RESUMO

A Sola Scriptura foi um dos lemas fundamentais e norteadores da Reforma Protestante   ocorrida no século XVI. Sob a égide do Renascentismo, todos os reformadores propuseram   um retorno da igreja às Sagradas Escrituras. O objetivo do presente artigo   é apresentar as principais contribuições dos reformadores mais iminentes no que concerne à visão protestante acerca da Bíblia.  Para tal, o trabalho inicia com um breve panorama sobre o entendimento que se tinha das Escrituras antes da Reforma Protestante. Em seguida, analisa as contribuições dos principais reformadores acerca da autoridade, autenticação e poder das Escrituras.  A pesquisa finaliza com um breve levantamento dos principais resultados do entendimento que os reformadores tiveram acerca das Escrituras. Estes desdobramentos constituem nos elementos diferenciadores da fé e prática protestante, principalmente em relação ao catolicismo romano.

INTRODUÇÃO

A Sola Scriptura, como é conhecida no meio protestante, é   certamente um dos mais importantes temas abordados   pelos reformadores do século XVI. Podemos afirmar que este é o fundamento dos demais temas tratados por eles, uma vez que todas as doutrinas e argumentos que usaram para defendê-las recorreram principalmente às Escrituras cristãs. Por isso, tratar deste tema é um empreendimento bem desafiador, pois sempre se corre o risco de empobrecê-lo ou mesmo distorcê-lo.

O objetivo deste artigo é apresentar um panorama da visão dos principais reformadores acerca da Bíblia, focando no tema da sola Scriptura.

Embora tenha consciência de que nenhuma apresentação histórico-teológica seja totalmente isenta de pressupostos, procurarei ser o mais imparcial possível na apresentação do pensamento de cada reformador. Por isso, serão privilegiadas as próprias palavras deles, ao invés de interpretações secundárias acerca delas.

O tema poderia ser tratado de diversos modos, empregando-se diferentes metodologias. Por exemplo, o assunto pode ser organizado por tópicos; por autor; de modo diacrônico; ou discutido a partir dos textos bíblicos pertinentes. Optei por uma abordagem mais eclética. 

Deste modo, não será apresentado tudo que cada reformador disse sobre o assunto, mas apenas as ênfases e as principais contribuições de cada um deles ao tema abordado.  Além disso, os reformadores apresentados serão aqueles que trouxeram uma contribuição inovadora ao debate da Sola Scriptura.

Porém, antes de tentar compreender a visão dos reformadores acerca da Bíblia é necessário que compreendamos primeiramente qual o pano de fundo geral diante do qual eles apresentaram seus próprios pontos de vista acerca das Escrituras.

  1. O ENTENDIMENTO SOBRE AS ESCRITURAS ANTES DA REFORMA

Diferente do que comumente se pensa, no período anterior à Reforma Protestante se reconhecia a inspiração divina e a autoridade das Escrituras. Por exemplo, em uma carta destinada a Jerônimo, em 405, Agostinho (354-430) escreveu o seguinte:

Eu aprendi a atribuir àqueles livros que são de classificação canônica, e somente a eles tal reverência e honra, afirme crença de que em nenhum   deles ocorre um único erro devido ao autor. E, quando sou confrontado nestes livros com qualquer coisa que pareça estar em desacordo com a verdade, não hesito em atribuir isso quer ao resultado da utilização de um texto incorreto, quer ao fracasso de um comentarista em explicar as palavras ou à minha própria compreensão equivocada da passagem.

Já no período medieval, Hugo de São Vítor (c.  1096-1141) declarou: A única Escritura que é corretamente chamada de divina é aquela inspirada pelo Espírito de Deus e proferida por aqueles que falam pelo Espírito de Deus; ela torna divina a humanidade, reformando-a à imagem de Deus mediante a instrução do conhecimento e a exortação ao amor.  Tudo o que é ensinado nela é verdade; tudo quanto é ordenado é bondade, tudo o que é prometido é felicidade.

Cerca de uma geração depois, Ricardo de São Vítor (m. 1173) também postulou:

Qualquer    verdade que    a autoridade das    Escrituras não confirme   é suspeita a meus olhos; eu não recebo Cristo em seu esplendor, a menos que Moisés e Elias estejam presentes.  […] Eu não recebo Cristo sem uma testemunha. Nenhuma aparente revelação é ratificada sem o testemunho de Moisés e Elias, sem a autoridade das Escrituras.

Mesmo durante a Escolástica, conhecida por sua teologia especulativa, mediante o amplo emprego da filosofia, “muitos dos grandes teólogos […] refletiram profundamente sobre a natureza e a função da Escritura e sobre a forma mais adequada de sua exposição”.

