O Pai Nosso é a oração que Jesus ensinou aos seus discípulos, e tem sido considerada no decorrer da história cristã como a oração do Reino de Deus, a qual contém em suas petições, toda a mensagem soteriológica do Seu Evangelho, o Evangelho do Reino.

No tempo de Jesus muitos grupos tinham sua forma própria de orar, e quando um mestre ensinava uma oração a seus discípulos, a mesma continha em si os princípios e valores da sua mensagem e missão. Assim, quando os discípulos pediram a Jesus: “Senhor, ensina-nos a orar” (Lc 11.1), pediam que lhes desse o resumo da sua mensagem. Por isto, o Pai Nosso foi considerado pela Igreja como o “gabarito” ou “credo” que conferia unidade e identidade ao grupo de Jesus, orientando-o no cumprimento da intenção e missão do mestre. Fundamentado nos princípios desta oração, o grupo se sentia membro da comunidade criada por Ele.

Assim, o Pai Nosso foi reconhecido como guia de fé e prática cristã por grandes teólogos. Para Hamman, não existiu, nos primeiros séculos da era cristã, nenhum escritor que tratasse de oração “sem comentar de maneira privilegiada o protótipo fornecido pelo Mestre”. Na opinião de Tertuliano, “a oração do Senhor é, na verdade, o resumo do evangelho”. Cipriano disse: “Porque maravilhar-nos, irmãos amados, se é tal a oração que Deus nos ensinou, que resumiu como mestre numa saudável fórmula todo o essencial das nossas preces?”. Agostinho afirmou: “recorrei todas as orações que há nas escrituras, e não acredito que podereis encontrar algo que já não esteja incluso na oração dominical, se fazemos a oração como convém”. E também: “Quem, na oração, pronuncia algo que não pode referir-se a esta oração evangélica, se não ora ilicitamente, há pelo menos que admitir que ora de maneira carnal”. São João da Cruz considerou que Jesus incluiu nela todas as necessidades espirituais e temporais dos discípulos. Ela contém em si toda a vontade de Deus para eles. Para Lutero, o Pai Nosso “é a melhor oração que apareceu na terra, (…) porque Deus, o Pai, a formulou por meio de seu Filho (…), de modo que não precisamos duvidar que ela lhe agrada sem medida”. 

Também teólogos contemporâneos apontaram a importância desta oração. Para Bornkamm, é a oração dos que aguardam a manifestação do Reino. Para Karl Barth, não é uma oração qualquer, mas distintiva dos que têm comunhão com Jesus e formam a irmandade dos filhos de Deus. Para Bonhoeffer, ela esclarece aos discípulos todo o necessário em matéria de oração. Em sua opinião, só pode ser considerada verdadeira a oração que estiver contida nas petições do Pai Nosso, pois as orações da Bíblia se resumem nele. Isto não significa, diz Bonhoeffer, que as demais não possuem valor, “mas elas são a riqueza inesgotável do Pai Nosso e este é sua coroa e síntese”. Segundo Harnack, “todas as demais orações são de nível inferior (…), o Pai Nosso nos leva para o lugar onde a alma sente-se sozinha com Deus”. Para Santos Sabugal, o Pai Nosso é “a fé cristã feita oração”. Para Bussche, é “um eco da mensagem de Jesus”. Joachim Jeremias o considerou “o mais claro e substancial compêndio” do Evangelho, e Schürmann como “o núcleo da sua mensagem” e “a chave de acesso para sua compreensão”.

Aqui é estudada a quarta petição desta oração: “o pão nosso de cada dia (ou de amanhã?) dá-nos hoje”. É tratado o problema da interpretação do termo grego epiousion (πιούσιον), comumente traduzido por “de cada dia”, e do significado do pão e da petição como um todo, especificamente em Mateus.

Para muitos epiousion significa “de cada dia” e faz referência ao pão comum. Sendo assim, pensam alguns, esta petição colocaria a igreja diante da responsabilidade de se engajar na luta contra a fome. Mas o termo epiousion também pode ser interpretado como significando “de amanhã” ou “vindouro”, ficando a petição: “o pão nosso de amanhã ou vindouro dá-nos hoje”, e o pão faria referência à vinda escatológica do Reino de Deus; ou também como “supersubstancial”, ficando a petição: “o pão nosso sobrenatural dá-nos hoje”, referindo-se à Palavra de Deus, à fé em Jesus, ou ao próprio Jesus no pão da ceia. 

Sendo esta uma oração que resume o Evangelho, é necessário que se compreenda o sentido da petição, pois nela pode estar contida a resposta de Jesus ao problema da falta de pão que experimentaram muitos dos seus contemporâneos e que experimentam muitos hoje. Também pode estar contida nesta petição a resposta que Jesus exigiu, e que ainda exige da igreja atual a respeito do problema da falta de pão, visto que a igreja é representante do Reino de Deus na história e a “realização antecipatória do Reino de Deus dentro do mundo”.

Para se chegar a uma proposta de aplicabilidade sobre o problema colocado, será estudado o termo grego epiousion etimologicamente, se apresentará um breve histórico das interpretações sobre o mesmo e será estudado o tema do pão no contexto do evangelho de Mateus.

