Escrito por: Dr. Claiton André Kunz

RESUMO

O  artigo  aborda  a  pregação  de  Jesus  Cristo  e  o  seu uso  de  recursos homiléticos, no  que  se  refere  às  parábolas  e  às  chamadas  ‘ações  parabólicas’. Procura demonstrar como, em uma  época  em  que  inexistiam  os  recursos modernos  de multimídia,  as  pregações  eram  eficientes  e  alcançavam  seus ouvintes de forma atraente, impactante e definitiva. O artigo está baseado em pesquisa bibliográfica sobre os textos bíblicos dos quatro evangelhos, exegese de textos chave e também de comentadores dos evangelhos. Além de descrever a pregação e  os  recursos  utilizados,  procura  descrever  ao  final  algumas alternativas para a pregação moderna, a partir do modelo de Jesus Cristo.

 

Palavras chave:

Pregação. Parábolas. Ações Parabólicas

 

INTRODUÇÃO

 

Muito  provavelmente  um  ouvinte  assíduo  de  pregações  não se  lembrará de  todas  as  mensagens  que  ouviu  durante  sua  vida.  É impossível  fazê-lo.  Mas,  com  certeza,  a  maioria  das  mensagens  que vêm à lembrança tinha alguma boa ilustração. James Braga afirma que “ilustração é meio pelo qual se lança luz sobre um sermão através de um  exemplo”. Assim,  uma  mensagem  profunda,  complexa  e  difícil de entender, pode tornar-se simples e apreensível através de uma boa ilustração.

Jerry  Stanley  Key,  em  seu  livro  “O  preparo  e  a  pregação  do sermão” alista  algumas  finalidades  do  material  ilustrativo  em  um sermão:

 

Despertar  o  interesse  e  prender  a  atenção  dos ouvintes. […]

Ajudar   a   esclarecer,   iluminar,   explicar   as verdades apresentadas. […]

Confirmar, fortalecer os argumentos apresentados  e  persuadir  os  ouvintes  a  aceitar 

as verdades. […]

Ajudar  os  ouvintes  a  gravar  bem  as  ideias  do sermão, a lembrar daquilo que é mais importante na mensagem. […]

Tocar  os  sentimentos  dos  ouvintes.  Não  um abuso  do  emocionalismo,  mas  um  uso  legítimo  das emoções. […]

Dar mais vida ao sermão e torná-lo mais atraente. […]

Tornar o sermão mais agradável proporcionando descanso mental aos ouvintes. […]

Ajudar na repetição da verdade.

 

Reifler  informa  que  existem  formas  muito  variadas  de ilustrações. Ela pode ser pessoal, histórica, literária, técnica, científica, analógica,  metafórica, alegórica  ou  parabólica. Entre  estas  várias formas, dar-se-á ênfase à ilustração parabólica e uma forma derivada desta,  que  é  a  ação  parabólica,  motivado  pelo  estilo  de  pregação  de Jesus. Numa rápida leitura dos Evangelhos, chama a atenção que, sem todos  os  recursos  modernos  de  multimídia,  Jesus  conseguia  cativar e impactar os seus ouvintes. Não raras vezes, lê-se que as multidões ficavam  maravilhadas  com  a  pregação  do  Mestre.  Aqui  não  se 

abordará pregação no sentido formal moderno, mas como o conjunto da proclamação de Jesus Cristo. Entre o material ilustrativo usado por Jesus, serão destacados dois aspectos, a saber:

 

 

  • O USO DE PARÁBOLAS

 

 