Por exemplo, em sua Summa Theologiae, Tomás de Aquino (1225-1274) é  bem categórico ao declarar: “Não podemos dizer com verdade que  o Evangelho ou qualquer Escritura canônica afirmem nenhuma falsidade, nem que os seus autores disseram alguma mentira; porque então  desapareceria a certeza da fé, que se apoia na autoridade da Sagrada Escritura”.

Portanto, embora   os exemplos acima   sirvam apenas de amostragem, não restam dúvidas de que os teólogos do medievo reconheciam   a veracidade e autoridade das Escrituras Sagradas.   

Todavia, o problema é que também se acreditava que a autoridade das Escrituras deveria ser equilibrada e normatizada no contexto da autoridade da igreja.  O entendimento da época era que “a Igreja Católica produz o contexto adequado para a leitura, a compreensão e o apelo das Escrituras”.

Já em meados do III século, Cipriano (fal. 258) escreveu que “a igreja é representada em seu bispo e a definição por eles tem caráter de lei”.

Gabriel Biel (c. 1420-1495), fundamentando sua tese nos escritos de Basílio de Cesareia (c. 330-379), ensinou que a tradição era uma segunda fonte distinta de ensinamento autorizado, ao lado da Escritura.

Neste sentido, a tradição é caracterizada como “irrenunciável para entender a Escritura”, colocando-se Escritura e tradição, na prática, no mesmo nível de autoridade.

Além disso, havia a crença na existência de uma tradição não escrita transmitida pelos pais da igreja, que remontava aos apóstolos e ao próprio Cristo.

Em sua polêmica contra os gnósticos, Irineu (130-202) apelou para “essa tradição que é derivada dos apóstolos” e “preservada publicamente nas igrejas que permanecem na herança dos apóstolos”.

Ele acreditava que esta tradição remontava ao próprio Cristo, que havia transmitido aos apóstolos, os quais repassaram aos seus próprios discípulos e estes às gerações seguintes, numa sucessão ininterrupta.

De acordo com o próprio Irineu, esta tradição fornecia o parâmetro correto pelo qual Antigo e Novo Testamento deveriam ser interpretados.

Depois de Irineu, outros pais, tais como Tertuliano (160-220)   e Orígenes (185-254) confirmaram e desenvolveram o conceito de tradição apostólica.

A primeira história da igreja, escrita por Eusébio de Cesareia (263-339), inicia declarando “as sucessões dos santos apóstolos” e a firmando a “continuidade apostólica das instituições e ensinamentos das verdadeiras igrejas”.

Durante todo o período medieval havia, portanto, a crença na existência de “uma cadeia contínua de doutrina ortodoxa transmitida por intermédio dos pais”, que remontava aos apóstolos e, por sua vez, ao próprio Cristo.

Para alguns, esta tradição interpretativa era também inspirada pelo Espírito Santo e possuía tanta autoridade quanto a tradição escrita expressa na Bíblia.

Ademais, durante todo o período medieval prevaleceu o método quádruplo de interpretação bíblica, que era usado para legitimar os dogmas estabelecidos pela tradição teológica da igreja.

Deste modo, acreditava-se que todo texto bíblico possuía quatro sentidos: o literal ou gramatical, o alegórico ou espiritual, o tropológico ou parentético e o anagógico ou escatológico.

Estes quatro sentidos eram manipulados pelo magistério da igreja para comprovar os dogmas que não podiam ser claramente percebidos por uma leitura literal do texto bíblico.

Finalmente, a   autoridade das   Escrituras era, em   muitos casos, confundida com a autoridade da Vulgata latina, tida como a Bíblia oficial da igreja.

Esta era a versão que o magistério lia para fundamentar as doutrinas da igreja.  A Bíblia latina também era lida na liturgia da igreja. Porém, havia vários termos traduzidos pela Vulgata que não correspondiam ao sentido original da palavra grega, confundindo, portanto, os leitores comuns.  Por exemplo, a palavra grega metanoia era traduzida por “fazer penitência”; o termo mysterion, por “sacramentum”; o verbo dikaioô era traduzido por iustificat (“tornar justo”), entre outros.

Portanto, embora a igreja medieval nunca tenha se definido oficialmente como estando acima das Escrituras, julgou-se como a instância final e autoritativa   de interpretação da Bíblia.

O entendimento era que “a interpretação dada pelo magistério eclesiástico é correta, autoritativa e incorrigível”, não admitindo contestação.

Isso, obviamente, servia como um óculo hermenêutico que condicionava o entendimento dos textos, que eram sempre lidos à luz dos dogmas já estabelecidos pela Igreja.

  1.  O ENTENDIMENTO DOS REFORMADORES SOBRE AS ESCRITURAS

Como declara Jaroslav Pelikan, “a primazia da palavra de Deus era fundamental para a doutrina da Reforma e para ‘toda a substância da religião cristã”.