1. A ORAÇÃO COMO RESPOSTA À SITUAÇÃO EXISTENCIAL

A oração está relacionada com a situação existencial humana. Seja de adoração, de ação de graças, ou de súplica, a mesma sempre é gerada a partir de situações da vida e em resposta a estas. Como afirma Daniélou, “a oração não pode existir de maneira abstrata (…). Ela é a prece de um homem concreto engajado na existência (…); o fato religioso deve ter um caráter social”. Na opinião de Padilha, “muitos contrapõem oração e ação”. Entendem a oração como uma forma de fugir dos problemas que parecem insolúveis. Isto é consequência de uma má compreensão da proposta cristã de espiritualidade. Desta maneira, a oração se transforma num ato religioso de “fuga da realidade”. 

Esta compreensão da espiritualidade como “fuga da realidade” é antiga e se fundamenta na influência de experiências espirituais orientais, sobretudo judaico-helenístas como encratismo, platonismo, gnosticismo, etc. Cristãos primitivos consideravam estas influências como negativas, pois levavam a muitos a interpretar a vida a partir do dualismo corpo (escravo do demônio) e espírito (pertencente a Deus). Desta forma, os problemas humanos eram compreendidos como consequentes do conflito corpo/espírito, natural/sobrenatural, sagrado/profano. A teologia de Orígenes deu início à percepção negativa do mundo e da criação, mas o triunfo da concepção dualista no Cristianismo se deve a Agostinho. Ele introduziu na teologia o conceito de alma, psykh (ψυχή) no grego, do qual a comunidade judaico-cristã não dispunha. A palavra hebraica nefesh (נֶפֶשׁ), que os gregos traduziram por psykh e os latinos por anima “significa vida e tudo o que promove vida”, e faz referência ao ser humano integral. Uma pessoa viva é uma nefesh viva e um morto uma nefesh morta. Na concepção hebraica, portanto, não se pensa o homem como dividido em corpo e alma ou corpo e espírito. O mesmo ocorre no pensamento cristão, visto que, em sua declaração de fé, o “Credo”, se afirma a crença na ressurreição dos corpos e não na imortalidade da alma.

Portanto, na espiritualidade judaico-cristã jamais se encontra um “espírito puro e concreto”, senão sempre um espírito encarnado. “Pertence à essência do espírito humano como espírito sua corporalidade e com isso sua relação para com o mundo”. A situação de estar no mundo do homem não é acidental, senão que “exprime sua realidade essencial”. “Corpo e alma não exprimem o que o homem tem, mas aquilo que ele é”. O homem em sua totalidade é corporal e espiritual. Os grandes atos espirituais e místicos são sempre atos corporais. No ser humano existem “um espírito corporalizado e um corpo espiritualizado”. Sempre que o homem diz “eu” faz referência à “unidade total de sua realidade corpo-alma e de todas as dimensões de sua existência”.

A oração, portanto, não pode ser um meio de fuga. Ao contrário, “é uma maneira de encarar a realidade, de assumi-la tal como ela é para então submetê-la à ação transformadora de Deus”. Orar bem significa dispor-se para ser usado por Deus “para o cumprimento do seu propósito com relação ao motivo” pelo qual se ora, comprometendo-se com a ação de Deus no mundo para que seus planos sejam concretizados. “É uma oração política e escatológica. Política porque se ocupa da vida e das relações humanas da ‘polis’ (cidade). Escatológica porque coloca a ‘polis’ sob o foco do propósito de Deus”. Os que oram são colaboradores de Deus na “missão de redenção da criação”. Como diz Rubem Alves, “na oração, o homem tenta abolir o poder do assim é pela magia do assim deve ser”. E também diz: “Ele [o crente] ora porque crê que a sua oração tem o poder para colocar em ação uma eficácia extra que não existiria se ele permanecesse em silêncio”.

O Pai Nosso, como oração da comunidade cristã, só se entende a partir da experiência vivida por Jesus, experiência expressa em sua mensagem e em suas práticas. Como diz Pagola, no Pai Nosso Jesus “condensa em poucas palavras o mais intimo de sua experiência de Deus, sua fé no Reino e sua preocupação pelo mundo”. Nele “deixa entrever os grandes desejos que batiam no Seu coração e os gritos que dirigia a seu Pai (…)”.

Por ser a oração que resume a mensagem de Jesus, e entendendo-se que orar exige também uma resposta prática, conclui-se que orar o Pai Nosso implica num compromisso com a justiça pessoal e social. Esta oração é como a “carteira de identidade” do discípulo, visto que trata do que Jesus espera dele. É com o avanço do Reino de Deus no mundo que se compromete o cristão que ora o Pai Nosso, cumprindo assim o “Venha o teu Reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como no Céu” (Mt 6.10). Por isto, a entrada no Reino exige conversão. “Conversão significa: mudar o modo de pensar e agir no sentido de Deus (…)”. “Convertei-vos, pois está próximo o Reino dos céus” (Mt 3.2; 4.17). Como diz Bultmann, Reino de Deus: 

Se refere ao governo de Deus que põe termo ao atual curso do mundo, que destrói tudo que é contrário a Deus, “tudo que é satânico, tudo o que agora faz o mundo gemer, e, pondo desse modo um fim a todo sofrimento e dor, estabelece a salvação para o povo de Deus que espera pelo cumprimento das promessas proféticas.