Parábola  é  a  narração  de  certo  evento,  que,  embora  possa ocorrer, não se pressupõe que tenha ocorrido de fato. De acordo com Thayer, o termo grego parabolê significa “parábola, comparação de uma coisa com outra, semelhança, similitude (…). Uma narrativa, fictícia, mas de acordo com as leis e costumes da vida humana, na qual ou os deveres dos homens ou as coisas de Deus, particularmente a natureza e história do Reino de Deus, estão retratadas”. Assim, é a explicação de  algo  desconhecido  através  de  figuras  conhecidas. Mediante  a comparação  entre  o  conhecido  e  o  desconhecido,  na  qual  o próprio ouvinte  deve  descobrir  a  semelhança  (geralmente  não  mencionada, a  fim  de  colocar  em  ação  os  processos  mentais  do  ouvinte,  de compreender, comparar e considerar), chega-se ao ponto essencial da analogia. Segundo Martínez

 

parábola   é   uma   narração,   mais   ou   menos   

extensa,    de    um    acontecimento    imaginário    

do  qual,  por  comparação,  se  deduz  uma  lição  

moral  ou  religiosa.  Etimologicamente,  o  nome 

parabolê corresponde  ao  verbo paraballô, que 

literalmente significa por ao lado, comparar. Em 

efeito, a parábola se caracteriza porque implica 

a  comparação  de  objetos,  situações  ou  atos 

bem  conhecidos  –  tomados  da  natureza  ou  da  

experiência  –  com  objetos  ou  atos  análogos  de 

tipo moral desconhecidos. Daqueles (a imagem) 

se  deduzem  estes  (a  realidade  que  se  pretende  

ensinar).  Imagem  e  realidade  se  encontram  no 

tertium   comparationis  o   ponto   de   comparação,   

comum a ambas.

 

Poderíamos ir um pouco além e afirmar que as parábolas não são apenas lustrações. Muitas vezes, “a própria parábola é a mensagem ”. Assim, é  contada para  dirigir-se  aos  ouvintes  e  cativá-los,  a  fim  de fazê-los parar e pensar acerca das suas próprias ações, ou de levá-los a dar alguma resposta. Antoniazzi afirma que a parábola é como um espelho. Serve para  que  os  ouvintes enxerguem,  através  dela,  o  que  sem  ela  não poderiam  ver:  seu  próprio  rosto,  sua  própria  realidade.  Declara, ainda, que algumas pessoas, insatisfeitas, preferem às vezes quebrar o  espelho,  em  vez  de  tentar  mudar  o  seu  rosto.  Assim  são  duas  as reações  fundamentais  às  parábolas  de  Jesus  em  sua  pregação:  uns rejeitam Jesus e querem matá-lo (cf. Mc 3.6; 12.12); outros percebem que podem mudar de vida e seguir Jesus.

Enquanto   pregava,   Jesus   não   estava   primordialmente interessado  no  estímulo  intelectual  de  seus  ouvintes,  mas  numa resposta destes logo ao ouvi-lo. O uso que Jesus fez das parábolas não estava  motivado  pelo  desejo  de  levar  seus  ouvintes  à  percepção  de alguma verdade profunda e mística, mas a uma resposta decisiva de arrependimento, fé, esperança e amor.

As  parábolas  que  Jesus  utilizava  em  sua  proclamação continham  algumas  características  próprias.  Entre  elas,  pode-se relacionar as seguintes:

  1. a) Cotidiano.   Jesus   aproveitava   a   natureza   (semente de  mostarda,  semeador,  etc.),  costumes  familiares  da  vida  diária (fermento,  ovelha  perdida,  etc.),  acontecimentos  bem  conhecidos de   história   recente   (Lc   19.14),   acontecimentos   ocasionais   ou contingências não improváveis (filho pródigo, trabalhadores na vinha, etc.). A parábola nem sempre lança mão de histórias verídicas, mas admite a probabilidade, ensinando mediante ocorrências imaginárias, mas que jamais fogem à realidade das coisas.

 

  1. b) Suspense.  As  parábolas  de  Jesus  continham  sempre  um pouco de suspense. O ouvinte/leitor fica imaginando: O que acontecerá aos arrendatários que mataram os servos e o filho do fazendeiro? Que fará  o  rei  ao  convidado  não  devidamente  trajado  para  as  bodas?  Se o sacerdote e o levita se negaram a ajudar o ferido, caído à beira da estrada, que fará o terceiro transeunte?