O princípio reformador da sola Scriptura significa que somente a Escritura, por ser a Palavra inspirada de Deus, é a autoridade final e suficiente para a igreja.

Todos os reformadores enfatizaram a suficiência e autoridade das Escrituras como regra de fé e prática, tanto para o indivíduo quanto para a igreja. Todavia, como propus na introdução, abordarei as principais ênfases dos reformadores no que concerne ao tratamento sobre as Escrituras, destacando suas contribuições mais importantes ao tema abordado.

2.1. A Sola Scriptura em Martinho Lutero

Pelikan afirma que “a teologia de Martinho Lutero era uma teologia da palavra de Deus: o ponto alto de seu mais conhecido hino era o desafiante verso: ‘Sim, que a palavra ficará, sabemos com certeza” (Castelo forte, C.C.  323).

Martinho Lutero (1483-1546) enfatizou principalmente a autoridade das Escrituras e a exclusividade destas como fonte de doutrina e fé.

Em sua época, ele enfrentou duas correntes que considerava ameaças à centralidade das Escrituras como Palavra de Deus. Primeiramente, o reformador lutou contra o papado por entender que este submetia a autoridade das Escrituras à autoridade da igreja e à voz da tradição.  Lutero não desprezava a autoridade da igreja ou o valor da tradição, porém, para ele, é a Bíblia que tem autoridade suprema sobre a tradição e a Igreja e não vice-versa. Em sua resposta ao cardeal Caetano (1469-1534), em 1518, que o confrontou com base na autoridade do ensinamento da igreja, o reformador afirmou que “a verdade da Escritura tem prioridade; depois é que se deve verificar se podem ser verdadeiras as palavras humanas.”

Em sua carta ao papa Leão X (1513-1521), escrita em setembro de 1520, Lutero reconhece a autoridade dele, mas o convida a se submeter aos ensinamentos claros e simples da Escritura.

Respondendo à ameaça de excomunhão promulgada pelo papa, Lutero emprega a expressão “somente a Escritura”, provavelmente pela primeira vez: Não quero jogar fora todos aqueles que são mais  instruídos [do que eu sou], mas somente a Escritura deve reinar, e não a interpreto por meu próprio espírito ou pelo espírito de qualquer homem, mas quero entendê-la por si  mesma e mediante seu espírito.

Diante  da Dieta  de Worms, em  maio de 1521, Lutero  fez sua mais famosa declaração acerca da autoridade das Escrituras: A não ser que seja convencido pelo testemunho da Escritura ou por argumentos evidentes (pois não  acredito nem no papa nem nos concílios exclusivamente, visto que está claro que os mesmos erraram muitas vezes e contradisseram a si mesmos) – a  minha convicção vem das Escrituras a que me reporto, e minha consciência está presa à palavra de Deus […].

Quando entendia que qualquer autoridade se contrapunha às Escrituras, Lutero era bem incisivo:

Contra todos os Pais [da Igreja], contra a arte e a palavra de todos os anjos, seres humanos e diabo, levanto a Escritura e o evangelho[…]. Aí estou, aí sou impertinente, aí me vanglorio e digo: a palavra de Deus me é superior a tudo […]. Por isso, não me importa um cabelo sequer, se mil Agostinhos […] estiverem contra mim.

O segundo grupo contra o qual Lutero lutou foi o que denominou de “entusiastas”. Estes, na visão do reformador, submetiam a autoridade das Escrituras à voz interior da própria interpretação individual. Os profetas de Zwickau acreditavam que as pessoas deveriam ser ensinadas diretamente pelo Espírito, sem a necessidade da Bíblia, e Tomás Müntzer (c. 1489-1525) alegou receber revelações diretamente do Espírito Santo.

Contrapondo-se a esta concepção, Lutero declarou:

E nessas partes, que dizem respeito à palavra falada, externa, é preciso permanecer com firmeza nisso que Deus a ninguém dá o seu Espírito ou a graça, a não ser por intermédio da palavra exterior precedente ou com ela. Assim nos protegemos dos entusiastas, isto é, daqueles espíritos que se jactam de ter o Espírito sem a palavra e antes dela e que depois julgam, interpretam e esticam a Escritura ou a palavra oral a seu bel-prazer. Assim procedeu Müntzer, e em nossos dias ainda o fazem muitos que querem ser juízes severos na distinção entre Espírito e letra, não sabendo, entretanto, o que dizem ou ensinam.

Neste mesmo escrito, Lutero enfatizou que “Deus não trata conosco, exceto por meio de sua Palavra externa e do sacramento. Tudo o que é atribuído ao Espírito, à parte de tal Palavra e do sacramento, é do Diabo”.