Na opinião de Boff,

Reino de Deus significa a realização de uma utopia do coração humano de total libertação da realidade humana e cósmica. É a situação nova do velho mundo, totalmente repleto por Deus e reconciliado consigo mesmo (…). Reino de Deus significa uma revolução total, global e estrutural da velha ordem, levada a efeito por Deus e somente por Deus. Por isso, o Reino é Reino de Deus em sentido objetivo e subjetivo. O mundo é o lugar da realização histórica do Reino. (…) Por isso o Reino de Deus se constrói contra as forças do anti-Reino.

Para Barth, a vinda do Reino é uma realização que ultrapassa toda possibilidade humana, visto que todo homem necessita “desta libertação, desta vitória, desta reconciliação, desta renovação”. Por isso é motivo de oração. Somente Deus pode realizar o Seu Reino no mundo, pois “trata-se da Sua paz e da justiça do mundo aprimoradas em Sua perfeição; e isto não pode ser senão o resultado da Sua obra”. Mas pedir pela vinda do Reino pressupõe que quem ora já “conhece este Reino, esta vida, esta justiça, esta novidade, esta reconciliação; que tudo isto não lhe é estranho. É necessário que ele o conheça e que, lá onde se ora dessa maneira, o Reino já tenha vindo”. Orar “Venha o teu Reino”, pensa Barth, é o mesmo que orar “Teu Reino já veio, Tu já o instituíste entre nós”. “O Reino de Deus está dentro em vós” (Lc 17.21). Assim, para Barth, “o escatológico passou a ser sinônimo do agora decisivo. Cada momento é o momento final. O futuro de Deus se faz presente no presente pessoal”. O “eschaton” é a eternidade presente no tempo. “A salvação é uma possibilidade permanente” manifesta na concretude histórica. “Ela é aberta a todo homem e em todo o tempo”.

Com Jesus o Reino de Deus chegou aos homens (Lc 17.21), mas está presente misteriosamente. Segundo Schnackenburg, o Reino brilha na presença de Jesus, mas ainda não se manifesta cosmicamente. Observe-se o que diz o Concilio Vaticano II a este respeito:

Nós ignoramos o tempo da consumação da terra e da humanidade e desconhecemos a maneira de transformação do universo. Passa certamente a figura deste mundo deformada pelo pecado, mas aprendemos que Deus prepara morada nova e nova terra (…). Contudo, a esperança de uma nova terra, longe de atenuar, antes deve impulsionar a solicitude pelo aperfeiçoamento desta terra. Nela cresce o Corpo da nova família humana que já pode apresentar algum esboço do novo século (…). O Reino já está presente em mistério aqui na terra. Chegando o Senhor, ele se consumará.

A igreja é a parte do mundo que “acolhe o Reino” de maneira explicita. Não é o Reino, mas seu sinal e instrumento de Deus para sua implementação. A igreja não pode ser entendida em si nem para si mesma. Ela está “a serviço de realidades que a transcendem, o Reino e o mundo”. Assim, ao orar o Pai Nosso, a igreja se compromete com a vinda do Reino. O Reino vindo aos homens é a vontade de Deus sendo feita na terra como no céu. Como disse Orígenes: “Se a vontade de Deus for feita na terra como o é no céu, a terra não fica mais terra (…), então todos seremos céu”.

2. “EPIOUSION” E O PROBLEMA DA QUARTA PETIÇÃO

O termo grego epiousion, comumente traduzido como “de cada dia” é um problema para os especialistas. Nieto o considera “a cruz dos exegetas” e acredita que seja a tradução de uma palavra aramaica desconhecida. Na Bíblia o termo aparece somente no Pai Nosso. Orígenes, considerado um grande mestre da língua grega, disse em seu comentário ao Pai Nosso que o termo epiousion não se encontra em nenhum outro texto do mundo grego. A única probabilidade de paralelo estaria no Papiro Hawara do Alto Egito, o qual dataria do século V d.C., mas o dito documento se encontra desaparecido no momento. Desta maneira, Orígenes concluiu que o termo deve ter sido inventado pelos evangelistas.

Filologicamente há três possibilidades para traduzir epiousion. A primeira propõe que epiousion deriva de “epi”+“einai” (verbo ser), significando: o pão para o dia presente, cotidiano, dado dia por dia. Também pode ser interpretado como o pão necessário para existir (ser), “indispensável para a existência” (“epi”+“ousia”). As versões siríacas antigas traduziram “necessário” ou “permanente” e a Ítala “quotidianum”. Jerônimo o traduz, na Vulgata, como “supersubstancial”, sendo “epi” (super) + “ousia” (substância), e em Lucas como “quotidianum”. O sentido seria o mais comum: “de cada dia” ou “cotidiano”.

A segunda propõe que epiousion deriva de “epi”+“ienai” (vir, chegar). O sentido seria: “o pão nosso de amanhã” ou “o pão nosso futuro”. Comentando Mateus, Jerônimo afirmou que no Evangelho dos Hebreus (um apócrifo semita) epiousion é traduzido pela palavra hebraica mahar (מָחָ֗ר) que significa amanhã, futuro. O sentido, então, seria: “o pão nosso de amanhã ou futuro dá-nos hoje”.