 

  1. c) Contraste. Há uma abundância de contrastes nas parábolas do Senhor, os quais despertam o interesse dos ouvintes e dos leitores. Assim, há: uma casa edificada sobre a rocha e outra na areia, peixes bons e peixes ruins, cinco virgens néscias e cinco prudentes, um servo fiel e um servo mau, o vinho novo e os odres velhos, etc.

 

  1. d) Conflito. Existe  uma  infinidade  de  conflitos  nessas parábolas, como, por exemplo: os homens que trabalham uma hora e os que trabalham o dia inteiro (Mt 20.1-16), a viúva persistente e o juiz (Lc 18.5-8), as virgens prudentes que se negaram a fornecer azeite às néscias (Mt 25.1-13), etc.

 

  1. e) Tríades.  Outro  detalhe  interessante  das  parábolas,  é  que  muitas  delas  são  compostas  por  três  personagens  ou  elementos principais. Por exemplo: a parábola do filho pródigo (o pai, o filho mais moço e o filho mais velho), a parábola das dez virgens (o noivo, as cinco virgens  prudentes  e  as  cinco  virgens  néscias),  a  parábola  do  credor incompassivo (o rei, o devedor maior e o devedor menor), a parábola dos dois filhos (o pai, o filho obediente e o filho desobediente), etc. Entretanto, Scholz afirma que já se notou que, nas parábolas, aplica-se a lei dos dois atores no palco, pois numa cena geralmente aparecem apenas dois atores.

 

  1. f) Inversão.  Verifica-se,  frequentemente,  que  a  parábola começa por conceder vantagem ao ponto de vista que será finalmente desfavorecido. Assim, Jesus vai ao encontro do seu interlocutor; entra em sua maneira de ver. Sentindo-se compreendido, o interlocutor se deixa levar sem dificuldade. Então, o aspecto das coisas se modifica; uma nova maneira de ver se apresenta, melhor do que a primeira. O interlocutor, que assim deve convir, acha-se, desse modo, apanhado numa nova perspectiva.
  2. g) Ênfase final. Nas parábolas de Jesus, não é o começo que diz o que é importante, porém o seu final. A importância recai sobre a  última  pessoa  mencionada,  o  último  feito  ou  a  última  declaração. O  “efeito  final”  da  parábola  é  deliberadamente  elaborado  em  sua composição.  Foi  o  samaritano  que  aliviou  a  dor  do  homem  ferido, não o sacerdote ou o levita.  Na parábola do semeador, o solo fértil também é mencionado por último. 
  3. h) Perguntas retóricas. Estas estimulam os ouvintes/leitores a  responderem  mentalmente  aos  desafios  propostos  por  Jesus.  Por exemplo, o Senhor perguntou: “A que, pois, compararei os homens da presente geração, e a que são eles semelhantes?” (Lc 7.31); “… Contudo quando  vier  o  Filho  do  homem,  achará  porventura  fé  na  terra?”  (Lc 18.8);  três,  das  cinco  frases  da  parábola  que  Jesus  contou  sobre  a recompensa do servo, são perguntas retóricas (Lc 17.7-10).
  4. i) Evocação  de  resposta. As parábolas funcionam como um meio para evocar respostas por parte do ouvinte. São contadas para dirigir-se  aos  ouvintes  e  cativá-los,  a  fim  de  fazê-los  parar  e  pensar acerca das suas próprias ações, ou de levá-los a dar alguma resposta a Jesus e ao Seu ministério.

