Perante a questão da exclusão, está uma concepção sobre como cada sociedade observa a ordem social. Algumas sociedades se vêem como um todo solidário; outras como agregados de indivíduos automizados que se relacionam através do mercado, e outras ainda como necessariamente permeadas por conflitos de grupos que tentam defender seus próprios interesses excluindo os demais. Para Dupas (2001, p.18), há três formas diferentes para se entender a integração social, denominando-as: paradigma da solidariedade, paradigma da especialização e paradigma do monopólio.

No paradigma da solidariedade, a exclusão é vista como quebra de vinculo social entre indivíduos e sociedade, em que o Estado tem a obrigação de ajudar na inserção dos excluídos. No paradigma da especialização, a exclusão é um reflexo da discriminação e, não haveria exclusão caso os excluídos pudessem transitar livremente pelas categorias sociais, sendo esta uma obrigação do Estado. No paradigma do monopólio, a exclusão seria a conseqüência da formação de monopólios dos grupos sociais. Essa desigualdade seria amenizada pela cidadania social democrática, que proporcionaria à participação de todos na sociedade constituída. Cada paradigma criaria uma concepção diferente de exclusão e provocaria à sociedade responsabilidades diferentes no que concerne à inclusão e a envolveria num processo de mudanças, as quais afetariam as condições materiais das pessoas, afetadas pelas transformações sociais e econômicas vigentes.

Na perspectiva de Boff (1997), tratar de exclusão social é abrangente. Ele envolve um sistema social. Excluídos são aqueles que sobram no sistema formal, os que não cabem na sociedade oficial, os inúteis, os desnecessários. O excluído começa por ser excluído do mercado formal, não consome (produtos para atender as suas necessidades básicas) e não vende (nem mesmo o que tem de melhor, sua força de trabalho). Essa é a exclusão fundamental e determinante da exclusão social mais ampla. Assim, a exclusão econômica pode ser um agente para a exclusão social.

Conforme Sella (2002, p.66) há várias causas que provocam o fenômeno da exclusão social. Na sua obra, Globalização neoliberal exclusão social, ele aponta os mais comuns que fazem emergir o fenômeno da exclusão. O primeiro, o trabalho precário no aspecto formal que provoca a perda dos direitos trabalhistas. Trabalhadores sem carteira profissional com trabalho sem vínculo empregatício com a ausência dos direitos e privilégios do empregado. Em segundo, o desemprego crescente, que é estrutural, oriundo do sistema capitalista neoliberal, porque exclui do mercado formal através da automação, descartando a mão-de-obra e desempregando mais trabalhadores. O trabalho informal é outro aspecto da exclusão, o qual é uma economia de sobrevivência gerada pelo desemprego. É o emprego sem registro, sem pagamento de impostos e sem garantias. Em quarto, a miséria moderna que é conseqüência do processo moderno da produção de riqueza. Para o autor, o capitalismo neoliberal gera os mais pobres do pobres, os miseráveis, os excluídos absolutos, os sem nada, os descartáveis. Em quinto, a eliminação física dos excluídos, que acontece através da morte “matada ou morrida”. A morte “matada” é quando o pobre acaba sendo massacrado pela violência dos ricos poderosos, são eliminados. A morte “morrida” acontece porque o excluído não tendo condições de viver, entra em deteriorização física através da fome e doença gerando finalmente a morte. Em último, apartação social para os pobres que não podem ser eliminados. São aqueles colocados fora do lugar social dos ricos, segregados em lugares afastados, onde não podem ser vistos e nem interagidos.

O cientista social, Hinkelammert (1995, p.40) fez uma crítica a dominação ocidental, que comparou o mundo neoliberal ao Lúcifer e a Besta, figuras bíblicas do livro do Apocalipse, para provocar uma reação diante do sistema demolidor da sociedade. Não se pode pensar que é preciso melhorar ou reformar o sistema. A estrutura de opressão e exclusão é profundamente ruim. Pensar numa alternativa ou um sistema que coloque a vida acima dos interesses neoliberais, ou seja, a humanidade como primazia acima de quaisquer atitudes econômicas, políticas, culturais e religiosas. Conforme o autor, o ocidente realizou sacrifícios, continua realizando-os e tem de prosseguir, para que os sacrifícios passados mantenham seu sentido. Isso leva a uma expansão frenética do mercado como uma esfera pretensa da humanidade. Quanto mais o mercado viola os direitos humanos, tanto mais se tem de expandir este mercado para que as violências resultantes dos direitos humanos continuem aparecendo como passos necessários no caminho rumo à humanização por meio do mercado. Todo este círculo sacrificial, e, por conseguinte, a legitimação da sociedade burguesa, desmorona no caso de se precisar deter essa expansão do mercado, pelo fato de que sua lógica leve à destruição do homem e da natureza. Um desmoronamento deste tipo exigirá uma reconstituição da sociedade. Não se trataria de uma adaptação pragmática, mas, efetivamente, da desocidentalização da sociedade.

O sistema neoliberal é um dos responsáveis da exclusão social. Ele é um sistema econômico imposto à humanidade através de sua política e de seu horizonte cultural religioso. É uma ideologia fundamentada na estruturação de uma economia voltada exclusivamente à vantagem individual ao lucro, colocando tudo num aspecto instrumental e transformado qualquer ser vivo em simplesmente em mercadoria. O objetivo do lucro legitima a possibilidade de explorar, violentar e destruir a humanidade, bem como o meio ambiente. No sistema neoliberal o bem real é individual. Não existe o bem comum na forma comunitária. Ele acontece através do bem privado. O instrumento para alcançar a vantagem individual é o mercado livre.

Diante de uma realidade excludente a missão da Igreja não é levar o povo excluído para fora da realidade, através do místico, do emocional, da experiência religiosa com o objetivo de aliviar a amargura da vida dos excluídos e deixando, porém, tudo como está. O compromisso é trazer o povo para a realidade, na profundidade em que acontece o encontro entre Deus e a humanidade, para alimentar a caminhada, fortalecendo-a no entendimento de que a Igreja é luz e sal da terra, fermento para o crescimento do Reino dos Céus, promovendo a justiça e a paz no objetivo de uma nova sociedade. A Igreja necessita comprometer-se a fazer mudanças na sociedade.

REFERÊNCIAS

BOFF, C. Como trabalhar com os excluídos. São Paulo: Paulinas, 1997.

DUPAS, G. Economia global e exclusão social: pobreza, emprego, estado e o futuro do capitalismo. São Paulo: Paz e Terra, 2001.

HINKELAMMERT, F. J. Sacrifícios humanos e sociedade ocidental: Lúcifer e a Besta. São Paulo: Paulus, 1995.

HOFFMANN, A. A cidade na missão de Deus. Curitiba: Encontro, 2007.

KUNG, H. Uma ética global para a política e a economia mundiais. Petrópolis: Vozes, 1994.

NASCIMENTO, E.P. Modernidade ética: um desafio para vencer a lógica perversa da nova exclusão. Rio de Janeiro: FASE, 1995.

SELLA, A. A globalização neoliberal e exclusão social. São Paulo: Paulus, 2002