A terceira opção considera que existem várias palavras compostas de prefixos como “epi-ousios”, mas estes não possuem significado algum; são prefixos vazios. Segundo Leonardo Boff, todas as línguas possuem palavras assim. Um exemplo em português seria o termo “denegar”, que significa negar. O prefixo “de” é vazio de significado e não muda o sentido do radical. No grego, diz Boff, existem 13 adjetivos compostos de “ousios”, os quais têm o substantivo “ousia” (substância, essência) como raiz. No caso de epiousion, “epi” não deveria ser traduzido como “super”, visto que no grego o prefixo “epi” dá uma noção de contato, significando o que concerne ou que pertence a. Epiousion seria: o que pertence à essência, essencial, substancial. O significado seria o da palavra “ousios” sem prefixo. Algumas palavras gregas que não enriquecem a raiz são: “epinefes” = nublado; “epidorpios” = o que pertence à sopa, ensopado; “epikefalaios” = o que concerne ou pertence à cabeça. Com epiousion se estaria diante de um caso similar. O significado seria: pão essencial, substancial, necessário à vida. Esta possibilidade, portanto, se aproxima da primeira.

Como foi dito anteriormente, orar o Pai Nosso implica num compromisso com o avanço do Reino de Deus na história. Portanto, compreender o significado do termo epiousion e da quarta petição é de fundamental importância para a práxis da igreja. 

Para Adalbert Hamman, que acredita que um dos significados de epiousion é “de cada dia” e se refere ao pão comum e comestível, esta petição lembra que metade dos habitantes do mundo sofre de fome e “interpela os que monopolizam os bens da terra, os quais Deus concedeu a todos”. E também: “lembra aos países ricos, que eles são apenas os intendentes de Deus, responsáveis por uma divisão equitativa”. E conclui:

O pedido do pão mergulha o cristão no drama do mundo, em plena massa humana. Menos para o culpabilizar que para o mobilizar, a fim de ver aquele que tem fome, aquele que está na necessidade, e lhe revelar o rosto de Cristo, que se fez pobre, ainda que dispusesse de todas as riquezas.

Leonardo Boff, semelhantemente, diz:

Milhares morrem de fome cada ano por falta do pão suficiente. O espectro da subnutrição e da fome ameaça mais e mais a humanidade inteira. Para estes milhões de esfaimados a súplica pelo pão possui um sentido direto e imediato. Eles recordam aos saciados a súplica do próprio Deus: “Reparte com os famintos o teu pão” (cf. Is 58:7). 

Para estes autores, portanto, a quarta petição desafia a igreja a se esforçar para resolver o problema da fome. Mas a petição, como foi visto, poderia pedir também pelo pão de amanhã, significando a vinda escatológica do Reino de Deus. Sendo assim, qual seria a resposta do Reino de Deus ao problema da falta do pão de cada dia? Tentar-se-á responder a esta questão no final da pesquisa.

3. BREVE HISTÓRICO DAS INTERPRETAÇÕES SOBRE EPIOUSION E A QUARTA PETIÇÃO

Neste momento será apresentado um breve estudo das variadas interpretações a respeito de epiousion e a quarta petição na história da teologia.

3.1. ORÍGENES (185-254)

Para Orígenes, epiousion significa supersubstancial e não se refere ao pão material e comestível, mas, primeiramente, à fé em Jesus (Jo 6.28), alimento permanente (Jo 6.27). Em segundo lugar trata do “Pão de Deus” que dá vida ao mundo (Jo 6.32, 34, 35, 51), cuja substância, a qual é assimilada “pela mente e pela alma, comunica sua virtualidade a quem dele se alimenta” no presente século.

3.2. CIPRIANO DE CARTAGO (200-258)

Para Cipriano, epiousion significa “cotidiano” e o pão é tanto material quanto espiritual (Jesus). Jesus é o pão da vida, o pão especial dos filhos de Deus que tomam seu corpo (Jo 6.51, 53). Para receber este pão, portanto, é necessário participar todos os dias da eucaristia para não se afastar do corpo de Cristo e perder a vida.

O cristão pode pedir também o pão material para o sustento do dia. Para Cipriano, Deus proíbe pensar no amanhã (Mt 6.34) porque é contraditório e repugnante querer viver muito tempo neste mundo, visto que os discípulos esperam a irrupção iminente do Reino de Deus.

3.3. AGOSTINHO (354-430)

Para Agostinho, epiousion significa cotidiano e o pão é: a) o pão comum para o sustento; b) “o pão visível consagrado no sacramento”, na eucaristia, o qual permite ao cristão estar unido ao “Corpo místico de Cristo”; c) o pão invisível da Palavra de Deus, “os preceitos divinos que cada dia convém meditar e cumprir, o pão dos filhos, a Palavra de Deus”.

3.4. MARTINHO LUTERO (1486-1546)

Para Lutero, epiousion significa “de cada dia” ou “cotidiano”. No seu livro O Pai Nosso afirma que o pão é a Palavra de Deus. Este pão é supersubstancial, visto que alimenta o homem espiritualmente, para que adquira caráter sobrenatural. O mesmo é alimento cotidiano, visto que os crentes devem alimentar-se diariamente da Palavra de Deus.