 

  1. j) Extraordinário. Muitas   parábolas   parecem   histórias   simples e claras, mas sempre acontece algo fora do comum, que leva a certas perguntas. Este extraordinário ajuda a achar a verdade central da  parábola. Quem  deixaria  99  ovelhas  para procurar uma perdida? Quem  ficaria  semeando,  enquanto  três  quartos  das  sementes  se perdem? Qual pai aguardaria, com tanta paciência, um filho que pôs toda a herança a perder? Realmente, Deus age de maneira diferente.
  2. l) Exagero. Apesar de serem estórias que retratam o cotidiano, algumas  parábolas  podem  conter  um  exagero  deliberado,  a  fim  de ressaltar  algum  aspecto  da  parábola  (e.g.,  dez  mil  talentos,  segundo  qualquer cálculo, é uma soma astronômica de dinheiro, cf. Mt 18.24).
  3. m) Detalhes  irrelevantes.  Por  vezes,  pergunta-se  por  que são  deixados  de  lado  vários  detalhes  que  deveriam  fazer  parte  da história de uma parábola. Por exemplo, na parábola das dez virgens é apresentado o noivo, mas se ignora totalmente a noiva. Pormenores como  este  não  são  relevantes  na  composição  geral  das  parábolas. Surge daí o princípio de que nunca se deve questionar aquilo que a parábola não responde, para não se incorrer em erros.

Todos  estes  aspectos  das  parábolas  demonstram  o  impacto  incomum que as histórias de Jesus provocavam naqueles que ouviam sua  proclamação.  O  uso  correto  e  adequado  de  uma  parábola  pode  causar um impacto sem precedentes na mente do ouvinte.

 

 

  • O USO DE AÇÕES PARABÓLICAS

 

 

Existem  inúmeras  ocasiões  nos  Evangelhos,  onde  o  ensino de  Jesus  foi  mediado  através  de  ações  parabólicas.  Nestas  ocasiões, a  ação  de  Jesus  não  foi  simples  ilustração  para  auxiliar  a  expressão  verbal,  mas  o  ensino,  que  era  não-verbal,  estava  contido  na  própria ação. Quando Stählin afirma que as ações de caráter parabólico e as parábolas pertencem à mesma família, afirma que:

 

elas  têm  em  comum,  que,  com  uma  ilustração, 

uma  verdade  é  apresentada,  e  que  escondem 

uma ou mais realidades ou verdades e, ao mesmo 

tempo,  as  tornam  manifestas.  Também,  a  ação  

parabólica  reforça  algo,  que  preliminarmente  é  

visto, dando mais ênfase, mais especificidade, do 

que se fosse falado/pregado sem ilustração.”

 

Ballarini considera que as ações parabólicas “exprimem uma determinada realidade ou verdade com extrema evidência, bastando poucas  palavras,  as  quais  ordinariamente  acompanham  a  ação,  para nos  dar  o  seu  significado”. Percebe-se,  entretanto,  que  as  palavras são,  em  alguns  casos,  desnecessárias,  pois  a  própria  ação  parabólica  parece ser uma pregação em si. 

Martínez  é  da  opinião  de  que  o  profeta  deixava  de  ser simplesmente  proclamador  da  palavra  para  converter-se  em  ator. Assim, ele não se limitava apenas a falar ou a ter uma visão, mas devia atuar, e sua atuação principal era assimilar pessoalmente a Palavra de Deus. J. Jeremias atribui este mesmo conceito para Jesus:

 

As  ações  parabólicas  de  Jesus  são  pregação. Jesus não só pregou a mensagem das parábolas, mas  também  as  viveu  e  as  corporificou  em  sua pessoa. Jesus não só 

fala a mensagem do reino de Deus, ele a é ao mesmo tempo.

 

Pode-se  perceber,  numa  leitura  bíblica,  que  as  parábolas, tanto  relatadas  como  dramatizadas  (ações  parabólicas),  foram  um recurso  largamente  utilizado  pelos  profetas  e,  especialmente,  pelo  Senhor  Jesus  Cristo.  Jesus  poderia  ter  se  dado  por  satisfeito  com  o falar  figurativamente;  por  que,  então,  também  fazer  uso  de  ações parabólicas?  Como  resposta,  deve-se  citar  preliminarmente  que Jesus agia assim por tradição, usando referências e exemplos de atos e pronunciamentos dos profetas do Antigo Testamento e também dos sacerdotes  israelitas.  Especialmente  nos  profetas  maiores,  pode-se observar atitudes parabólicas muito curiosas.  No livro de Atos dos Apóstolos, lembrando os moldes dos profetas do Antigo Testamento, encontra-se  a  maneira  sugestiva  do  profeta  Ágabo  prever  o  que aconteceria com o apóstolo Paulo em Jerusalém (At 21.11), que pode ser considerado uma ação parabólica. 