Em sua polêmica contra Andreas Karlstadt, que havia sido seu colega na Universidade de Wittenberg, Lutero é bem incisivo:

O que, então?  A palavra, a palavra, a palavra – estás ouvindo bem, espírito mentiroso?  – é a palavra que faz isso! Porque mesmo se Cristo fosse dado e crucificado mil vezes por nós, tudo seria em vão se a palavra de Deus não viesse a nós e o partilhasse e presenteasse a mim e dissesse:  ‘Isso é teu, pega e guarda-o bem’.

Martinho Lutero defendeu o princípio hermenêutico de que a Escritura é sua própria intérprete (Scriptura sui ipsius interpres).

Isso significa que “não é o intérprete que confere sentido ao texto ou que torna o texto compreensível; antes, é o texto que deve poder dizer aquilo que tem a dizer a partir de si mesmo”.

Neste sentido, não é o leitor que deve se impor diante do texto bíblico, mas o texto bíblico que deve confrontar e se impor diante do leitor. Além disso, do ponto 

de vista do reformador, a Bíblia não pode ser tratada como um mero objeto de pesquisa acadêmica.  Sua correta interpretação pressupõe um envolvimento dinâmico do intérprete com a Palavra de Deus.

Outro elemento importante da hermenêutica de Lutero é que Cristo é visto como o centro a partir do qual toda a Bíblia deve ser compreendida. O reformador defendeu que o princípio pelo qual Antigo e Novo Testamento devem ser interpretado é “o que promove Cristo”.

Sobre isso, Lutero afirma claramente:

Ora, os Evangelhos e as Epístolas dos apóstolos foram  escritos porque eles próprios querem ser esses indicadores,  instruindo-nos nos escritos dos profetas e de Moisés, do Antigo Testamento, para que ali leiamos e vejamos como Cristo está enrolado  em fraldas e colocado na manjedoura, isto é, como ele é anunciado [antecipadamente] na escritura dos profetas. Ali o nosso estudo e a nossa leitura devem exercitar-se e ver o que é Cristo, para que ele foi dado, como ele foi prometido e como toda a Escritura se refere a ele […]

De fato, para o reformador de Wittenberg, os próprios livros sagrados deveriam ser julgados a partir do critério de se promovem a Cristo ou não. Prefaciando as cartas de Tiago e Judas, ele declara:

E    nesse    ponto, todos    os livros genuínos    concordam: que todos eles pregam e promovem Cristo.  Esta é, também, a verdadeira pedra de toque para criticar todos os livros: verificando se eles promovem Cristo ou não, uma vez que toda a Escritura aponta para Cristo.  […] O que não ensina Cristo ainda não é apostólico, mesmo que S. Pedro ou S. Paulo o ensinem. Por outro lado, o que prega a Cristo seria apostólico, mesmo que fosse feito por Judas, Anás, Pilatos e Herodes.

Tendo Cristo como centro, Lutero empregava a distinção entre Lei e Evangelho como chave hermenêutica em sua leitura da Bíblia. Neste sentido, “a lei ordena a justiça que deve ser cumprida; o Evangelho aponta para Cristo, no qual está cumprida a justiça que é apreendida pela fé”.

Todavia, a lei não corresponde meramente às ordenanças veterotestamentárias, pois tanto Antigo quanto Novo Testamento contém lei e evangelho.  É tarefa do teólogo diferenciar uma coisa da outra.

Em seu debate com Erasmo, Lutero também enfatizou a clareza das Escrituras.  Contrapondo-se à ideia erasmiana de que a Bíblia é geralmente obscura, ele diferenciou entre a clareza externa e a clareza interna da Escritura, afirmando que:

[…] existe uma dupla clareza da Escritura, assim como   existe uma dupla obscuridade: uma é externa, colocada   no ministério da palavra; a outra situada na cognição do   coração. Se falas de clareza interna, nenhum ser humano percebe nem um único i das Escrituras, a menos que tenha o Espírito de Deus.  Todos têm um coração obscurecido, de modo que, mesmo que digam e saibam recitar toda a Escritura, nada dela percebem ou conhecem verdadeiramente.  […] Pois para compreender toda a Escritura e qualquer parte dela se precisa do Espírito [Santo]. Se falas da [clareza] externa, não resta absolutamente nada obscuro ou ambíguo; antes, tudo o que há nas Escrituras foi conduzido à luz certíssima e declarado ao orbe todo pela palavra.

Isso significa que a Escritura se apresenta externamente de modo claro e fácil de ser compreendida pelo leitor humilde e atento. Todavia, tal clareza carece da atuação interior do Espírito Santo para ser eficaz na vida do leitor. Esta necessidade se dá, não por uma obscuridade da própria Escritura, como defendia Erasmo, mas sim por causa do coração obscurecido do homem pecador. Assim, de acordo com Lutero, “[…] a própria Sagrada Escritura, a partir de si mesma, é extremamente segura, fácil de entender, clara e manifesta; ela é sua própria intérprete, ao examinar, julgar e iluminar as afirmações   de todas as pessoas […]”.