Esta petição os ensina a rogar pelos líderes eclesiásticos que os alimentam com a Palavra de Deus. Os “clérigos, bispos e frades que são incultos e ineptos” são uma praga enviada por Deus para castigar os que não oram o Pai Nosso e não rogam a Deus pelo pão cotidiano.

Posteriormente, no Catecismo Menor, Lutero dirá que o pão de cada dia significa:

Tudo aquilo que se necessita como alimento, e para satisfazer as necessidades desta vida, como: comida, bebida, vestuário, calçado, casa, lar, terras, gado, dinheiro, bens, piedoso consorte, filhos piedosos, criados piedosos, autoridades piedosas e fieis; bom governo, bom tempo; paz, saúde, boa ordem, boa reputação, bons amigos, vizinhos fiéis, e coisas semelhantes a estas.

3.5. JOÃO CALVINO (1509-1564)

Para Calvino, epiousion significa “de cada dia” ou “cotidiano”. Ao pedir o pão de cada dia se pede que Deus satisfaça as necessidades corporais dos discípulos. Mas o pão é também tudo o que permite que o homem viva em paz e tranquilidade. Na quarta petição os homens se colocam debaixo da providencia de Deus que os alimenta e os conserva. Ele também relaciona esta petição com a experiência de Israel no deserto, quando Deus o mantinha com o maná, para mostrar que não se vive só de pão, mas de toda palavra que sai da boca de Deus (Dt 8.3; Mt 4.4). Assim, Deus ensina para os crentes que é por sua bondade que suas vidas se fortalecem, e que se não fosse por Ele, ainda tendo comida não se saciaram (Lv 26.26).

3.6. KARL BARTH (1886-1968)

Para Barth, epiousion significa “de cada dia”. Na linguagem bíblica o termo pão tem dois significados: a) o que é indispensável para a vida. O alimento básico do pobre, o mínimo necessário para o mendigo, o oposto da fome. Este mínimo que Deus concede é para hoje, por isso os crentes pedem o “pão de cada dia”; b) o pão é o sinal temporal da graça eterna de Deus, tendo um significado natural e sublime ao mesmo tempo. O pão comum de cada dia é a projeção do pão escatológico eterno do século vindouro. Portanto, nesta petição se pede o alimento mínimo necessário para o presente e o sinal antecipado da vida vindoura.

3.7. ALBERT SCHWEITZER (1875-1965)

Para Schweitzer, todo o Pai Nosso trata do conteúdo do Reino de Deus: o santificar do Seu nome, a Sua vontade sendo feita na terra, o perdão dos pecados e a libertação da tentação. Assim, não tem sentido que em meio a estas petições de teor escatológico, seja pedido pão comestível. Seria uma contradição à orientação dada por Jesus, de que os discípulos não deviam se preocupar como os pagãos (Mt 6.25-34) já que Deus conhece suas necessidades e as suprirá sem que as peçam (Mt 6.8, 22). Os discípulos, portanto, não se preocupam mais que pelo Reino de Deus, e Jesus lhes ensinou o Pai Nosso justamente para que não orem como os pagãos e pelas mesmas coisas que eles oram (Mt 6.7-9).

Para Schweitzer, epiousion significa “próximo” ou “vindouro”, como em Atos 7.26, em que “te epiouse hemera” (τε πιούσ μέρ) é traduzido como “no vindouro – o dia seguinte”. Assim também em Atos 16.11, 20.15 e 21.18. A petição pediria pela vinda final do Reino de Deus.

3.8. JOACHIM JEREMIAS (1900-1979)

Para Jeremias, epiousion significa “de amanhã”. Na opinião dele, é de fundamental importância a contribuição dada por Jerônimo de que, no Evangelho dos Nazarenos, constaria para epiousion o termo hebraico mahar, o qual este traduziu como “quod dicitur crastinum”, que significa “de amanhã”. Para Jeremias, ainda que o escritor deste evangelho haja utilizado Mateus, e, portanto, seja um documento posterior aos sinóticos, a fórmula aramaica contida nele e a expressão “pão de amanhã” é mais antiga que a encontrada em Mateus e Lucas. Segundo ele, no século I se praticou a oração do Pai Nosso em aramaico ininterruptamente na palestina. Desta maneira, o escritor do Evangelho dos Nazarenos teria conservado o Pai Nosso na forma como costumava a orá-lo diariamente, e não como estava em Mateus.

Jeremias afirma que Jerônimo mostrou com sua tradução uma interpretação: “mahar quod dicitur crastinum, ut sit sensus: panem nostrum crastinum, id est futurum da nobis hodie” (“mahar, que significa ‘de amanhã’, de modo que o sentido é: o nosso pão de amanhã, isto é, futuro, dá-nos hoje”). Portanto, ele interpretou “artos epiousion” como sendo o “pão do futuro, do dia de amanhã”. Jerônimo, ao falar deste pão, se referia ao pão da vida.

Segundo Jeremias, esta compreensão escatológica sobre a quarta petição predominou no Oriente e no Ocidente. Assim o entendeu também Marcião, que disse: “tón arton sou ton epiousion” (o teu pão de amanhã).