Entretanto, com toda certeza, no período do Novo Testamento, foi  Jesus  quem  mais  se  serviu  deste  recurso  de  ações  parabólicas. Estima-se que um terço da sua proclamação oral tenha sido proferida em forma de parábolas relatadas. Joaquim Jeremias, um dos maiores eruditos  na  área  de  parábolas,  após  o  seu  estudo  das  parábolas  de  Jesus, afirma que existem também as ações parabólicas no ministério de  Jesus.  Entre  as  ações  identificadas  por  J.  Jeremias  pode-se  citar: a concessão de comunhão de mesa aos desprezados (Lc 19.5s) e sua recepção em casa (Lc 15.1-2), e até mesmo no círculo dos seus discípulos (Mt 2.14; Mt 10.3); a recusa do jejum (Mc 2.19); a atribuição do apelido de Kephas (= pedra) a Simão (Mt 16.17); a escolha dos doze apóstolos; a entrada triunfal em Jerusalém e a escolha do jumento como animal de montaria nesta entrada (cf. Zc 9.9); a colocação de uma criança diante dos discípulos, abençoando-a (Mc 9.36); o momento em que Ele lava os pés de seus discípulos (Jo 13.1ss); o escrever sobre a areia, no caso da mulher adúltera (Jo 7.53ss); e o choro de Jesus sobre Jerusalém.

Stein  identifica  algumas  outras  situações,  considerando-as também como ações parabólicas. Entre elas pode-se citar: o encontro de Jesus com Zaqueu (Lc 19.1-6); a escolha dos doze apóstolos (Mc 3.14-19), que é reforçada em seu simbolismo na escolha do substituto Matias  (At  1.15-26),  para  que  o  número  seja  mantido;  o  batismo  de Jesus no Jordão (Mc 1.9); a multiplicação dos pães (Mc 6.32-44; 8.1-10); a ida de Jesus a Jerusalém para seu sacrifício final (Mc 10.33-34, c/ Lc 13.33); a maldição da figueira (Mc 11.12-14); a purificação do templo (Mc 11.15-17); o silêncio de Jesus diante das autoridades (Mc 14.61 e 15.5); a ordem de sacudir o pó dos pés, onde seus discípulos não fossem recebidos (Mc 6.11); a transformação de água em vinho, nas Bodas de Caná da Galileia (Jo 2.1-11); e a ressurreição de Lázaro (Jo 12.25-44).

Stählin  também  faz  a  sua  lista  dos  atos  que  “pertencem  à categoria das ações de caráter parabólico”: o ato de pesca de Pedro, a  unção  em  Betânia,  o  lava-pés,  a  santa  ceia,  o  casamento  de  Caná, a transfiguração, a entrada e a purificação do templo, também todos os  convites  que  Jesus  fez  e  recebeu,  todas  as  curas,  principalmente dos cegos e mudos, as curas de leprosos e endemoniados, bem como ressurreição  dos  mortos,  o  caminhar  sobre  o  mar,  a  maldição  da  figueira e muitas outras histórias. Ele admite que sobre muitos destes relatos naturalmente haverá divergência se estas eram, de fato, ações 

parabólicas.