Todavia, para o reformador, a interpretação das Escrituras não acontece “na singularidade do pesquisador ou do leitor solitário da Bíblia”, mas na dialética da comunidade dos justificados, sobretudo no culto.

Ou seja, é no contexto da reunião eclesiástica e do estudo coletivo que as Escrituras são corretamente interpretadas pelo povo de Deus.

Lutero encarava a palavra pregada como uma verdadeira instituição, uma espécie de sacramento através da qual Deus vem ao ser humano e o confronta, conduzindo-o à fé.

Ele acreditava que “o Espírito Santo dado na palavra é quem faz de alguém um cristão e de uma reunião uma igreja. Por isso, onde está a Palavra de Deus, ali está a igreja.”

Acerca da importância da Palavra de Deus para a vida da igreja, o reformador enfatiza:

Pois  o Evangelho  é, ainda antes  do pão e do batismo,  o símbolo único, mais seguro  e mais eminente da igreja,    porque somente pelo evangelho  a igreja é recebida, formada, nutrida,  gerada, criada, apascentada, vestida, adornada,  fortalecida, armada, preservada, em suma, toda a vida e essência da igreja consiste na palavra de Deus […].

Por   isso, o   reformador   de Wittenberg   acreditava que a   função de pregador da Palavra de Deus era um “dever sagrado”, um ofício santo.  Por esta razão, tal atividade não deveria ser realizada por qualquer um, mas apenas por pessoas devidamente chamadas e capacitadas por Deus para este ministério.

Portanto, para Martinho Lutero, Sola Scriptura significava que todas as autoridades, por mais respeitáveis que fossem, deveriam se submeter à autoridade das Escrituras.

Ninguém estava acima da Palavra de Deus, quer fosse autoridade eclesiástica ou mesmo a voz interior do indivíduo. A Palavra deveria ter a primazia na definição da crença e da prática tanto das pessoas quanto da igreja.

2.2. A Sola Scriptura em Zuínglio

Ulrico   Zuínglio (1484-1531), reformador   suíço, produziu o primeiro tratado sobre a natureza e a função das Escrituras na era protestante.

Sua ênfase foi principalmente no poder e eficácia das Escrituras na vida da igreja. Sobre isso, ele afirmou que “a palavra de Deus é tão viva, forte e poderosa que todas as coisas têm, necessariamente, de obedecer a ela, e isso tão frequentemente e no momento em que o próprio Deus fala”.

Para Zuínglio, a Palavra de Deus é tão poderosa e eficaz que quando ela “brilha sobre o entendimento humano, ela o ilumina de tal forma que ele entende e confessa a Palavra e tem certeza dela”.

Portanto, ele acreditava que a Palavra de Deus carrega em si mesma a dinâmica capaz de abrir o entendimento do indivíduo, operar a fé em seu coração e transformar a sua vida.

O compromisso de Zuínglio com a autoridade e eficácia das Escrituras para transformar a vida de homens e mulheres e da própria sociedade o levou a desenvolver um ministério contínuo de pregação expositiva   em Zurique. Ele defendia que o sermão deveria ser estruturado em torno de duas características das Escrituras: seu poder e sua clareza.

O ministério de pregação bíblica expositiva iniciado por Zuínglio foi continuado pelos seus sucessores na liderança da Reforma na Suíça.  Um dos mais destacados destes sucessores foi Heinrich Bullinger (1504-1575), conhecido por sua fidelidade como expositor bíblico.

2.3. A Sola Scriptura em Calvino

João Calvino (1509-1564), o reformador francês, enfatizou particularmente a auto autenticação das Sagradas Escrituras e a atuação do Espírito Santo neste processo. Ele defendeu que, por serem autopistas, ou seja, “autenticada de si mesma”, as Escrituras dispensam a necessidade de qualquer comprovação racional, “[…] porquanto, a certeza que ela nos merece obtém-na do testemunho do Espírito”.

Neste sentido, embora a autoridade das Escrituras lhe seja intrínseca, esta autoridade é testemunhada no coração do verdadeiro cristão pelo Espírito Santo. Quanto a isso, Calvino afirma:

Ora,  se almejamos  ao que melhor  consulta às consciências, para que não sejam, perpetuamente, levadas  em derredor pela dúvida instável, ou cedam à vacilação, para que nem ainda hesitem diante  de quaisquer questiúnculas de somenos importância, deve-se buscar esta convicção mais alto que  das razões, ou juízos, ou conjecturas humanas, vale dizer, do íntimo testemunho do Espírito.

