Escrito por: Dr. Claiton André Kunz

 

 

RESUMO

 

Diante da celebração dos 500 anos da Reforma, é um momento apropriado para revisitar a biografia  de  um  dos  personagens  marcantes  desse  período  da  história  da  Igreja.  Com certeza,  Lutero  não  foi  o  único  reformador,  mas  sua  influência  foi  tão  grande  que  a celebração  da  Reforma  Protestante  é  marcada  a  partir  de  um  dos  seus  atos.  O  artigo pretende mostrar de forma breve sua vida, sua doutrina e suas contribuições.

 

 

INTRODUÇÃO

 

Em   toda   a   história   Deus   sempre   levantou   pessoas   de acordo   com   a   necessidade específica de cada circunstância. Quando o povo de Israel precisava ser liberto da escravidão no  Egito  e  ser  conduzido  à  terra  prometida,  era  necessário  um Líder e  Deus  despertou Moisés.

Quando  o  povo  de  Deus  precisava  fortalecer  sua  esperança  nas  profecias  sobre  a  vinda  do Salvador, o Maravilhoso, o Conselheiro, o Deus Forte, o Pai da Eternidade e Príncipe da Paz, era necessário um profeta e Deus despertou Isaías. Quando o povo de Deus precisava saber que o Verbo já se  havia feito carne  em  Cristo,  e  o aceitasse  por  ser o Cordeiro de  Deus  que  tira o pecado do mundo, era necessário um precursor e Deus despertou João Batista. Quando o povo de Deus  precisava  levar  o  evangelho  sobre  a  morte  e  ressurreição  de  Cristo  para  os  continentes da  Ásia  e  da  Europa  e  até  os  confins  do  mundo,  era  necessário  um missionário, então  Deus despertou Paulo.

Quando o povo de Deus do século XVI precisava ver uma reforma na estrutura da igreja, e  ser  libertada  de  preceitos  humanos, “mercadejadores” da  palavra  de  Deus,  e  de  homens ímpios que transformaram em libertinagem a graça de nosso Deus, era preciso um teólogo e um reformador, então Deus despertou Lutero.

Após  um  longo  período  de  trevas  para  a  Igreja  Cristã,  o  mundo  da  época  estava preparado  para  sofrer  uma  reforma  em  sua  estrutura.  Fatores  políticos,  econômicos,  sociais, religiosos e intelectuais, concorriam para uma atmosfera favorável a qualquer movimento que significasse uma revolta contra Roma. O homem e a ocasião se encontraram na Alemanha do século XVI. Este artigo tem por objetivo contemplar a vida e a teologia deste reformador e sua influência sobre a sociedade de então.

 

  1. UMA BREVE BIOGRAFIA DE LUTERO

 

1.1 Lutero e sua Infância

 

Martinho Lutero nasceu no dia 10 de novembro de 1483, em Eisleben, pequena cidade na Alemanha  central.  Seus  pais,  Hans  Luther  e  Margarete  Ziegler  Luther,  eram  camponeses,  de origem  humilde  e  pobres,  mas  trabalhadores  e  piedosos.  Seu  pai  mudou-se  para  a  cidade  e começou a trabalhar nas minas de cobre e de prata. Não era iletrado, pois amava os livros e a maior  ambição  da  vida  era  ver  o  filho  primogênito  formado  em Direito,  para  ocupar  alguma alta posição na sociedade. Os pais não permaneceram por muito tempo em Eisleben. Havendo melhores    oportunidades    para    minerar,    em    Mansfeld,    mudaram-se    para    lá,    onde permaneceram até o fim  da vida. Hans e Margarete foram muito austeros  para com os filhos. Não  pouparam  a  vara.  Não  raras  vezes  castigavam  com  demasiada  severidade  as  ofensas cometidas  pelos  filhos.  Também,  conscientes  de  seu  dever,  educaram  os  filhos  no  temor  de Deus e na prática do bem.

Martinho   Lutero   ainda   não   atingira   a   idade   de   cinco   anos,   quando   seus   pais   o matricularam  na  escola  primária.  Também  na  escola reinava  severa  disciplina;  numerosas vezes,  os  alunos  eram  espancados  pelos  professores,  mesmo  não  havendo  motivo  para  este castigo.  Assim,  a  infância  de  Lutero  foi  um  tanto  atribulada,  mas  deu-lhe  também  uma têmpera  de  aço  na  resistência  às  perseguições e  lutas  em  que  entraria.  O  que  se  ensinava nestas aulas era pouco mais que superstição e idolatria papistas. Assim foi criado com a ideia de que a Igreja era a “Casa do Papa”, na  qual  o  bispo  de  Roma  tinha  todo  o  direito  como  se fosse o seu dono. Absorvia as superstições tão comuns ao povo, algumas das quais lhe ficaram na vida até o fim.

 

1.2 Lutero e seus estudos

 

Atingindo a idade de quatorze anos, Lutero despediu-se de seus pais e irmãos, viajando para Magdeburgo; pois era desejo de seu pai que ele tivesse um excelente preparo para o seu futuro. Em Magdeburgo, Lutero frequentou o ginásio, cuja fama era, na época, muito superior à   dos   demais   colégios.   Sua   situação   financeira   era   precaríssima,   passando   por   sérias dificuldades  para  se  manter.  Ainda  que  houves se  casas  de  estudantes  na  cidade  e  o  ensino fosse  ministrado  gratuitamente  pelos  monges,  cabia  aos  próprios  alunos  cuidarem  de  sua alimentação.  Assim,  Lutero  viu-se obrigado  a  cantar  diante  das  portas  a  fim  de  obter  o sustento  para  a  sua  vida.  Após  um  ano,a  carência  de  recursos  obrigou-o  a  abandonar  seus estudos em Magdeburgo.

Depois  de  uma  breve  permanência na casa  paterna,  Lutero matriculou-se  no colégio de Eisenach.  Nesta  cidade  residiam  muitos  parentes,  os  quais  seus  pais esperavam  que  lhe ajudassem. Estes  parentes,  porém,  pouco  fizeram  por  ele.  Lutero  novamente  passou  por tempos difíceis em relação aos estudos. Por isso, viu-se obrigado, junto com outros colegas, a mendigar  para  ganhar  alimentos  e  dinheiro.  Um  dia,  uma  senhora  da  alta  sociedade  de Eisenach  compadeceu-se de  Lutero  e  recebeu-o em  sua  casa.  No  lar  piedoso  da  Dona  Ursula Cotta, esposa do comerciante Konrad Cotta, Lutero sentia o primeiro influxo da cultura e das boas  maneiras. Não é  de admirar  que  Lutero sempre  gostava de  lembrar-se  deste  tempo feliz na  cidade  de  Eisenach,  a  qual chamava de “cidade bem-amada”. Nesta cidade,  também  foi mais  feliz  com  seus  mestres.  Na  pessoa  de  João  Trebonius  encontrou  quem  sabia  aliar  a cortesia  à  erudição.  Sob  a  direção  deste  mestre,  Lutero  desenvolveu-se rapidamente.  A  vida escolar tornou-se agradável e proveitosa.

Completados  quatro  anos  em  Eisenach,  Lutero,  agora com  dezoito anos, matriculou-se na Universidade de Erfurt, em 1501. O pai estava agora em condições de ajudar o filho e livrá-lo  das  preocupações  quanto  à  sua  manutenção,  podendo  Martinho  dedicar-se  inteiramente aos estudos. Como estudante, Lutero não participou da vida leve de muitos de seus colegas; ao contrário,  cada  manhã  costumava  iniciar  seus  estudos  com  sincera  oração  e  meditação  na igreja. O seu lema era: “Orar com assiduidade, já é estudar mais que a metade”. Logo, os frutos deste estudo incessante começaram a aparecer: em 1502 obteve o grau de bacharel, e em 1505 o de mestre em filosofia.

Estudante  esforçado, fazia da  oração  parte  integrante do  seu  cotidiano…  De seus colegas recebeu dois apelidos: “filósofo” e “músico ”. De fato, depois da Teologia,  a  Música  foi  que  mais  o  atraiu.  A  Música  constava  do  currículo 

universitário,  mas  estava  ligada  ao  ensino  de  Matemática.  Lutero  teve-a  no currículo, mas soube valer-se dela em outras ocasiões.