Mas isto não significa, pensa Jeremias, que o sentido do pão ficou espiritualizado. O pão terreno e o pão da vida não se opõem, visto que na esfera do Reino, o terreno é santificado. O pão que Jesus partiu à mesa com publicanos e pecadores, o pão que entregou a seus discípulos na última ceia, era pão terreno e pão da vida ao mesmo tempo. Para os discípulos, toda comunhão de mesa com Jesus tinha sentido escatológico.

3.9. LEONARDO BOFF (1938- )

Para Boff, o sentido de epiousion é futuro e se refere ao pão de amanhã. Segundo ele, Jesus esperava a irrupção iminente do Reino de Deus, ainda que não tivesse afirmado o momento exato em que isto aconteceria. Os evangelhos comparam o Reino com uma grande ceia na qual será servido o pão espiritual verdadeiro. Esta petição, portanto, estaria relacionada com o banquete celeste. Em Lucas 14.15 diz: “Feliz o que comer o pão no Reino de Deus”; também nas bem-aventuranças, Lucas 6.21: “Felizes os famintos de agora, porque sereis saciados”; e em Mateus 8.11: “Muitos virão do Oriente e do Ocidente e sentar-se-ão à mesa com Abraão, Isaque e Jacó no Reino dos Céus”. Este pão futuro do Reino de Deus é suplicado para hoje. Desta maneira, Jesus animou os discípulos a clamar pela pronta vinda do Reino, onde receberiam o verdadeiro pão que dá vida eterna.

Mas, na opinião de Boff, não se pode eliminar a importância do pão material, visto que o símbolo pão celestial se fundamenta na realidade concreta do pão material. E conclui que o pão possui quatro significados: a) Pão material necessário à vida; b) o pão escatológico do Reino de Deus; c) Jesus o Pão da vida (Jo 6.48); d) Jesus no pão da eucaristia.

Como se percebe, as interpretações sobre epiousion e o significado da quarta petição são diversas. Portanto, para se chegar a uma conclusão sobre seu significado exato, devem ser estudados, ainda, os sentidos e significados do pão em alguns textos do Evangelho de Mateus.

4. A PRIORIDADE DO REINO DE DEUS EM RELAÇÃO AO ASPECTO SOCIAL NA TENTAÇÃO DE JESUS E NA MULTIPLICAÇÃO DOS PÃES

As tentações de Jesus refletem sua luta interior referente ao cumprimento da sua missão, cuja finalidade seria o anuncio da proximidade de Deus e o seu Reino, e levar o povo à sua obediência. A tentação teria a finalidade contrária, apartar a Deus da vida do homem. As palavras do tentador, “se és o filho de Deus”, significam que Jesus deve provar o que reivindica ser. Na primeira tentação Jesus tem fome e é desafiado a converter pedras em pães. Na opinião de Ratzinger, o que mais se opõe à fé em Deus é a fome da humanidade. Deus alimentou com Maná o Israel do deserto. No tempo de Jesus “se cria poder reconhecer nisso uma imagem do tempo messiânico”: “não deveria o salvador do mundo dar de comer a todos?”. Segundo Jeremias, “a tentação consiste em que Jesus deveria, como segundo Moisés, repetir o milagre do Maná”. Assim, a alimentação do mundo e os problemas sociais são colocados “como o primeiro e mais autêntico critério com o qual deve confrontar-se a redenção”, não podendo ser redentor alguém que não responda a esta necessidade.

Segundo Luz, “a ideia comum às três tentações” é “a obediência de Jesus à Palavra de Deus”. Obedecer a Deus é mais importante do que saciar a fome física. A resposta de Jesus ao tentador se fundamenta em Deuteronômio 8.3. Deuteronômio 8.2-5 faz referência “ao caminho pelo qual Deus conduziu ao povo de Israel durante 40 anos no deserto (…)” “para ver se guardava seus preceitos a fim de educá-lo como filho”. Jesus, diferente de Israel, vence a tentação e é, desta maneira, “o Filho de Deus que vive de toda palavra que sai da boca de Deus”, que obedece a Deus por encima de qualquer circunstância.

Mais adiante, (Mt 14.13-21) Jesus multiplica pães e peixes para alimentar a uma multidão faminta. Porque se faz aqui o que anteriormente foi rejeitado como tentação? Segundo Ratzinger, a multidão tinha deixado tudo para ouvir a Jesus. Abriram “seu coração a Deus e aos demais em reciprocidade” e, portanto, “podem receber o pão adequadamente”.

Algumas atitudes importantes precedem este milagre: Se prioriza a Deus e a mensagem do Reino; e há “disposição para compartilhar” (v.17). “Ouvir a Deus converte-se em viver com Deus, e leva da fé ao amor, ao descobrimento do outro”.

O amor é “a lei vital do Reino” (Mt 5.42-45). Este amor não é só sentimental, mas é expresso em atitudes como: “a capacidade de doar” (Mt 5.42) e em todo tipo de atos caritativos (Mt 25.31-46, onde são repetidas quatro vezes as obras mais importantes do amor, das quais, a primeira citada é dar de comer aos famintos, v. 35, 37, 42, 44). Harnack define este amor como “amor que serve”. Segundo ele, “é somente com esta função que existe e vive”. A proposta do amor por parte de Jesus é “sem paralelos” na época. “A moral popular” excluía o inimigo de tal responsabilidade, sendo necessário amar só aos do próprio povo (Lv 19.18), e proibia compartilhar o pão com os pecadores. Jesus, porém, exige dos seus discípulos o amor até para os que lhes fazem injustiça e os perseguem (Mt 5.44).