Portanto, para Calvino, não há necessidade de que alguém convença o crente acerca da origem divina das Escrituras mediante argumentos ou evidências comprobatórias, pois tal convicção lhe é comunicada pela ação interior do Espírito Santo em sua vida. Neste sentido, a autoridade da Palavra “nos foi selada no coração mediante o Espírito”.

O reformador de Genebra enfatizou fortemente a origem divina da Bíblia. Para ele, os autores bíblicos “não falaram de si próprios, mas que, como órgãos do Espírito Santo, pronunciaram somente aquilo para o qual foram do céu comissionados a declarar”.  

Neste sentido, de acordo com Calvino, “devemos à Escritura a mesma reverência devida a Deus, já que ela tem nEle sua única fonte, e não existe nenhuma origem humana misturada nela”.

João Calvino se opôs a qualquer tipo de revelação fora das Escrituras Sagradas.  Para ele, uma vez que não há mais revelações diárias sendo dadas do céu, as Escrituras permanecem únicas, “em que aprouve ao Senhor consagrar Sua verdade à perpétua lembrança”, de modo que “nelas se façam ouvidas as próprias palavras de Deus”.

Deste modo, o reformador de Genebra defendeu que “Deus não é adorado apropriadamente senão mediante a certeza de fé, a qual não pode ser produzida e qualquer outra maneira senão pela Palavra de Deus. Daí, segue-se que todos quantos abandonam a Palavra caem em idolatria”.

Do ponto de vista do reformador francês, tanto o papa quanto os anabatistas comprometiam a autoridade da Palavra por enfatizarem a ação do Espírito, independentemente do testemunho das Escrituras. 

Para evitar estes erros, Calvino atou firmemente a palavra ao Espírito e o Espírito à palavra, de tal modo que um não atuava sem o outro.

Neste sentido, O  Senhor ligou entre  si, como que por mútuo  nexo, a certeza de Sua Palavra  e [a certeza de Seu] Espírito, de  sorte que afirme religião da Palavra se implante em nossa alma quando brilha o  Espirito, que nos faz aí contemplar a face de Deus, assim como, reciprocamente,  abracemos ao Espírito, sem nenhum temor de engano, quando O reconhecemos em Sua imagem, isto é, na Palavra.

João   Calvino   também ressaltou   a ação indispensável   do Espírito Santo na correta compreensão das Sagradas Escrituras. Para o reformador francês, as Escrituras eram os “óculos” que o Espírito usa para abrir os olhos dos cegos ao Evangelho.

Portanto, sem a ação iluminadora do Espírito é impossível ao ser humano por si mesmo compreender corretamente a Escritura. Tal entendimento é um dom especial concedido por Deus ao eleito.

2.4. A Sola Scriptura em Thomas Cranmer

Thomas Cranmer (1489-1556), importante reformador inglês e o primeiro arcebispo protestante de Cantuária, deixou sua contribuição, principalmente no que diz respeito ao poder transformador das Escrituras na vida do indivíduo.  Abordando este tema, ele declara:

As palavras da Sagrada Escritura são chamadas palavras de vida eterna, pois são instrumentos de Deus, ordenadas para o mesmo fim. Elas têm poder para converter mediante a promessa de Deus, e são eficientes por causa da assistência de Deus; e sendo recebidas em um coração fiel, elas têm sempre uma obra celestialmente espiritual em si.

Cranmer   acreditava   que bastava   a exposição contínua   à leitura bíblica para produzir progressivamente piedade na vida de uma pessoa.

Essa  palavra,  em todo aquele  que é diligente para  ler, e se em seu coração  for impresso o que leu, fará com que a grande afeição às coisas transitórias  desse mundo seja diminuída nele e com que o grande desejo por coisas celestes,  que lhe foram prometidas por Deus, aumentem nele.

Porém, para   o reformador   inglês, o leitor   precisa ler as Escrituras com a postura correta: com reverência e humildade. Sobre isso, ele declara:

E   se você   estiver temeroso   de cair em erro   por ler a Sagrada    Escritura, vou mostrar como você pode lê-la sem o perigo de erro.  Leia humildemente, com um coração meigo e humilde, para que glorifique a Deus, e não a si mesmo, com o conhecimento dela.  E não a leia sem orar diariamente a Deus, para que ele dirija sua leitura a um fim proveitoso. E tome sobre você o encargo de não a explicar além do que claramente entender dela. […] Presunção e arrogância são a mãe de todo os erros, e é preciso humildade para temer errar. Pois a humildade vai apenas buscar conhecer a verdade; vai inquirir de outros que conhecem e não vai, presunçosa e impetuosamente, definir qualquer coisa que não conheça.  Portanto, o homem humilde vai pesquisar seguramente qualquer verdade na Escritura sem qualquer perigo de erro.