Stählin  lembra  ainda  que  há  uma  aglomeração  especial  de ações parabólicas nas últimas semanas de Jesus. Isto, em si, já realça a importância da história e mensagem de Jesus. Enquanto, antes, as ações são  transmitidas  isoladamente  em  geral  e  somente  posteriormente  reunidas em unidades, neste período final há os entrelaçados entre si. Tem-se, já no início, a união da entrada em Jerusalém, a purificação do templo e a maldição da figueira e, um pouco menos entrelaçado, a unção, o lava-pés e a Santa Ceia. Justamente as duas primeiras ações citadas tornam-se um par inseparável. Isto significa que o tempo do novo mundo está chegando, está aqui, iniciando com a entrada triunfal do rei para assumir a posse e a renovação do Templo e de seus cultos divinos.  Jesus  constituiu  ambas  propositalmente  para  demonstrar que agora se dá o início do verdadeiro reinar de Deus, e que agora é o início da verdadeira veneração divina. Idêntica é a situação do ato de  maldição  da  figueira.  Isto  não  é  um  milagre  de  castigo,  como  se atribui, mas uma ação pura do significado – agora o juízo chegou e está aqui.  Assim  o  juízo  chegou  aos  seres  humanos,  onde  Deus  procura, sem êxito, frutos. 

A  pergunta  que  precisa  ser  feita  agora  é:  Por  que  Jesus  fez uso  de  ações  parabólicas?  Stählin  é  enfático  ao  dizer  que  uma  das respostas  a  esta  pergunta,  sem  dúvida,  será  a  seguinte:  para  Jesus, “tudo” é utilizado para demonstrar seu envio e sua mensagem. 

Ballarini afirma que a ação parabólica “tem a função de chamar a  atenção para  os  dizeres  do  profeta”. Neste  sentido,  ela  procura evidenciar a palavra do profeta, tornando a sua mensagem mais bem compreendida.  Fohrer concorda, afirmando que o ato parabólico tem na sua execução a finalidade de levar a cabo a incumbência profética.

Fohrer  explica  ainda  que  estas  ações  têm  o  propósito  de despertar a curiosidade e a atenção, para alcançar aqueles que não querem ouvir a palavra falada. Muitas vezes se reconheceu que as ações foram feitas propositalmente para exemplificar, reforçar e sublinhar a palavra do profeta, vinda de Javé. Elas servem, assim, para a pregação profética e pertencem a este anúncio como meio  homilético. Nesse sentido, elas são media  praedicationis. Despertam  a  curiosidade,  chamam  a  atenção para  que  o  anúncio  seja  mais  expressivo,  ativando  a  imaginação  do ouvinte.  A  ação  parabólica,  portanto,  ilustra  e  dramatiza  a  palavra, com  um  fim  didático.  Funciona  também  como  um meio  psicológico,  convidando o destinatário à reflexão. Assim, focalizam e pontuam a palavra profética, tornando-a marcante, para não ser esquecida.

Neste sentido, os atos parabólicos impregnam mais facilmente a memória humana, e este era o objetivo, não somente dos profetas, mas também dos rabinos, e, em forma um pouco diferente, também o de Jesus.

A partir das características das parábolas relatadas, pode-se relacionar  algumas  características  que  servem  igualmente  às  ações parabólicas.  O  ator  de  uma  parábola  dramatizada  usava  da  mesma forma  as  coisas  do  cotidiano para proclamar a sua mensagem. Assim, Jesus  usou  uma  bacia  com  água  e  um  costume  muito  conhecido  de  lavar os pés para transmitir seu ensino aos discípulos. Também através da ceia, refeição comum, Jesus intentou algo para ser transmitido.

Da  mesma  forma,  os contrastes (pagamento  do  tributo),  o suspense (o silêncio de Jesus diante das autoridades), o conflito (entrada triunfal com um jumento), a inversão (pesca maravilhosa) e ênfase final(bênção  das  crianças),  o extraordinário (o  lava-pés,  pelo  Senhor)  e  o exagero (purificação do templo, à base de chicote), e, principalmente, a evocação de resposta (que era a intenção em todas as ações) podem ser encontrados nas ações parabólicas. 