“Jesus não é indiferente à fome” do homem, mas o alimento principal que o homem precisa é a Palavra de Deus. O anúncio do Reino produz nos homens que aceitam sua mensagem uma “renovação de vida ou ‘metanoia’ [μετάνοια] com base em sua experiência do Deus que se preocupa com a humanidade”. Portanto, a mudança em situações de injustiça é consequência da mudança de mentalidade de quem pertence ao Reino, pela conversão. Conversão é “uma antecipação da nova vida sob as condições deste mundo nas possibilidades que o Evangelho aponta e que o Espírito de Deus põe a vigorar”. Esta conversão “influencia as pessoas e as circunstâncias nas quais as mesmas vivem e sofrem” e também seus modos de vida, sua organização social. Os discípulos de Jesus são o povo das bem-aventuranças, “dos pobres e de pessoas que têm fome da justiça, de enlutados e perseguidos (…), de tristes e mansos”, os quais, unidos, formam uma sociedade alternativa, a “nova comunidade messiânica”.

Segundo Moltmann, as comunidades cristãs da posteridade vivenciaram “essa nova comunhão de pobres e ricos de tal forma que os ricos dão esmola, exercendo assim o direito da comiseração”; recebem também os estrangeiros, vestem pessoas, compartilham o pão, “visitam presos e, na medida do possível”, renunciam a suas propriedades colocando estas ao serviço da “comunidade para uso dos necessitados” (At 2.44-45). Foi só com o “advento da Igreja Imperial no reino de Constantino”, diz Moltmann, que a pobreza foi “espiritualizada” e a igreja começou a se preocupar somente pela “salvação das almas”.

Então, conclui-se que, ambos os textos, o da tentação e o da multiplicação dos pães, apontam para a prioridade do Reino de Deus. Na tentação se exige o milagre da alimentação em primeira instância, sem importar o compromisso dos homens com a justiça do Reino. No relato da multiplicação, ao contrário, prioriza-se a Palavra de Deus, o anúncio do Reino, e o pão para todos é consequência da conversão e do compromisso humano com a justiça que o Reino exige. Assim se pode compreender Mateus 6.33: “busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas lhes serão acrescentadas”. O termo grego basileia (βασιλεία), diz Luz, refere-se “ao futuro reinado de Deus, no qual a comunidade espera participar através do juízo”. Dikaiosúne (δικαιοσύνη) significa as obras de justiça que o homem há de praticar, a conduta que se ajusta a Deus e a seu Reino. E também diz: “sua justiça nos ensina a obrar bem, e seu Reino nos faz saber qual é a recompensa recolhida pelo trabalho e a paciência”. Segundo Lancellotti, “procurar satisfazer todas as exigências de justiça do Reino deve constituir a única preocupação do discípulo”. Para Luz, a união dos termos “Reino” e “Justiça” de Mateus 6.33, corresponde à união da segunda com a terceira petição do Pai Nosso. No Pai Nosso se pede a ação de Deus em favor do homem e por meio do homem; aqui “aparece em primeiro plano a tarefa do homem” como resposta de Deus, sendo o próprio Deus quem está agindo por meio do homem que busca a realização da justiça do Reino. Segundo Schillebeeckx:

O fato de que a prédica e prática do Reino de Deus da parte de Jesus era boa notícia para os pobres e repudiados não significa, porém, que “o Reino de Deus e sua justiça” (Mt 6.33) seja diretamente para esses pobres libertação da pobreza, da falta de meios e da opressão. Significa que Jesus arranca os pobres do autodesprezo por serem marginalizados. Restitui-lhes a dignidade de homens e filhos de Deus. Aquele que numa sociedade, em que é deixado à margem como leproso, depare alguém como Jesus que lhe vem ao encontro com boas intenções e lhe oferece comunhão de mesa (…) por Ele é acolhido e toma um copo de vinho, sente-se animado em sua humanidade e definitivamente aceito, e ousa voltar a sorrir. Assim os pobres e desprezados são redimidos e libertados por Jesus. Estes (…) logram renunciar aos critérios de valor de sua sociedade que tanto os humilhara.

5. A ANTECIPAÇÃO DO BANQUETE MESSIANICO NOS RELATOS DE COMUNHÃO DE MESA

Segundo Schweitzer, a alimentação dos cinco mil foi “um sacramento messiânico oculto”; Jesus alimentou os famintos não só por satisfazer sua fome física, mas para que recebessem alimento “da mão do futuro messias”, consagrando-os para a futura “festa messiânica”. O que Jesus fez com a multidão teria se repetido na última ceia com os discípulos (Mt 26.26-29). Quando agradeceu pelo pão e pelo cálice e os repartiu, o fez em “ação de graças na perspectiva do Reino vindouro de Deus e sua festa”. Para Ratzinger, compartilhar o pão é um gesto de hospitalidade “com o qual se faz partícipe do próprio ao estranho, acolhendo-o na comunhão de mesa”.