Assim, para Cranmer, as Escrituras são tão poderosas que basta o indivíduo ser exposto regularmente à sua mensagem para que seja paulatinamente transformado pela sua operação contínua.  

Porém, para que isso ocorra é necessário que se despoje de qualquer arrogância e se aproxime dela com temor, reverência e humildade.

2.5. A Sola Scriptura entre os Anabatistas

Os    anabatistas    foram duramente    criticados tanto por    Lutero quanto por Calvino, que os denominavam de “entusiastas” (grego enthousiastai), que tem o sentido de “fanáticos”.

Ambos os reformadores os acusam de fazerem uma distinção entre “letra” e “espírito” e menosprezarem a autoridade absoluta das Escrituras.

Por outro lado, os anabatistas achavam que a Reforma não havia avançado o suficiente e se ressentiam de que os seus principais líderes tivessem feito aliança com a elite da época, trazendo como principal consequência a união perniciosa entre igreja e Estado.  

Eles   defendiam   uma eclesiologia   fechada, ou seja, uma igreja a formada somente por pessoas convertidas e separadas dos de fora, principalmente do Estado.

Por exemplo, Conrad Grebel (1498-1525), considerado o fundador dos anabatistas, defendia que a igreja deveria ser reformada pela Bíblia e não pela autoridade civil.

Thomas Müntzer (1490-1525) pregava que a igreja havia mergulhado na ruína e na corrupção por causa de sua aliança com o Estado.

Ele criticava duramente Lutero por estar preso apenas à letra, sem experiência com o Espírito e por haver se comprometido com os valores deste mundo:  glória, honra e poder.

Para Müntzer, “nenhuma pessoa com ‘apetites carnais’ pode entender a palavra de Deus, que quer se manifestar em seu íntimo” pela ação direta do Espírito Santo.

Ele defendia que a Igreja é a comunhão dos “eleitos” através da posse do Espírito, formando uma sociedade sem classes e sem a existência de propriedade privada.

Algumas comunidades anabatistas tentaram implantar o modelo de vivência comunitária, um tipo de “comunismo de amor”, que percebiam em Atos dos apóstolos.

Portanto, a principal contribuição dos anabatistas foi propor um rompimento, não apenas com a teologia escolástica, mas também com a patrística, numa aplicação mais radical e consistente da Sola Scriptura.

Em nome desta radicalidade eles rejeitaram o batismo infantil, a união com o Estado e, alguns, até os credos trinitários.

  1. OS RESULTADOS DA ÊNFASE DOS REFORMADORES NA SOLA SCRIPTURA

O ponto de vista que os reformadores tinham das Escrituras e o valor que lhe atribuíam trouxe vários resultados para a igreja tanto imediatos quanto em longo prazo. Primeiramente, o desejo que os reformadores nutriam de que todas as pessoas tivessem acesso à Palavra de Deus, levou-os a incentivarem e possibilitarem a tradução da Bíblia para a língua do povo.

Um dos primeiros atos de Martinho Lutero foi traduzir a Bíblia para o alemão, numa linguagem bem acessível às pessoas comuns.  Além disso, centenas de comentários bíblicos foram escritos por eles para facilitar a compreensão da Bíblia por parte do povo comum.  Em carta aos nobres alemães, escrita em 1524, Lutero instou as autoridades municipais a construírem e manterem escolas cristãs, afim de capacitar todas as pessoas a lerem e entenderem a Escritura.

Além disso, a ênfase na Sola Scriptura levou os reformadores a reorganizarem o mobiliário das igrejas que aderiram a Reforma.

Nas igrejas católicas medievais o culto acontecia em torno do altar e tinha como foco a celebração da missa, que era entendida como uma repetição do sacrifício de Cristo.  Nas igrejas da Reforma, o centro passou a ser o púlpito e o foco foi posto na pregação da Palavra de Deus. Em muitas igrejas protestantes o púlpito foi colocado no centro da nave e as pessoas se postavam ao redor do pregador.

O objetivo era demonstrar a centralidade da pregação da Palavra de Deus para a comunidade.

Esta mudança também resultou na alteração da função do clero.  Na igreja católica medieval o papel principal do clero era a realização dos sacramentos e da liturgia na missa, que era realizada em latim. Nas igrejas da Reforma, o papel fundamental dos pastores passou a ser o de pregar a Palavra de Deus de modo compreensível ao povo.

Salvo raras exceções, a pregação bíblica havia praticamente desaparecido da vida da igreja medieval, prevalecendo as homilias moralizantes. A ênfase dos reformadores na centralidade das Escrituras resultou, ademais, no resgate da pregação bíblica, principalmente expositiva. A maioria dos reformadores foi 

fiel expositor das Sagradas Escrituras, pregando livro por livro, versículo por versículo.