Um  dia,  na  biblioteca  da  universidade,  Lutero  encontrou  o  livro  dos  livros,  a  Bíblia,  a qual  nunca  tinha  visto  antes.  Ficou  admirado  ao  constatar  que  ela  continha  muito  mais  do que  as  epístolas  e  evangelhos  que  comumente  eram lidos  na  Igreja.  Examinando  o  Antigo Testamento,  deparou-se com  a  história  de  Samuel e  Ana,  que  leu  com  avidez  e  coração transbordante de alegria, desejando que Deus, um dia, também lhe desse um desses livros de presente e fizesse dele um piedoso Samuel.

A  fim  de  recobrar  sua  saúde,  Lutero  resolveu,  no  ano  de  1505, passar  algum  tempo  na casa  dos  pais.  No seu  retorno para  Erfurt,  desencadeou-se  uma terrível  tempestade. Um  raio caiu  ao  seu  lado,  seguindo-se um estrepitoso trovão. Caindo no chão, exclamou: “Ajuda-me, querida  Santa  Ana,  e  eu  te  prometo  que,  logo  a  seguir me tornarei monge!” Pois só assim ele achava que poderia se reconciliar com Deus e encontrar a tão desejada paz para a sua alma.

 

1.3 Lutero no Convento Agostiniano

 

Lutero  sentia-se  constrangido  pela  sua  consciência  a  cumprir  a  promessa  que  fizera,  e assim,  no  dia  17  de  julho  de  1505,  dirigiu-se  para  o  convento  dos  monges  agostinianos  em Erfurt,  para  ser  admitido  como  frade.  Despedindo-se  de  seus  amigos  e  contra  a  vontade  de seus  pais,  entrou  no  convento  para  achar  no  silêncio  a  paz  de  sua  alma  que  não  conseguira 

alcançar no mundo.

No  convento,  Lutero  submeteu-se a  todas  as  lidas  e  penitências.  Vigiava  à  porta, regulava  o  relógio,  varria  a  igreja  e  fazia  a  limpeza  nas  privadas.  O  mais  difícil  para  ele  era andar  pelas  ruas  da  cidade  em  busca  de  donativos,  pois  os  monges  lhe  diziam  que  é mendigando, e não estudando, que se prestava serviço aos conventos e os enriquecia. Mesmo assim, Lutero encontrava tempo para ler a Bíblia com assiduidade. Posteriormente, o prior do 

convento  dispensou-o  dos  trabalhos  humildes  e  encorajou-o  a  prosseguir  no  estudo  das Sagradas Escrituras.

Em  1507,  recebeu  a  ordenação  sacerdotal.  Como  padre,  pensava  que  poderia  realizar perante Deus obras ainda maiores e mais sublimes. A intenção de Lutero era obter a graça de Deus mediante as obras, a ponto de, posteriormente afirmar de si mesmo: “Com efeito, tenho sido um monge piedoso e, se alguma vez um monge ganhou o céu através da vida monástica, então eu também entraria nele”. No entanto, a paz da alma, que ele não havia encontrado no mundo, não a encontrou no convento, a despeito de todas as boas obras.

Várias  vezes,  Lutero,  ao  estar  deprimido,  foi  consolado  por  outros  frades  do  convento. Numa  ocasião,  Staupitz  disse-lhe:  “Cristo  é  a  remissão  dos  pecados.  Ele  é  o  verdadeiro Salvador  e  você o legítimo pecador. Deus enviou seu Filho e o entregou à morte por nós”. Noutra situação, outro frade consolou-o, dizendo:

Eu  creio  na  remissão  dos  pecados.  Não  é  suficiente  crer,  de  um  modo geral, que  Deus  perdoa  os  pecados,  pois  isso  os  demônios  também creem,  mas  é preciso  crer  que  eles  são perdoados  para  você,  sim,  para  você  pessoalmente. Pois o homem é justificado por graça, por meio da fé.

Assim  já  naquela  época,  penetrava  na  alma  de  Lutero,  mergulhada  nas  trevas  do papismo, um tênue raio de luz.

 

1.4 Lutero como Mestre

 

Após  ter  permanecido  três  anos  no  convento,  Lutero  foi  chamado  para  o  cenário  onde, mais tarde, iria travar-se a luta contra o papado.  No outono de 1508, o monge agostiniano de 25  anos  encontra  seu  novo  lar  na  Universidade  de  Wittenberg,  fundada  por  Frederico  da Saxônia.  Lutero  começou  sua  atividade  docente  como  professor  de  Filosofia,  se  bem  que  de preferência,  teria  feito  preleções  sobre  Teologia.  Mas  já  no  ano  de  1509  recebeu  autorização para dar aulas de exegese escriturística a seus alunos. Assim, dedicou-se com alegria e prazer ao estudo das Sagradas Escrituras, procurando nelas as causas da salvação eterna.

Lutero  também  foi  convidado  a  pregar.  Mesmo  não  querendo  aceitar  logo de  início, cedeu às reiteradas solicitações e começou a pregar a palavra de Cristo numa pequena capela de  convento.  Logo  o  recinto  tornou-se pequeno  demais  para  a  afluência  cada  vez  mais numerosa  de  burgueses  e  estudantes.  Então, abriram-se as  portas  da  igreja  paroquial  de Wittenberg,  tendo  recebido  dela  um chamado  especial,  onde  teve  oportunidade  de  levar  a palavra a milhares de ouvintes.

Em 1511, Lutero recebeu a incumbência de viajar a Roma a fim de tratar de assuntos do convento. Isto fez o seu coração transbordar de alegria, pois esperava encontrar em Roma paz e  alívio  para  a  sua  consciência.  A  viagem  tinha  de  ser  feita  a  pé,  pois  não  havia  outro  jeito,  e durou   treze   semanas.   Lutero,   no   entanto,   não   conseguia   alegrar-se   durante   a   viagem. Continuamente lhe soava nos ouvidos a palavra das Escrituras: “O justo viverá por fé”.

Em  Roma,  cheio  de  devoção,  procurou  saciar  a  sua  alma.  Na  praça  de  São  João, encontrava-se  uma  escadaria  chamada  a  escada  de  Pilatos,  a  qual  antigamente  teria  se encontrado em Jerusalém, tendo o Salvador subido e descido por ela na semana da sua paixão e morte. Quando Lutero galgava de joelhos os degraus dessa escada com o fim de apaziguar a ira  de  Deus  e  fazer  penitência  pelos  seus  pecados,  parecia  ouvir  uma  voz  de  trovão  que bradava: “O justo viverá por fé”. Assim este versículo tornava-se cada vez mais o farol que lhe apontava a verdadeira escada do céu.

Após quatro semanas em Roma, retornou a Wittenberg onde foi convidado a receber o grau  de  doutor  em  Teologia.  Assim  em  outubro  de  1512,  colou  o  grau  de  doutor  em  teologia. Lutero  lançou-se  então  ao  estudo  de  todas  as  Sagradas  Escrituras  e,  pelo  poder  do  Espírito Santo,  não  demorou  a  compreender  a  diferença  entre  lei  e  evangelho.  Só  então  começou  a compreender com clareza e na íntegra o sentido do versículo “O justo viverá por fé”. Cairns descreve assim o momento de “conversão” de Lutero:

Quando  preparava  suas  aulas,  encontrou  a  paz  interior  que  não  conseguia nos ritos, nos atos ascéticos ou na famosa Teologia Germânica dos místicos… A leitura do verso 17 do capítulo 1 de Romanos convenceu-o de que somente pela fé em Cristo era possível alguém tornar-se justo diante de Deus. A partir daí a  doutrina  da  justificação  pela  fé  e  a sola  scriptura,  a  ideia  segundo  a qual as Escrituras são a única autoridade para o pecador procurar a salvação, passaram a ser os pontos principais de seu ensino teológico.

