltar para Gênesis 2.19, quando podemos novamente perceber a liberdade que  já  tínhamos  e  que  ganhamos  novamente  para  perceber  o  mundo  que  nos  cerca,  para organizá-lo e dar-lhe forma, simplesmente dando nomes. Para Lutero, isso acontece no âmbito da responsabilidade nas áreas de interação entre o justificado e o mundo criado por Deus (as ordens da criação).

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

A  pergunta  que  nos  estimula, ao  finalizarmos  este  artigo, é  se  Lutero  nos  ajuda  na leitura da Bíblia. Ou melhor,  podemos  nos  ouvir  a mesma Palavra de  Deus  que  Lutero ouviu, seguindo o apóstolo Paulo?

A resposta precisa ser um sonoro sim! Ler e ouvir a Escritura com Lutero desafia nossa própria aproximação à Escritura, forçando-nos a nos distanciar de métodos fundamentalistas quanto  de  métodos  liberais  de  interpretação  das  Escrituras. E  aprender  com  ele  em  deixar Deus ser Deus com Sua própria revelação.