Na estrutura do quarto evangelho, este é o primeiro milagre de Jesus. No evangelho de Mateus, o primeiro milagre é a cura de um leproso (8.1). No de Marcos, é a cura de um endemoninhado. Em João, é a transformação de água em vinho, num casamento numa aldeia obscura. Em Mateus e Marcos, uma pessoa é curada e uma vida é transformada. Em João, é um acontecimento comezinho, que não modifica vida nenhuma. Um episódio que poderia se chamar de pouco relevante.

Em João 20. 20 -31 lemos que os sinais que estão registrados no quarto evangelho assim foram para que os leitores cressem que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e assim, crendo, tivessem vida no seu nome. A escolha deste evento em sua inserção como o primeiro milagre de Jesus faz parte do plano de trabalho de João. Foi colocado ali premeditadamente. Não é um acidente. Quer dizer alguma coisa. Há uma mensagem na estrutura bem planejada do quarto evangelho e João nos ensina tanto pelo que diz como pela forma que diz. Ensina no conteúdo e na forma.

Mais uma questão: João não usa a palavra “milagre”. Usa o termo “sinal”, como lemos no versículo 11. O termo grego é sémeion, que tem dois aspectos, um demonstrativo e outro expressivo. Ao chamar o evento de sémeion, no versículo 11, João está demonstrando e expressando uma verdade. Ele quer sinalizar alguma coisa. O que ele está demonstrando e expressando vale mais que o evento.

Prestem atenção nos dois limites do evento. Primeiro, a expressão inicial: “três dias depois”. Aumenta o sentido da sinalização a forma como o evangelista inicia o relato. Tais palavras se tornaram expressivas, designando a saída de Jesus da morte, com o que sua autoridade foi completamente manifesta. Depois, como termina: “manifestou a sua glória”. Que estranho! Manifestou a sua gloria num casamento na roça? João fala da glória de Jesus em 1.14, mas de forma mais bem elaborada teologicamente: “o Verbo se fez carne… e vimos a sua glória” (1. 14). Uma expressão limite alude à encarnação. A outra alude à ressurreição. O texto é teológico, portanto.

Feitas estas considerações, fixemo-nos nesta questão: o que significa, na teologia de João, a colocação da transformação da água em vinho como primeiro milagre? Por que João o chama sémeion? Por que João põe estes contornos ao fazer seu relato? Em outras palavras, o que este sinal quer dizer? Para responder adequadamente, vamos analisar três figuras que aparecem na história: o casamento, o vinho e o Messias, que não aparece explicitamente, mas implicitamente, na forma de João montar sua historia.

 

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