Nesta  época  também  recebeu  outras  incumbências.  Numa  carta  para  um  amigo,  em 1516, ele escreve:

Ser-me-iam  precisos  dois  secretários.  Durante  o  dia  não  faço  outra  coisa senão  escrever  cartas. De  mais  sou  pregador  do  convento,  e,  no  refeitório, todos  os  dias  me  pedem  que  pregue  na  igreja  paroquial.  Sou  vigário  do 

Distrito, isto é, onze vezes prior. Tenho a responsabilidade do lago de peixes de Leitkan, sou mandatário em Torgam no processo dos Frades de Herzberg; faço meu curso sobre São Paulo, recolho notas sobre o saltério e passo os dias escrevendo.  Raramente  tenho  o  tempo necessário  para  recitar  minhas  horas canônicas e rezar minha missa, sem falar das tentações da carne, do mundo e do demônio. Eis o homem desocupado que sou.

Lutero  também  rompeu  com  o  método  tradicional  de  ensinar  a  teologia.  Em  vez  de comentar  sobre  o  Escolasticismo  e  as  tradições,  dedicou-se  à  Bíblia.  Estava, assim,  lançando um  dos  princípios  fundamentais  do  Protestantismo — a  autoridade  suprema  das  Sagradas Escrituras. Os tópicos mais comentados eram a justiça da fé, os méritos de Cristo e a distinção entre a Lei e o Evangelho.

 

1.5 Lutero e as 95 teses

Nesta  época,  Leão  X  era  o  ocupante  do  trono  papal  em  Roma.  O  que este papa acreditava consta das suas próprias palavras que ele dirigiu a um de seus bispos: “Oh quanto dinheiro  já  nos  rendeu  a  fábula  de  Cristo!” A  fim  de  arrumar  dinheiro  para  os  seus divertimentos, instituiu uma indulgência geral como pretexto de que necessitava de dinheiro para continuar as obras  da basílica de São Pedro, em Roma. Esta indulgência foi chamada de Indulgência Plenária, a qual traria grandes benefícios de toda a espécie, incluindo a remissão de pecados, isenção da necessidade de penitência e a libertação de almas do purgatório.

O  arcebispo  Alberto   de  Mognúcia  foi  encarregado da  venda   das  indulgências  na Alemanha.   Este   contratou   monges   que   percorriam   o   território   germânico   vendendo   as mesmas. Entre estes vendedores de indulgências, nenhum agia com tanta má fé como o monge João  Tetzel.  Homem  sem  escrúpulos, que, com  o  fim  de  promover  sua  mercadoria,  fazia afirmações escandalosas, como por exemplo:

Tetzel  e  seus  subalternos  proclamavam  que  a  indulgência  que  vendiam deixava o pecador «mais limpo do que saíra do batismo», ou «mais limpo do que  Adão  antes  de  cair»,  que  «a  cruz  do  vendedor  de  indulgências  tinha tanto  poder  como  a  cruz  de Cristo»  e  que,  no  caso  de  alguém  comprar  uma indulgência para um parente já morto, «tão pronto a moeda caísse no cofre, a alma saía do purgatório».

Eu  não  trocaria  por  certo meus  privilégios  pelos  que  tem  São  Pedro  no  céu; porque  eu  tenho  salvo  mais  almas  com  minhas  indulgências  do  que  o apóstolo  com  os  seus  discursos…  Vinde  ouvintes,  e  eu  vos  darei  cartas 

munidas de  selos,  pelas  quais  até  os  pecados  que  tiverdes  vontade  de 

cometer no futuro vos serão todos perdoados…

Após ter assim se manifestado em muitos lugares, Tetzel chegou também aos arredores de Wittenberg. Suas afirmações causavam repugnância entre os m

ais informados, que sabiam que  a  doutrina  da  igreja  não  era  assim  como  a  apresentava  Tetzel.  Apesar  de  muitos  se ressentirem pela situação, ninguém protestava, e as vendas continuavam. 

Lutero  então  dirigiu  um  apelo  veemente  a  Alberto  de  Mognúcia  e  outros bispos, no sentido de coibir a ação blasfematória do monge Tetzel, porém sem qualquer êxito. Foi então que Lutero fixou suas famosas “95 teses” na porta da igreja do castelo de Wittenberg, no dia 31 de outubro de 1517. Martinho escolhera este dia, pois no dia seguinte celebrar-se-ia o dia de todos  os  santos,  dia  em  que  a  igreja  de  Wittenberg  seria  procurada  por  muitos  peregrinos, que  queriam  receber  as  indulgências  prometidas  aos  que  veneravam  os  santos  exibidos naquele dia (100 dias de indulgências ganhava aquele que venerava um santo).

Esse era o modo usual de se anunciar uma disputa e não havia nada de dramático no ato. Lutero  confiava  receber  o  apoio  do  papa  pelo  fato  de  revelar  os  males  do  tráfico  das indulgências. As 95 teses continham o seguinte cabeçalho:

Uma  disputa  do  Mestre  Martinho  Lutero,  teólogo,  para  elucidação  da virtude das indulgências. Com o desejo ardente de trazer a verdade à luz, as seguintes  teses  serão  defendidas  em  Wittenberg  sob  a  presidência  do  Rev. Frei  Martinho  Lutero,  Mestre  de  Artes,  Mestre  de  Sagrada  Teologia  e Professor  oficial  da  mesma.  Ele,  portanto,  pede  que  todos  os  que  não puderem  estar  presentes  e  disputar  com  ele  verbalmente,  o  façam  por escrito. Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.

O  impacto  foi  tanto  que  esta  data  é  marcada  como  o  início  da  reforma protestante. Imediatamente foram produzidos um grande número de cópias das teses e foram distribuídas por  toda  a  Alemanha,  tanto  no  original  latim,  como  em  tradução  alemã. “Em  14  dias, difundiram-se por toda a Alemanha, e em quatro semanas já eram conhecidas em quase toda a cristandade  como  se  os  próprios  anjos tivessem sido os mensageiros”. O  próprio  Lutero desconhecia o efeito que essas teses haveriam de produzir de acordo com a vontade de Deus. 

Alguns  jubilavam,  pois  seus  corações  adivinhavam  que  através  dessa  doutrina  poderiam alcançar a paz com Deus e sua consciência. Outros, assustados, temiam pela vida de Lutero. A todos  esses  Lutero  assegurava, cheio  de  coragem  e  confiança  em  Deus: “Queridos pais, se a obra  não  é  iniciada  em  nome  de  Deus,  ela  logo  perecerá;  mas  se  for  iniciada  em  seu  nome, então deixai Ele agir”.

 

1.6 Lutero, os Debates Teológicos e a Excomunhão

 

O papa Leão X, no início, não deu muita importância ao assunto, pensando que o litígio em  breve  haveria  de  morrer  por  si  mesmo.  Mas  quando  percebeu  que  o  seu  prestígio  estava cada  vez  mais  ameaçado  pelo  fato  de  muitas  pessoas  piedosas  inclinarem-se a  aceitar  a doutrina  pura  do  evangelho,  ele  intimou  Lutero  a  comparecer  em  Roma  dentro  de  um  prazo de sessenta dias, a fim de responder pela sua heresia. Se Lutero tivesse obedecido à exigência do papa, dificilmente teria escapado da morte ou do cárcere; pois todos sabiam que Roma era qual cova de leões, onde  muitas pegadas levam para o seu interior, mas nenhuma para o lado de fora.

A  interferência  do  príncipe  eleitor  Frederico,  o  Sábio,  conseguiu,  de  acordo  com  os desígnios  de  Deus,  que  Lutero  fosse  inquirido  na  Alemanha.  Esse inquérito  realizou-se em Augsburgo,  sob  a  presidência do  cardeal  Caetano.  Houve  três  encontros  entre  os  dois.  A recepção  foi  fria.  Caetano  queria  obrigar  Lutero  a  retratar-se.  Não  conseguindo  a  retratação dele, no fim do terceiro encontro disse: “Retrata-te ou não voltes mais!”.