Além destes  aspectos,  as  ações  parabólicas  apresentam internamente três características:

  1. a) O objeto do ato: por um lado, qualquer coisa pode tornar-se objeto do ato parabólico e servir de representação para a imagem primária  a  que  se  refere  (uma  pessoa,  suas  vestes,  seu  cabelo,  seu nome, posses ou utensílios em geral). Por outro lado, em sua qualidade de representação figurada, estes objetos do ato parabólico têm uma relação  bem  determinada  com  outra  realidade  separada  deles.  Eles geralmente representam outro objeto diferente deles mesmos (como o povo de Israel, um povo estrangeiro, um aspecto do Reino, etc.). Há que se considerar ainda que a relação dos objetos do ato com a imagem 

original diferente deles é aquela apresentada.

  1. b)  A  maneira  e  a  forma  do  ato. Às vezes, qualquer tipo de ação  pode  ser  utilizado  para  caracterizar  o  evento  representado (movimentar,   destruir,   abster-se   de   alguma   coisa,   atividades cotidianas ou familiares, etc). Às vezes a ação consiste em imitação (o tipo de ação que se deverá realizar no futuro é imitado pela ação presente). E, ainda, a ação pode ser realizada segundo o princípio da analogia (ela se realiza para que em outro lugar suceda a mesma coisa na realidade).
  2. c)  O  simbolismo  simples.  Fohrer  argumenta  ainda  que  os atos simbólicos  sempre  apresentam  um  simbolismo  simples  e  não  duplo,  como  por  exemplo,  do  presente  ou  passado  e  futuro.  Assim como a mesma palavra não pode abarcar todos os tempos, tampouco o pode o ato.

No  entanto,  Stählin  discorda  desta  opinião  e  afirma  que  há uma  diferença  significativa  entre  as  ações  de  Jesus  e  as  parábolas relatadas,  que  não  se  restringe  somente  ao  maior  poder  visual  e enfático.  Segundo  o  próprio  Jesus,  a  parábola  em  si  restringe-se  ao propósito  de fornecer  uma mensagem  significativa, mas nas ações  a situação é diferente. Muitas vezes elas têm uma dupla ou tripla função. Justamente para a maior parte destas ações esta dupla função pertence a sua essência. Todas as ações, fora algumas exceções, possuem, não somente um significado indicativo, mas também um significado atual bem concreto. Assim, toda cura de Jesus, no seu princípio, é um ato de ajuda, mas ao mesmo tempo uma indicação de que agora é o tempo da salvação, e que agora o Salvador está aqui. Toda expulsão de um demônio é preliminarmente um ato de libertação, mas ao mesmo tempo significa parabolicamente que agora o poder do diabo está quebrado e está estabelecida a autoridade de Deus. Cada vez que é aberta a visão de  um  cego  é,  no  princípio,  um  simples,  mas  valioso,  presente,  que pode ser feito a uma pessoa, mas também mostra que a luz divina está entrando na escuridão e vence a mesma. Cada cura de surdos e mudos, coloca  os  curados  novamente  no  convívio  humano,  mas  significa também  que  Jesus  tem  o  poder  de  abrir  ouvidos  diferentes,  que podem  ouvir  e  ser  tornados  em  testemunhas  e  mensageiros.  A  cura dos leprosos salva estes pobres de uma morte dolorosa e da exclusão completa  do convívio  social  e  assim  parabolicamente  demonstra a purificação do homem do pecado e seu retorno à comunhão com Deus e o seu povo. Tudo isto é obra de Jesus e assim se poderia continuar com as multiplicações dos pães, as ceias, com o batismo, a santa ceia e outros atos mais.

Especialmente  importante  é  a  dupla  função  numa  das mais   profundas   atitudes   de   Jesus,   que   também   desempenhou   a   mais  forte  consequência  na  história  da  igreja  cristã  –  a  santa  ceia. Neste  ato,  segundo  Stählin,  tem-se  no  mínimo  um  duplo  sentido parabólico.  Como  muitas  outras  refeições  com  Jesus,  a  Santa Ceia  aponta  de  antemão  à  grande  ceia  no  Reino  de  Deus,  isto  é,  à magnitude da comunhão integral com Deus no seu mundo perpétuo. Como  nas  outras  refeições,  esta  comunhão  se  realiza  já  aqui,  mas comparando com  as  outras  solenidades,  há  um  sentido  exclusivo. 