Nesta mesma perspectiva da festa messiânica, diz Schweitzer, deve interpretar-se o sentar-se à mesa para comer com Abraão, Isaque e Jacó no Reino (Mt 8.11-12); e o convite para a “Festa de Casamento do filho do Rei” (Mt 22.1-14).

Segundo Moltmann, “nas celebrações anteriores de ceias com pecadores e publicanos, Jesus já antecipara simbolicamente de forma messiânica o comer e beber no Reino de Deus com esses rejeitados”. Se o Reino está próximo e a “justiça de Deus vem aos destituídos de justiça (…) então é preciso “aceita-los” e comer e beber com eles”. Segundo Pagola, Jesus converteu o banquete compartilhado “no símbolo mais expressivo dum povo que acolhe a plenitude de vida querida por Deus”. Isto explica que o chamassem de “comilão” e “amigo de pecadores”. As comidas abertas eram celebrações da nova vida que Deus estava instaurando. “Suas comidas com pecadores e indesejáveis antecipavam o banquete final e a alegria dos últimos tempos”. Segundo Jeremias:

A comida em comum é para os orientais garantia de paz, de confiança, de fraternidade; comunhão de mesa é comunhão de vida. A comida com Jesus é mais ainda. Isto se vê especialmente claro quando Jesus come com os pecadores e com os desprezados pela sociedade. Aos orientais as ações simbólicas lhes resultam mais familiares que a nós; assim se compreende facilmente que a ação de Jesus de compartilhar sua mesa com pecadores e marginalizados significa, em si mesma, oferta de salvação para os culpáveis e garantia de perdão. De aí a apaixonada oposição dos fariseus (Lc 15:2: “esse acolhe aos pecadores e come com eles”; Mc. 2:15-17; Mt 11-19), porque na opinião dos “bons”, a comida em comum estava reservada aos justos; portanto, compreendem perfeitamente a intenção de Jesus de conceder a esses desprezados uma honra ante Deus e comer com eles e se opõem decididamente à equiparação entre pecadores e justos. O fato de comer diariamente com Jesus chegou a ter uma significação completamente diferente com ocasião da declaração de Pedro (…). A partir deste momento, cada comida com Jesus foi para os seus um símbolo, uma prefiguração, mais ainda, uma antecipação do banquete definitivo. Somente a partir desta convicção pode ser entendida como celebração sacra a continuidade das comidas comunitárias depois da morte de Jesus. Igualmente, a acolhida dos desprezados e dos apóstatas na comida comunitária significa, particularmente depois da confissão de Pedro, que em eles está representada agora a comunidade definitiva e perfeita dos santos. E do mesmo modo, comer e beber com o mestre, a partir da declaração de Pedro, significa comunhão de mesa da comunidade messiânica com o Salvador, banquete de boda, garantia de participação no banquete definitivo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como já afirmado, para se compreender o significado de epiousion e da petição do pão é necessário estudar o termo filologicamente e o tema do pão no contexto de Mateus. Realizado este procedimento, concluiu-se que uma boa opção para a interpretação de epiousion, é considerar o termo como derivado de “epi” + “ienai”, significando “de amanhã”, de maneira que a petição ficaria: “o pão nosso de amanhã dá-nos hoje”, e o pão pode estar apontando para o Reino escatológico. Todas as petições do Pai Nosso parecem estar orientadas para uma escatologia consequente. Portanto, não se pode descartar com facilidade a opinião de Schweitzer que notou ser estranho que em meio a uma oração escatológica, Jesus orientasse os discípulos a pedir pão. O discípulo deve preocupar-se com o Reino e a justiça que este lhe exige, sendo que estas coisas (comida, bebida e vestimenta) as receberá como consequência da obediência (Mt 6.25-34).

Esta orientação escatológica também pode estar nos relatos que tratam do pão no Evangelho de Mateus. Tanto o relato da tentação e o da multiplicação dos pães, quanto os relatos de comunhão de mesa de Jesus com pecadores e o relato da Ceia, parecem priorizar o Reino ou apontar para sua futura consumação.

Esta observação não significa que Jesus não se preocupou com a fome do povo. Como foi observado, a mensagem do Reino exige conversão a uma vida de acordo com os seus valores. A lei principal do Reino é o amor, o qual leva os discípulos a abandonar o egoísmo e ver as necessidades do próximo, superando juntos os problemas sociais, dos quais um dos mais importantes é a fome. Assim, o pão para todos é consequência do comprometimento humano com o Reino de Deus e sua justiça (Mt 6.34). 

Se o Pai Nosso é a oração do Reino de Deus, pode-se concluir que a prioridade do Evangelho não é resolver problemas sociais como a fome, mas levar homens e mulheres a um encontro com Jesus que os motive a abraçar os princípios e valores de Deus e o seu Reino como projeto de vida. A mudança social vem em decorrência do comprometimento da igreja com estes valores. Esta parece ter sido a experiência da igreja primitiva, visto que em Atos 4.34, conta-se que a mesma, comprometida com os valores do Reino de Deus, solucionou o problema da pobreza na comunidade: “não havia, pois, entre eles necessitado algum (…)”.