Roma  teria  intervido  logo  com  o  dardo  da  excomunhão,  se  não  houvesse  motivos políticos.  Portanto,  não  queriam  ferir  a  pessoa  do  príncipe-eleitor,  o  qual  estava  firmemente decidido  a  não  permitir  que  seu  professor  fosse  excomungado,  sem  antes  ter  sido  ouvido  e contraditado.  Assim,  o  papa  enviou  Carlos  Miltitz  à  presença  do  príncipe  para  fazer-lhe  a entrega de uma rosa de ouro consagrada. Por meio desse estratagema, o papa tencionava obter a simpatia, para que apoiasse a Miltitz na sua missão. Quando, porém, o embaixador do papa chegou à  Alemanha,  constatou  de  imediato  que  era  preciso  tratar  Lutero  com  amabilidade, caso não quisesse indispor-se com o povo.

No   encontro   que   aconteceu   em   Altenburg,   no   ano   de   1519,   Miltitz   mostrou-se extremamente  amável  para  com  Lutero,  pedindo-lhe  que  o  ajudasse  a  restabelecer  a  paz  na igreja. No segundo encontro, chegaram ao seguinte acordo, conforme descrito por Lutero:

 

Primeiro:  É  proibido  às  duas  partes  pregar,  escrever  e  trabalhar  por  mais tempo  em  relação  à  disputa  suscitada.  Segundo:  Miltitz  dará  sem detença 

conhecimento do estado das cousas ao santo padre. Sua santidade ordenará a 

um  bispo  esclarecido  que  promova  sindicância  do  negócio,  e  faça  indicação 

dos  artigos  errôneos  de  que  eu  devo  retratar-me.  Se me  provarem  que  estou em erro, retratar-me-ei de bom grado, e nada mais farei que possa prejudicar a honra ou a autoridade da santa igreja de Roma.

Jantaram  alegremente  juntos  depois  desta  combinação.  Quando  se  separaram, Miltitz deu  um  beijo  em  Lutero.  Mais  tarde,  quando  Lutero  descobriu  a  falsidade do  emissário papista, ele chamou o seu beijo de Judas, pois somente por temor aos partidários de Lutero é que ele desistiu do plano de o levar manietado para Roma.

Eck, um escolástico bem preparado e um dos melhores polemistas de sua época, propôs uma  discussão  pública  com  Carlstadt,  na  cidade  de  Leipzig.

Carlstadt  era  o  campeão  das ideias  de  Lutero e, assim, Eck  queria  enredar  também  a  Lutero  a  partir  dessa  discussão.  Eck formulou  as  teses  para  serem  discutidas  e  escreveu  uma  carta  para  Lutero,  insistindo que estivesse  presente  na  discussão,  visto  que  suas  doutrinas  seriam  atacadas.  Até  aqui  Lutero havia  se  mantido  em  silêncio  sobre  o  assunto, em  obediência  à  sua  promessa  feita  a  Miltitz. Mas, visto que o pacto não fora observado, julgou-se livre para agir.

Desta forma, as três personalidades reuniram-se no ano de 1519, para um debate público. Primeiro  Eck  discutiu  com  Carlstadt  a  respeito  do  livre-arbítrio;  em  seguida,  com  Lutero sobre  o  poder  supremo  do  papa.  Lutero  testificou  que  a  igreja,  de  fato,  precisa  de  um  chefe, mas  que  este  é  Cristo  e  não  o  papa,  e  que  o  poder  que  o  papa  se  arrogava  conflitava  com  as 

Sagradas Escrituras e com os fatos dos primeiros séculos relatados na História Eclesiástica.

Discutiram  também  sobre  purgatório,  indulgências  e  penitências.  Aqui  os  autores  se dividem.  Alguns  dizem  claramente  que  Lutero  saiu  como  o  único  vitorioso,  e  que  Eck  saiu abatido e envergonhado pela sua derrota. Outros dizem que Eck foi muito hábil em conduzir a  discussão,  levando  Lutero  a  tomar  posições  perigosas,  não  podendo  ficar  do  lado  da ortodoxia,  ou  seja, apelando  somente  para  as  Escrituras.  Assim,  ainda  que  Lutero  não  saiu como  vitorioso  deste  debate,  contudo  serviu  para  clarear  sua  própria  mente. A  posição  que tomou  nesta  época  foi  irrevogável;  não  podia  voltar  para  trás  sem  repudiar  a  sua  própria experiência.

Pouco tempo depois do debate em Leipzig, Eck viajou para Roma e persuadiu o papa a ameaçar Lutero com a excomunhão. Isso de fato aconteceu no dia 15 de junho de 1520, através da   bula   papal Exsurge Domine. A   doutrina   de   Lutero   foi   anatematizada   e   seus   livros condenados à fogueira, a fim de extirpar a sua memória entre os cristãos.

A  bula  não  foi  bem  recebida  na  Alemanha.  Lutero  ficou  alegre  com  a  chegada  da  bula, porque  serviu  como  desafio  à verdade  que  pregava.  A  10  de  dezembro  de  1520,  reuniram-se, em  grande  número,  alunos  e  professores,  para  tomarem  parte  na  queima  da  Bula  pontifícia. Lutero, tomando   em   mãos   o   Direito   Canônico,   as   Decretais,   as   Clementinas   e   as Extravagantes   dos   papas, lançou-os   no   fogo.   Depois   de   serem   consumidos   pelo   fogo, levantando a bula, jogou-a no fogo, dizendo: “Visto que afligiste o santo do Senhor, sejas, pois, consumido pelo fogo eterno!”.

Por  este  ato,  Lutero  separou-se  para  sempre  da  Igreja  Católica  Romana.  Teimou  em desafiar o poder mais forte, mais temido no mundo naquele tempo. Daí em diante a sentença de  morte  estava  lavrada;  só  a  providência  divina  poderia  livrá-lo de  sua  execução.  Também chegou  o  tempo  em  que  os  homens  tinham  de  definir-se:  os  mais  tímidos  afastaram-se  de Lutero e da causa que defendia. Mas a grande maioria do povo alemão e também os príncipes e o baixo clero estavam ao lado de Lutero.

No  dia  3  de  janeiro  de  1521,  apareceu  uma  nova  bula  de  excomunhão, Decept  pontificem romanum, na  qual  o papa  pronunciava  a  proscrição  e  a  excomunhão  sobre  Lutero  e  seus seguidores, que no texto são denominados “luteranos”.

No ano de 1521, o imperador Carlos V realizou sua primeira dieta imperial, na cidade de Worms.  Entre  outros  assuntos,  também  deveria  ser  tratada  a  questão  de  Lutero.  Muitos amigos alertaram-no dos riscos que iria correr, achando que seria queimado como acontecera com Huss. Porém Lutero respondeu:

Não  duvido  que  é  do  Senhor,  se  o  imperador  me  intimar  a  comparecer. Se eles  empregam  a  força, que é mui  provável,  minha  causa  será  entregue  ao Senhor porque Ele vive e conservou os três filhos israelitas na fornalha do rei 

da  Babilônia.  Se  Ele  não  me  quer  conservar  a  vida  é  uma  causa  pequena em comparação à causa  de  Cristo,  que  foi  morto  para  a  desgraça  de  todos  e prejuízo de muitos. Podem esperar tudo de mim, menos a fuga ou retratação. 

Não fugirei, muito menos me retratarei. Que o Senhor Jesus me fortaleça.

No  dia  26  de  março,  o  arauto  imperial  Gaspar  Sturm,  um  simpatizante dos  luteranos, chegou  para  escoltar  a  Lutero  com  segurança  até  Worms.  Chegando a Worms, “homens, mulheres e crianças o saudavam em transbordante alegria, bendizendo o dia em que lhes fora permitido ver o homem que ousara romper os laços e as cadeias do papa”.

Também recebeu numerosas  manifestações  de  apoio  da  parte  de  condes  e  nobres.  No  dia  seguinte  Lutero deveria  comparecer  perante  os  grandes  e  poderosos  do  império  e  dar,  na  presença  de  muitas testemunhas, uma corajosa confissão.