Em muitos casos Jesus é o anfitrião, que oferece aos seus hóspedes a comunhão pessoal, mas na Santa Ceia Jesus é também pessoalmente o alimento oferecido aos convidados à casa e à mesa. De acordo com o sentido parabólico da Santa Ceia, Ele mesmo é a dádiva milagrosa da  eternidade,  a  santa  comunhão  com  Deus.  Ele,  em  função  do sacrifício, está disposto para este ato e no qual jaz a nova conquista da  comunhão  de  Deus  com  os  homens.  Assim,  o sentido  parabólico escatológico da Santa Ceia tem uma relação específica com o sentido 

simbólico  do  sacrifício. Este  é  o  outro  sentido  parabólico  da  Santa Ceia: com o partir do pão e com o vinho tinto, Jesus retrata a sua morte em  sacrifício.  Jesus,  ao  dar  aos  seus  discípulos  a  comer  pão  e  beber  vinho,  capacita-os  ao  sacerdócio  e  membros  do  culto,  aqueles  que, pela participação na oferta, é dada a força da bênção do sacrifício. É de importância para a Santa Ceia que os discípulos sejam envolvidos pessoalmente  nesta  ação  parabólica.  Assim, eles não  somente  são participantes  do  acontecimento,  em  especial  no  seu  preparo,  mas, também,  decididamente  são  participantes  do  próprio  sacrifício  de  Jesus  e  assim,  consequentemente,  participantes  na  Ceia  redentora  escatológica.  Como  as  palavras  que  Jesus  fala  têm  poderes  de  ação, assim esta ação parabólica tem força ativa. A mensagem proclamada torna-se realidade. Os discípulos adquirem de fato a íntima e pessoal comunhão  com  o  seu  mestre,  o  qual  oferta-se  por  eles  em  sacrifício.  Assim, os discípulos são enxertados de fato na realidade redentora do Reino vindouro.

Assim,  cada  uma  das  ações  parabólicas  de  Jesus,  pode  ao mesmo  tempo  ser  uma  ilustração  da  sua  mensagem  e  proclamação,  como muitas vezes pode ser a própria mensagem proferida em forma de um gesto simbólico.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Braga lembra que o componente mais importante do sermão não é a ilustração, mas a explanação da verdade bíblica. Mas qualquer pregador que tenha uma mensagem dada por Deus e um desejo ardente de torná-la clara aos seus ouvintes, fará de tudo para descobrir e usar ilustrações  que  tornem  seu  sermão  interessante  e  atraente. Como disse  James  Crane,  “a  ilustração  é  a  parte  do  sermão  que  ajuda  a congregação a ver com os olhos da mente”.

Não se pode subestimar o poder que uma boa ilustração tem  para esclarecer o conteúdo de uma mensagem. Perdeu-se no decorrer do tempo a habilidade de observar as coisas do dia a dia, os aspectos da natureza, os elementos tecnológicos e científicos que nos rodeiam, os acontecimentos históricos, as rotinas do cotidiano e tantas outras coisas  que  poderiam  ajudar  a  tornar  compreensíveis  as  verdades pregadas, por mais que estas sejam complexas e profundas.

Que  o  exemplo  de  proclamação  de  Jesus  e  que  os  Seus recursos  homiléticos,  que,  embora  sendo  simples,  eram  impactantes  e eficientes, possam incentivar os modernos pregadores da Palavra de Deus a deixar suas mensagens cada vez mais claras e cativantes. Que assim  como  era  com  Jesus,  que  os  ouvintes  de  hoje  também  fiquem maravilhados com a pregação da mensagem do Evangelho.