Eles acreditavam que, embora o pregador fosse falível, fraco e indigno, a  Palavra de Deus não é, e sempre que ela é pregada Deus realmente fala ao seu povo. João Calvino, por exemplo, pregou 159 sermões em Jó, 200 em Deuteronômio, 48 em Efésios, 65 nos Evangelhos Sinóticos e 194 em 1 e 2 Samuel.

Zuínglio demonstra impaciência com os pregadores que usavam o que ele chama de “tagarelice piedosa”, deixando as pessoas que os ouvem confusas e vazias.

Finalmente, a ênfase dos reformadores na Sola Scriptura tornou extremamente necessária a preparação adequada dos ministros do Evangelho. Ao transferirem a autoridade do ministério para a Palavra, os “reformadores enfatizaram a autoridade pessoal do ministro, a quem era agora confiada a responsabilidade especial de interpretar e proclamar o texto sagrado”.

Deste modo, para Lutero, somente a sola experientia facit theologum, ou seja, somente a experiência com a Sagrada Escritura é capaz de tornar alguém um bom teólogo.

Neste sentido, ele enfatizou a sedula lectio, ou seja, a ocupação constante e atenta com os textos bíblicos, a meditação cuidadosa sobre o texto, exercitada durante toda a vida.

Este fato tornava ainda mais necessário o preparo e treinamento dos pastores nas línguas originais e no processo hermenêutico e exegético do texto bíblico. Sobre isso, Lutero declara que:

[…]   para interpretar   a Escritura e tratá-la   autonomamente e para combater aqueles que citam a Escritura erroneamente, para isso não tem formação, já que sem o conhecimento das línguas bíblicas isso não é possível.  […] para tanto, não basta uma vida piedosa e o ensino correto. Por essa razão, o conhecimento das línguas bíblicas é absolutamente indispensável na cristandade […]

Portanto, na   visão dos reformadores, a   Bíblia deveria ser interpretada fielmente   por aqueles que haviam recebido o indispensável chamado e treinamento para tal.

Deste modo, Lutero entende que para se tornar um bom teólogo o indivíduo precisava ter competência tanto nas línguas originais quanto em sua própria língua materna.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A ênfase dos reformadores na autoridade, poder e clareza da Escritura continua relevante e necessária em nossos dias. Atualmente são várias vozes que têm destoado completamente da ênfase dos reformadores   na Sola Scriptura. Primeiramente, o existencialismo contemporâneo que postula a interpretação bíblica como uma experiência individual e completamente subjetiva. A ideia é que um texto ganha vida própria a partir do momento que é produzido pelo seu autor. A implicação disso é que o texto bíblico não pode ter apenas um significado válido, mas tantos sentidos quanto forem os seus leitores. Severino Croatto, por exemplo, propõe não a exegese do texto bíblico, mediante a qual extrairíamos o sentido pretendido pelo seu  autor, mas sim a eisegese, mediante a qual se entra no texto com novas perguntas, afim de que sejam produzidos novos significados, nem sempre pretendidos pelo seu autor original.

Além   disso, o   entusiasmo   moderno, tão   combatido por   Lutero e Calvino em sua própria época, continua sendo uma das principais formas de minar a autoridade e suficiência das Escrituras no evangelicalismo contemporâneo.

Há uma ênfase na voz interior e na experiência subjetiva como princípio norteador da interpretação bíblica. Alguns ainda fazem a separação entre “letra” versos “espírito”; como se “letra” significasse o estudo da Bíblia e “espírito” equivalesse à ação sobrenatural do Espírito Santo, desprezando, assim, o estudo sério das Escrituras.

Finalmente, há os que estão mais preocupados com métodos, técnicas e programas e, pelo menos na prática, desprezam o poder transformador da Palavra de Deus na vida das pessoas e da igreja. Há a confiança em que técnicas de marketing e “métodos de crescimento de igreja” produzirão os resultados que os reformadores atribuíram apenas à Palavra de Deus mediante a ação soberana do Espírito Santo.

Portanto, diante deste contexto, é imprescindível que se volte aos princípios básicos defendidos pela reforma protestante acerca da autoridade, do poder e da clareza das Sagradas Escrituras. Conforme Michael Horton declara, a Palavra não é algo que nos seja familiar ou que possa ser produzida pela nossa intuição ou desejo, “mas um discurso estranho e inquietante que nos tira de nossas pretensões morais, subverte nossas suposições mais intuitivas e perturba nossos programas ativistas”.

Confira em nossos periódicos a revista Via Teológica Completa com as citações do artigo acima e outras publicações sobre diversos temas. 

https://fabapar.com.br/publicacoes/