Quando compareceu perante a dieta, foi inicialmente questionado sobre seus livros e se os reconhecia como sendo seus. Em seguida, queriam saber se ele estava disposto a desmentir o  seu  conteúdo, ou  se  preferia  permanecer  fiel ao  mesmo.  Lutero  confirmou  ser  o  autor  dos mesmos, mas quanto à questão de desmenti-los ou não, explicou que precisava de tempo para pensar,  já  que  se  tratava  de  um  assunto  que  envolvia  a  fé,  a  salvação  e  a  palavra  de  Deus. Respeitando  a  posição  de  Lutero,  o  imperador  lhe  concedeu  um  prazo  de  24  horas  para meditar sobre a decisão que deveria tomar.

No  dia  seguinte,  compareceu  novamente  perante  a  dieta,  e  com  humildade, mas  com grande alegria e firmeza, expôs tudo o que ensinara e escrevera, somente preocupando-se em buscar  a  glória  de  Deus  e  a  salvação  dos  cristãos.  Pediu, assim, que  o  vencessem  e  o convencessem  por  meio  dos  escritos  dos  profetas  e  dos  apóstolos.  Se  isso  acontecesse,  ele estaria disposto a, voluntariamente, revogar todo erro e a ser o primeiro a lançar os seus livros ao fogo.

No  dia  26  de  abril,  Lutero  deixou Worms,  após  ter  recebido  do  imperador  um  novo salvo-conduto,  válido  por  21  dias.  Assim  visitou  muitos  lugares  e  conhecidos  e  também pregou  em  outros  tantos  lugares.  No  dia  4  de  maio,  quando  viajava  numa  carruagem, cavaleiros armados e mascarados o cercaram, e puxando-o para fora da carruagem fizeram-no montar num cavalo e desapareceram na floresta, levando-o até o castelo de Wartburg. Foi esta uma providência tomada pelo príncipe eleitor Frederico, o Sábio, para proteger o reformador dos seus adversários. Toda a Alemanha ficou consternada com o rapto de Lutero. Durante dez meses  ele  morou  ali,  ocultando  a  sua  identidade  na  pessoa  de  um  cavaleiro  chamado  Georg. Trocou suas vestes monásticas pelo gibão e o culote de cavaleiro, deixando também crescer a barba. Na  quietude  de  seu  retiro,  ocupou-se com  o  estudo  das  Sagradas  Escrituras,  escreveu sermões sobre os evangelhos e traduziu o Novo Testamento para a língua alemã.

Sobre este período em Wartburg, Lindberg afirma:

Lutero dizia que lá, bem acima das colinas que cercavam o castelo, ele estava comodamente  escondido  na  terra  dos  pássaros.  E  esse  descanso  vinha  a calhar   para  aquele   que   o   mestre-cantor   de   Nurembergue,   Hans   Sachs,  chamou de “rouxinol de Wittenberg”.

Ao  tempo  em  que  estava  em  Wartburg,  Nicolau  Storch e  Mark  Stubner,  conhecidos como  profetas  de  Zwickau,  apareceram  em  Wittenberg  e  começaram  a  pregar  e  praticar loucuras,  dizendo  que  eram  iluminados  e  chegando  a  dizer  que  não  precisavam  da  Bíblia, porque recebiam revelações diretamente de Deus. Mesmo sob risco de vida, Lutero retornou a Wittenberg, em   1522.   Depois   de   oito   dias   de   sermões   candentes,   em   que   salientou   a autoridade  da  Bíblia  e  a  necessidade  de  uma mudança  gradual  na  Igreja,  Lutero  aniquilou  os profetas de Zwickau.

No  ano  de  1530,  o  imperador  Carlos  V  convocou  uma  dieta  imperial  para a  cidade  de Augsburgo. Então o príncipe João, o Constante, encarregou seus teólogos de elaborarem uma síntese  breve  e  clara  dos  pontos  principais  da  doutrina  evangélica.  Assim, acompanha do de Lutero,  Melanchthon,  Espalatino,  Jonas  e  Agrícola,  o  príncipe  João  pôs-se a  caminho  de Augsburgo.  Como  Lutero  ainda  era  considerado  um  proscrito  e  a  cidade  de  Augsburgo recusara-se a recebê-lo, o príncipe determinou que ele fosse levado à fortaleza de Coburg, para poder contar com ele em caso de necessidade. Assim, Melanchthon prontificou-se a explanar mais  detalhadamente  a  Confissão.  A  fim  de  obter  a  aprovação  de  Lutero,  ele  enviou  o documento  a  Coburg.  Assim,  originou-se o  documento  que  é  conhecido pelo  nome  de “Confissão de Augsburgo”.

Aproximava-se o dia no qual o pequeno grupo de confessores luteranos deveria, perante o  imperador  e  o  reino,  professar  a  sua  fé  no  Senhor.  Um  dia  antes,  à  noite,  o  príncipe-eleitor João convidou seus companheiros a comparecerem na sua hospedaria. Tendo em sua mão um rolo  de  pergaminho,  o  príncipe  pegou  uma  caneta  e  o  assinou  com  pulso  firme,  enquanto falava:  “O  Deus  todo-poderoso  queria  conceder  sua  graça  eternamente,  assim  que  tudo redunde para sua honra e glória”. A pós  isso,  todos,  decididamente,  assinaram  o  importante documento,  que, no  dia  25  de  julho  de  1530,  foi  lido  diante  do  imperador  alemão  Carlos  V  e dos mais altos dignitários do império.

Por  determinação  do  imperador,  os  teólogos  papistas  se  puseram,  imediatamente,  a elaborar  um  documento,  no  qual  se  procurava  refutar  a  Confissão  de  Augsburgo.  Essa declaração,  conhecida  pelo  nome  de Refutação,  fora,  no  entanto,  tão  mal  redigida,  que  se tornou  imperioso  reescrevê-la.  Melanchthon  escreveu  uma  excelente  defesa  da  Confissão,  a 

Apologia,  a  qual, porém,  o  imperador  não  aceitou,  nem  permitiu  que  fosse  lida,  dando  o assunto  como  encerrado,  estabelecendo  um  prazo  de  meio  ano  para  os  luteranos  refletirem, ordenando-lhes  que  até  lá  deveriam  retornar  ao  seio  da  igreja  católica.  Porém,  os  fiéis confessores  declararam  que  não  tinham  obtido  nenhuma  refutação  bem  fundamentada  na palavra  de  Deus  e  que,  por  isso,  tencionavam  permanecer  na  fé  dos  profetas  e  apóstolos, submetendo tudo mais à graciosa vontade de Deus.

Em 1534, apareceu, pela  primeira vez em língua alemã, a Bíblia na sua versão completa. Em 1522, Lutero já havia traduzido o Novo Testamento, pois convencera-se de que se a Bíblia é  a  fonte  de  ensino  para  a  vida  eterna,  então  ela  precisa  estar  na  língua  do  leitor  cristão.  O Antigo Testamento foi um penoso trabalho feito com a ajuda de uma equipe de colaboradores. Outra  joia  que  Deus  legou  à  cristandade  por  intermédio  de  Lutero  foi,  sem  dúvida,  o Catecismo  Menor. Escrito  em  1529,  o  Catecismo  Menor  servia  de  base  para  a  instrução  da pobre  cristandade,  ou  seja,  uma  forma  sucinta,  simples  e  singela  de  apresentar  a  doutrina cristã. Lutero também fez grande contribuição para o cristianismo, com seus hinos e cânticos. Preocupou-se em  que  o canto não se  restringisse  apenas  aos  clérigos  e  meninos  de  coro,  mas que a comunidade toda devesse cantar hinos em louvor a Deus nos céus, e isso em sua língua materna. 

 

1.7 Lutero e sua vida familiar

 

De acordo com a doutrina da igreja católica romana, não é permitido àqueles que vivem no estado clerical, como monges, freiras e padres, casarem-se. Lutero, no entanto, baseado na palavra  de  Deus,  provou  que  a  doutrina  do  celibato,  conforme  pregada  pela  igreja  católica,  é falsa  e  que  o  matrimônio  é  instituição  divina  e  permitido  a  todas  as  pessoas,  sem  restrição. Assim, no  dia  13  de  junho  de  1525,  Lutero  convidou  seus  amigos  Bugenhagen, Justus  Jonas, Apel e o pintor Lucas  Kranach com sua esposa para a ceia, e na presença deles casou-se com Catarina de Bora.

O casamento de Lutero com Catarina foi abençoado com seis filhos, que foram educados segundo os padrões de uma disciplina austera e no temor de Deus. O quanto Lutero amava a seus  filhos  mostra,  de  modo  extremamente  tocante,  o  seu  comportamento  por  ocasião  da enfermidade  e  morte  de  sua  filhinha  Madalena.  Para  as  pessoas  presentes,  expressou-se  da seguinte maneira: “Estou alegre em espírito, mas, segundo a carne, estou muito triste. A despedida sempre nos causa uma profunda dor. Coisa esquisita é saber-se que ela está em paz no céu, e a gente, assim mesmo, sentir-se tão triste”.

O  príncipe-eleitor  João  cedeu,  por  moradia  a  Lutero,  o  antigo  prédio  do  convento.  Era um  vasto  casarão,  com  um  lindo  jardim,  junto  ao  muro  da  cidade.  As  limitadas  celas conventuais   foram   transformadas   em   amplas   dependências. Neste   renovado   ambiente, Catarina montou o seu lar. A família era muito generosa para com os pobres e sempre pronta a receber  hóspedes  em  sua  casa.  Rara  era  a  semana  em  que  não  sentasse  um  estranho  à  sua mesa.  Muitas  vezes,  amigos,  estudantes,  doutores  e admiradores  de  toda  espécie,  faziam refeições  com  eles,  que  geralmente  eram  frugais,  temperadas  com  diálogos  sérios  ou  alegres. Após a refeição, apreciavam uma bela música tocada com os amigos e com os filhos.

Comentando  sua  vida  matrimonial,  Lutero  escreve: “Deus quis a realização do meu casamento  e,  para  mim,  não  podia  ter  sido  melhor,  pois  tenho  uma  esposa piedosa  e  fiel,  em quem o coração do marido pode confiar; ela é a companheira ideal”.

 

1.8 Lutero e sua Morte

 

Poucos  dias  antes  de  sua  morte,  Lutero escreveu a um amigo, dizendo: “Estou farto do mundo  e  o  mundo  de  mim;  assim  é  fácil  a  gente  se  despedir,  como  um  hóspede  que  deixa  a estalagem. Por isso, eu peço um fim abençoado e não me prendo mais a esta existência”.

No início de 1546, Lutero foi convidado a ir a Eisleben, a fim de apaziguar uma contenda surgida entre os condes e seus súditos. Mesmo estando já muito enfraquecido, esforçou-se no sentido  de  remover  todos  os  pontos  de  divergência  nesta  cidade.  Então  Lutero  tomou  a resolução  de  voltar  para casa  dentro  de  poucos  dias;  Deus,  porém,  já  decidira  de  modo diferente.

No dia 17 de fevereiro, Lutero já não mais conseguira participar das negociações em vista da sua crescente fraqueza. Na noite deste mesmo dia, ao deitar-se, orou assim:

Meu querido Pai celestial, Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, Deus de todo consolo, graças te dou porque revelaste teu querido Filho Jesus Cristo, em  quem  eu  creio,  a quem eu  tenho pregado  e confessado, a  quem  eu tenho amado e enaltecido e a quem o papa desprezível e todos os ímpios desonram, 

perseguem  e  ofendem.  Suplico-te,  Senhor  Jesus  Cristo,  que  tomes  conta  de minha alma.  Ó  Pai celestial,  se  devo  deixar  este  corpo e  ser  arrancado  desta vida, tenho a absoluta certeza de que estarei eternamente em tua companhia e que ninguém me arrebatará das tuas mãos.

Assim,  entre  duas  e  três  horas  da  madrugada  do  dia  18  de  fevereiro  de  1546,  Lutero virou-se para o lado, e adormeceu, tranquilo e bem-aventurado, na fé em seu Salvador. No dia 19,  o  corpo  de  Lutero  foi  levado  para  a  igreja  do  castelo  de  Eisleben  e  depositado  diante  do altar. No dia seguinte, o Dr. Cölius proferiu um sermão, e depois o corpo foi transladado para a cidade de Wittenberg, onde, após ser velado pela família, amigos, professores, estudantes e o povo em geral, foi sepultado na Igreja do Castelo de Wittenberg.

 

  1. LUTERO E SUA DOUTRINA

 

Paul Althaus referiu-se a Lutero como um “oceano”. Essa imagem aplica-se não somente à  sua  enorme  produção  literária,  mas  também  à  sua  poderosa  originalidade  e  enervante profundidade.   Apenas  dois   outros   teólogos   na   história da   Igreja,   Agostinho   e   Aquino, aproximam-se   da   estatura   de   Lutero;   apenas   outro   conjunto   de   escritos,   os   próprios documentos do Novo Testamento, foram estudados com tanto escrutínio quanto as obras do reformador de Wittenberg. Não é difícil afogar-se num oceano assim.

Lutero  não  era  apenas  um  ouvinte  da  Palavra,  mas  certamente  um  cumpridor  dela. Contudo, o ouvir, o receber, era primordial para Lutero. 

Fides ex auditu, “a fé vem pelo ouvir”, é talvez  o melhor  resumo de  sua  descoberta  da  Reforma.  Lutero  não  se  tornou  um  reformador porque  atacou  as  indulgências.  Ele  atacou  as  indulgências  porque  a  Palavra  já  havia  criado raízes profundas em seu coração.

A teologia de Lutero era ao mesmo tempo bíblica, existencial e dialética.

Lutero  era  um  teólogo bíblico.  Isso  significou  uma  ruptura  radical  com  o  currículo padrão da teologia escolástica e uma reorientação da teologia ao texto bíblico. Lutero resumiu assim seu ataque contra a teologia escolástica num disparo contra Aristóteles:

É   um   erro   dizer   que   o   homem   não   pode   tornar-se   um   teólogo   sem 

Aristóteles. A verdade é que não pode tornar-se um teólogo sem se livrar de Aristóteles.  Em  resumo,  comparado  com  o  estudo  da  teologia,  o  todo  de Aristóteles é como a escuridão para a luz.

Para Lutero, no campo da verdadeira teologia, a razão funcionava apenas ex post facto, ou seja, como princípio ordenador pelo qual a revelação bíblica era claramente apresentada.

Quando  chamamos  Lutero  de  teólogo existencialista,  querem os  dizer  que,  para  ele,  o interesse  por  Deus  era  uma  questão  de  vida  ou  morte,  envolvendo  não  apenas  o  intelecto  de um   homem,   mas   sua   existência   como   um   todo.   Para   Lutero,   a   teologia   era   sempre intensamente  pessoal,  experiencial  e  relacional.  Podemos  ver  melhor  este  conceito  mediante três expressões cruciais do vocabulário de Lutero:

Coram Deo: a existência humana é vivida coram Deo, “diante de Deus” ou “na presença de Deus”. O Deus vivo da Bíblia é o Deus que nos encontra em juízo e misericórdia, o Deus que nos condena e nos salva.

Christus pro Me: o âmago da teologia de Lutero era que, em Jesus Cristo, Deus deu-se a si mesmo,  absolutamente  e  sem  reservas,  para  nós.  Apenas quando  reconhecermos  que  Cristo foi dado pro me, pro nobis (por mim, por nós), teremos discernido a importância da realização de Cristo. A boa nova é que, em Jesus Cristo, o Deus soberano é por nós, não contra nós.

Anfechtung: essa palavra é muitas vezes pobremente traduzida por “tentação”, mas na verdade  significa  pavor,  desespero,  sensação de perdição, agressão e ansiedade. “Ninguém deve  seguir  seu  caminho  segura  e  despreocupadamente,  como  se  o  diabo  estivesse  longe  de nós”. A fé genuína e a verdadeira teologia são forjadas sobre a bigorna da tentação, porque só a experientia faz um teólogo.

A terceira marca da teologia de Lutero era seu caráter dialético. Lutero parecia regalar-se em paradoxos. Falava constantemente em dualismos: lei e evangelho, ira e graça, fé e obras. A verdade só pode ser alcançada quando confrontada com uma verdade contrastante.

 

2.1 A Palavra de Deus: Sola Scriptura

 

Lutero tratou de fazer da Palavra de Deus o ponto de partida e a autoridade final de sua teologia,  e  nela  descobriu  a  resposta  para  suas  angústias  espirituais.  A  Bíblia  é  a  Palavra  de Deus, não porque seja infalível, ou porque seja um manual de verdades que os teólogos podem utilizar em seus debates entre si. “A Bíblia é a Palavra de Deus porque nela chega Jesus Cristo até nós. Que lê a Bíblia e não encontra nela Jesus Cristo, não tem lido a Palavra de Deus”.

Diz-se  que  Lutero  encontrou  um  cânon  dentro  do  cânon,  pelo  qual  todo  o  texto  das Sagradas Escrituras devia ser avaliado. Por outras palavras, enquanto ninguém pode julgar as Escrituras, as próprias Escrituras são sua crítica. “O que quer que não ensine Cristo  não  é apostólico, mesmo quando é Pedro ou Paulo quem ensina. Além disso, o que quer que pregue a  Cristo  deve  ser  apostólico,  mesmo  que  sejam  Judas,  Anás,  Pilatos  e  Herodes  que  estejam fazendo”.

 

2.2 A Justificação pela Fé Somente: Sola gratia e Sola fides justificate

 

O  protestantismo  nasceu  da  luta  pela  doutrina  da  justificação  pela  fé  somente.  Para Lutero,  era  o  resumo  de  toda  doutrina  cristã,  o  artigo  pelo  qual  a  igreja  se  mantém  ou  cai. 

Lutero afirmou certa vez:

Comecei a entender que “a justiça de Deus” significava aquela justiça pela qual o homem justo vive mediante o dom de Deus, isto é, pela fé. É isso o que significa:  a  justiça  de  Deus  é  revelada  pelo  evangelho,  uma  justiça  passiva com  a  qual  o  Deus  misericordioso  nos  justifica  pela  fé, como  está  escrito: 

“Aquele  que  pela  fé  é  justo,  viverá”.  Aqui,  senti  que  estava  nascendo completamente  de  novo  e  havia  entrado  no  próprio  paraíso  através  de portões aberto.

Noutra ocasião Lutero faz a seguinte declaração: “Portanto, meu querido irmão, aprenda a Cristo e o aprenda crucificado; aprenda a orar a ele, perdendo toda esperança em si mesmo, e diga: Tu Senhor Jesus, és a minha justiça, e eu sou o teu pecado; tomaste em ti mesmo o que não eras e deste-me o que não sou”.

Lutero, porém, era cuidadoso em guardar-se contra a tentação de considerar a própria fé uma  obra  meritória.  Falando  corretamente,  em  si  mesma  a  fé  não  justifica;  ela  é,  por  assim dizer, o órgão receptor da justificação. Ela não faz a graça existir, mas simplesmente tornar-se cônscia de algo já em existência. Ter fé é aceitar a aceitação que é nossa em Jesus Cristo. Mas essa  não  é  uma  atividade  humana  autogerada,  é  dom  do  Espírito  Santo.  A  pessoa  que  assim recebeu o dom da fé é descrita por Lutero como “ao mesmo tempo justa e pecadora” (simuliustus et peccator ou, posteriormente, semper iustus et peccator):

Não se trata de que o pecador deixe de ser pecador quando é justificado. Pelo contrário, quem recebe a justificação pela fé descobre nela mesma o quanto é pecador, e não por ser justificado é que deixa de pecar. A justificação não é a ausência do pecado, mas o fato de que Deus nos declara justos ainda que em meio ao nosso pecado, de igual modo ao evangelho que acontece sempre em meio à lei.

A  doutrina  da  justificação  de  Lutero  caiu  como  uma  bomba  na  paisagem  teológica  do catolicismo   medieval.   Ela   arrasou   toda   a   teologia   dos   méritos   e,   na   verdade,   a   base penitencial-sacramental, da própria igreja. Surge então a pergunta: será que Lutero não tinha lugar algum para as boas obras?

Enquanto  de  maneira  alguma  somos  justificados  pelas  obras,  elas  devem  seguir-se  à  fé como seu fruto característico. O fruto da justificação é a fé ativa no amor. A justificação pela fé somente  liberta-me  para  amar  meu  próximo  desinteressadamente,  por  causa  dele  mesmo, como  meu  irmão  ou  irmã,  não  como  meio  calculado  para  meus  próprios  objetos  desejados. Estamos  livres  para ser de  Cristo uns  para os  outros.  Esta verdade  pode  ser vista claramente em uma de suas declarações:

Um cristão é senhor livre de todas as coisas e não sujeito a ninguém pela fé. Um cristão é servidor de todas as coisas e sujeito a todos pelo amor.

 

2.3 O Conhecimento de Deus

 

Lutero  concordava  que  era  possível  ter  certo  conhecimento  sobre  Deus por  meios puramente  racionais  ou  naturais.  Este conhecimento  permite  ao  ser  humano  saber  que  Deus existe, e distinguir entre o bem e o mal. Porém este não é o verdadeiro conhecimento de Deus. Todos  os  esforços  da  mente  humana  para  elevar-se  ao  céu  e  conhecer  a  Deus  são  totalmente inúteis. O fato é que Deus em sua revelação se nos dá a conhecer de um modo muito distinto. A  suprema revelação  de  Deus  tem  lugar  na  crus  de  Cristo,  e, portanto, Lutero  propõe  que  se siga o caminho da “teologia da cruz”.

O  que  essa  teologia  busca  é  ver  a  Deus,  não  onde  nós  queremos  vê-Lo, nem como  nós  desejamos  que  Ele  seja,  mas  sim  onde  Deus  se  revela,  e  como  Ele mesmo se revela, isso é, na cruz.

 

2.4 A Predestinação: deixem Deus ser Deus

 

Somos  justificados  não  porque  Deus  nos  está  tornando  gradualmente  justos, mas porque fomos declarados justos com base no sacrifício expiatório de Cristo. Lutero defendeu a tese: “Depois da queda, o livre-arbítrio existe apenas nominalmente, e, enquanto alguém ‘faz o que está em si’, está cometendo um pecado mortal”.

Então,  será  que  Lutero  era um  determinista  absoluto?  Não.  Ele  nunca  afirmou  que  o livre-arbítrio  mantém  seu  poder  em  assuntos  que  não  se  relacionam  com  a  salvação.  Assim, Lutero disse a Erasmo certa vez: “Sem dúvida você está certo em conferir ao homem algum tipo de arbítrio, mas imputar-lhe um arbítrio que seja livre nas coisas de Deus é demais”.

A  doutrina  da  predestinação  defendida  por  Lutero  não  era  motivada  por interesses especulativos ou metafísicos. Era uma janela para uma vontade graciosa de Deus, que se ligou livremente à humanidade em Jesus Cristo. A predestinação, como a natureza do próprio Deus, só pode ser atingida mediante a cruz de Cristo.

 

2.5 Lutero e a Igreja

 

A última coisa na vida que Lutero queria fazer era começar uma nova igreja. Ele não era um  inovador,  mas  um  reformador.  Ele  nunca  se  considerou  algo  além  de  um  membro verdadeiro  e  fiel  da  igreja  una,  santa,  católica  e  apostólica.  Mas  o  que  era  igreja  para  Lutero? Igreja é: “cristãos santos e ovelhas que ouvem a voz do seu pastor”. Lutero não gostava da palavra alemã 

kirche, porque veio a significar a construção ou a instituição. Ele preferia Gemeine [ou Gemeinde] (comunidade),  ou Versammlung (assemble ia). A verdadeira  igreja  era  o  povo  de Deus, a comunidade de cristãos ou, como diz o Credo dos Apóstolos, a comunhão dos santos. A doutrina da igreja para Lutero possuía três facetas:

  1. a) A  prioridade  do  evangelho:  Lutero  sustentava  que  o  evangelho  constituía  a  igreja, não o contrário (a igreja constituindo a Palavra de Deus). Assim, a graça de Deus era a graça de Deus. Não podia ser comprada, vendida ou parcelada em indulgências.
  2. b) A Palavra e o Sacramento: Lutero recuperou a doutrina paulina da proclamação: a fé vem pelo ouvir, o ouvir pela Palavra de Deus. Mas como ouvirão sem um pregador (Rm 10.17)? Ele não inventou a pregação, mas a elevou a um novo status dentro do culto cristão. Para ele, as três marcas de um bom pregador são estas: ele se levanta, fala e sabe quando se calar!

Ao   lado   da   Palavra   corretamente   pregada   estão   os   sacramentos adequadamente administrados.  Lutero  atacou  o  sistema  sacramental  do  catolicismo  medieval,  sustentando  a autenticidade  de  apenas  dois  sacramentos:  o  batismo  e  a  santa  comunhão.  Esses  dois  atos possuem em comum as seguintes características:  1) ambos proclamam o perdão dos pecados, 2)  não  são  eficazes  em  sua  celebração,  mas  na  fé  que  se  tem  neles  e  3)  são  extensões  ou instâncias  separadas  da  Palavra de  Deus  e, assim,  comunicam  à igreja as  promessas  infalíveis de Deus.

  1. c) O  Sacerdócio  de  Todos  os  Santos: a  essência  de  sua  doutrina pode  ser  expressa numa  única  frase:  todo  cristão  é  sacerdote  de  alguém,  e  somos  todos  sacerdotes  uns  dos outros.  O  fato  de  que  somos  todos  sacerdotes  significa  que  cada um  de  nós,  cristãos, pode  ir perante Deus e interceder pelo outro. Isto implica que ninguém pode ser um cristão sozinho.

 

2.6 Lutero e o Estado

 

Segundo  Lutero,  Deus  tinha  estabelecido  dois  reinos,  um  sob  a  lei  e  o outro  sob  o evangelho.  O Estado  opera  debaixo  da  lei,  e  seu  principal  propósito  é  pôr  limites  ao  pecado humano. Sem o Estado, os maus não teriam freios. Os crentes, por outra parte, pertencem ao segundo reino, e estão debaixo do evangelho. Como governantes, sua obediência se deve à lei e não ao evangelho. No reino do evangelho, as autoridades civis não têm poder algum. E no que se refere a esse reino, não estão sujeitos ao Estado. Porém, não esqueçamos que os crentes, ao mesmo  tempo  que  são  justificados  pela  fé,  continuam  sendo  pecadores.  Portanto,  enquanto somos  pecadores,  todos  estamos  sujeitos  ao Estado.  O  que  isso  quer  dizer  em  termos concretos é que a verdadeira fé não tem de impor-se mediante autoridade civil, mas mediante a proclamação da Palavra.

A causa fundamental dos abusos da igreja na época, era que o papa se recusava a “abrir mão”  do  senhorio  temporal.  O  papa  deveria ter  exercido  nenhuma  autoridade  sobre  o imperador ou sobre outros governantes seculares. Sua função não era reger nações, mas pregar o evangelho. Se os católicos confundiam os dois reinos na direção de uma teocracia papal, os anabatistas  separavam  muito  precisamente  os  reinos  em  nome  do  separatismo  religioso. 

Lutero  insistia  na  origem  divina  do  Estado,  nos  limites  de  seu  poder  e  na  base  para  a participação do cristão em sua atividade coercitiva. O pastor instava seu rebanho a obedecer à autoridade temporal, enquanto o príncipe protegia a igreja da violência da massa. Sempre que as ordens dos dois reinos se chocarem, o cristão deve dizer com Pedro: “Antes importa obedecer a Deus do que aos homens” (At 5.29).

 

 

  1. LUTERO E SUAS CONTRIBUIÇÕES

 

Sem  dúvida  alguma, Lutero  foi  um  gigante  da  Igreja;  sua  influência  ultrapassou  os limites  do  tempo.  As  igrejas  luteranas  da  Alemanha  e  dos  países  escandinavos  nasceram  do seu  trabalho.  Para  elas,  elaborou  ele  os  Catecismos  Maior  e  Menor;  preparou  apostilas  para ajudar  os  ministros  em  seus  sermões;  desenvolveu  um  sistema  de  governo  eclesiástico;  deu  a Bíblia  alemã,  que  em  muito  contribuiu  para  padronizar  a  língua,  além  de  compor  belos  e grandiosos hinos, como “Castelo Forte”, próprio para o cântico congregacional no vernáculo.

Além disso, criou um sistema de educação elementar para que o povo pudesse aprender a  ler  a  Bíblia  em  alemão;  a  execução  dessa  tarefa  foi  recomendada  aos  governos  das  cidades alemãs numa  carta  de  1524;  em  1530,  ele  lembrou  aos  pais  o  dever  de  enviarem  seus  filhos  à escola.   A   educação   elementar   compulsória   teve   nesses   esforços   os   seus   primórdios. Interessou-se ainda ele pelas escolas secundárias e pela educação universitária.

Lutero recolocou a pregação em seu devido lugar, restabelecendo um meio de instrução espiritual  largamente  usado na Igreja Primitiva.  Ademais, levou  sua  geração  a perceber que  a cultura não era mais uma questão da razão, mas da regeneração pela fé em Cristo. Lutero fez do individualismo da Renascença um assunto espiritual ao propor que o indivíduo pela fé em Jesus Cristo podia manter uma comunhão salvífica com Deus. Para substituir a igreja como a autoridade,  ele  apresentou  a  Bíblia  como  a  regra  de  fé  e  prática  infalível  que  todo  crente-sacerdote  poderia  usar  para  se  orientar  em  questões de  fé  e  moral.  Lutero  não  negou  a necessidade   de   uma   relação   comunitária   na   Igreja;   ao   contrário,   insistiu   sempre   na importância da comunhão dos membros do Corpo de Cristo.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Um  dos  piores  momentos  da  vida  de  Lutero  aconteceu  quando  sua  amada filhinha Madalena,   que   mal   tinha   14   anos   de   idade,   foi   atingida   pela   peste.   Com   o   coração despedaçado,  ele  ajoelhou-se  ao  lado  da  cama  dela  e  suplicou  a  Deus  que  a  livrasse  do sofrimento.  Quando  ela  morreu  e  os  carpinteiros  estavam  pregando  a  tampa de  seu  caixão, Lutero gritou: “Fora com os martelos! No dia do juízo, ela se levantará novamente”. Talvez esta frase mostre o quanto a sua teologia causava impacto sobre sua própria vida. 

Lutero  “nunca  se  considerou  o  fundador  de  uma  nova  organização  eclesiástica.  Ele dedicou  sua  vida  à  reforma  da  Igreja  e  à  restauração  da  doutrina  paulina  da  justificação  à posição central na teologia cristã”. Quanto a sua obra, ele mesmo disse:

Simplesmente ensinei, preguei, escrevi a Palavra de Deus; não fiz mais nada. E então,  enquanto  eu  dormia,  a  Palavra  enfraqueceu  tão  intensamente  o papado que nenhum príncipe ou imperador jamais fez estrago assim. Não fiz nada. A Palavra fez tudo.

O legado de Lutero, diferentemente de outros, não se encontra na santidade de sua vida. Muitos  foram  seus  vícios,  às  vezes,  mais  visíveis  do  que  as  virtudes.  O  verdadeiro  legado  de Lutero é sua percepção espiritual do caráter gracioso de Deus em Jesus Cristo, o Deus que nos ama e nos sustenta até a morte e de novo até a vida.

Ao  final,  poderíamos  nos  referir  a  Lutero  com  as  palavras  do  apóstolo  Paulo,  do  seu testemunho em Antioquia (quando falava de Davi): “Porque  na  verdade,  tendo  «Lutero»  servido  à sua própria geração, conforme o desígnio de Deus, adormeceu e foi para junto de seus pais” (Atos 13.36).

 

 

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