A Bíblia relata muitas orações de vários personagens tementes a Deus; algumas positivas, enquanto que outras um tanto pesadas e com palavras de difíceis entendimentos. No livro de I Crônicas 4.9 e 10 está registrada a oração de um homem chamado Jabes, da tribo de Judá, que invocou a Deus para que Ele o ajudasse e sua oração se tornou muito famosa nas últimas décadas.

Não obstante o fato da oração de Jabes ter feito tanto sucesso a partir de sua divulgação através da obra de Bruce Wilkinson (muito vendida e traduzida para vários idiomas) e da reinterpretação de sua esposa Darlene Wilkinson (que escreve uma versão para as mulheres), será que aquela pequena perícope diz tudo isso, mesmo? Estariam super valorizando uma oração? O que realmente poderia ser aprendida desta, aparentemente, tão simples prece? Portanto, vamos então, iniciar a nossa análise.

Quanto à delimitação, a questão não apresenta nenhuma dificuldade por se tratar de uma sequência genealógica. O livro de I Crônicas, no capítulo 4, vai discorrer sobre a Genealogia dos descendentes de Judá; quando, de repente, faz uma pausa bem nítida: mudando de personagem e fornecendo maiores detalhes sobre a vida de uma pessoa em particular: Jabes.

Outras características têm corroborado com esta delimitação. Como a mudança no relato (os versos anteriores e posteriores mencionam a sucessão dos parentescos, enquanto que os versos 9 e 10 deixam de falar sobre o parentesco, para dar ênfase aos feitos de um único personagem) e, principalmente, o paradoxo existente (embora esteja numa lista genealógica, não se tem menção alguma de seus parentes, parece até uma inserção ao texto original). Assim, pode-se dizer que I Cr 4.9 e 10 forma uma perícope bem definida.

Quanto à localização no contexto literário, percebe-se que a perícope em questão está localizada na primeira parte relacionada com as Genealogias. Mas infelizmente, sua localização neste contexto literário maior, não trouxe nenhuma contribuição extra. Mesmo, ao analisar os capítulos 1 ao 9, relacionados com as várias genealogias:

1 Genealogia resumida de Adão até os principais de Edom.

2 Os filhos de Jacó e a descendência de Judá

3 Os descendentes de Davi

4 Os descendentes de Judá (outra lista com algumas diferenças)

5 Descendentes de Rubem e Gade

6 Descendentes de Levi, suas cidades, seus cantores, seus sacerdotes e localizações

7 Descendentes de Issacar, Benjamim, Naftali, Manasses, Efraim e Aser

8 Descendentes de Benjamim e de Saul

9 Habitantes de Jerusalém após o cativeiro

Da mesma forma, não foi possível chegar a nenhuma contribuição mais significativa. Pois embora esteja dentro de uma relação genealógica, parece ter sido uma inserção ao texto. A única certeza é o fato dele ter pertencido à tribo de Judá.

Sobre a classificação de gênero e forma literária, pode-se dizer que, embora o título também pudesse ser traduzido por “diários” (Cabral, 19–, p. 142) tanto o primeiro quanto o segundo livro de Crônicas, claramente, são livros históricos. Para Champlin (2000, v.2, p. 1578) eles possuem um valor especial porque não apenas relata a história, propriamente dita, mas também faz certas explicações e avaliações acerca de ideias e das instituições do judaísmo de sua época. Não obstante, o capítulo quatro de I Crônicas, é uma das descrições genealógicas sobre os descendentes de Judá e os versos 9 e 10 (da perícope em análise) é escrito em prosa.

Uma grande peculiaridade encontrada nos livros de Crônicas é sua perspectiva teológica. Ou seja, pra ele a história não é um mero relatar dos fatos, mas é de certa forma reinterpretada pelo cronista (RÖSEL, 2009, p. 67s), sob os planos divinos.

Curiosamente, embora Stellin e Fohrer (2012, p. 340) mencionem o fato do livro de crônicas ter uma Teologia voltada para a retribuição, a perícope em questão é bastante clara em mostrar a inatividade do personagem Jabes. É Deus quem o torna ilustre, sendo o autor da história, enquanto Jabes seria um mero espectador suplicante. Isto, curiosamente, também vai em contradição às palavras de Champlin quando descreve Jabes como um “homem de sabedoria e oração acima de seus contemporâneos” (CHAMPLIN, 2000, p. 1585).

Diante das pesquisas empreendidas, todos estes detalhes são bastante polêmicos e variáveis. A seguir optou-se em adotar aquilo de maior consenso.

Sobre a autoria, a antiga tradição judaica, bem como muitos estudiosos, concordaram por muitos anos que Esdras teria escrito os livros de Crônicas; porém, para os estudiosos modernos eles seriam obras de algum outro autor. Mas, claramente é uma obra anônima (PINTO, 2006, p. 355).

Quanto ao local, outra incógnita. Pouquíssimas conclusões se podem tomar quanto à geografia porque o personagem em estudo não tem sua linha genealógica bem definida. Mas, ao se levar em consideração que Jabes faz parte da relação genealógica descrita em I Cr 4:1-23 (a qual narra a descendência de Judá) diz-se, com certa precisão, que ele morou no território de Judá. Além disso, segundo Champlin (1995, p.610), a partir das informações do verso 5, um de seus possíveis ancestrais foi o fundador da cidade de Tecoa; do verso 11, provavelmente duas cidades seriam pertencentes a seus possíveis descendentes: Naás e Recab (ou Reca). Todavia, dessas três localidades (as quais pareciam delimitar certa região geográfica) apenas Tecoa tem sua localização reconhecida há uns 16 Km de Jerusalém. Enquanto que as outras cidades não puderam ser definidas.

Porém, o único indício dessa possibilidade, é o fato da história deste homem ter sido narrada no meio de uma lista genealógica. Mas como não há ligação entre os versos anteriores ou posteriores, sua participação na mesma, fica apenas subentendida.

Outro indício é encontrado em I Cr 2.55 onde é mencionado que os filhos dos escribas moravam numa localidade chamada Jabes (mesma grafia do nome do personagem em estudo, no original). Pode-se conjecturar que no ampliar de seus territórios, após sua prece, foi criada uma cidade. Porém, fora o fato desta localidade se encontrar em Judá, nada mais se sabe a respeito da mesma. Podendo-se apenas dizer com certeza que Jabes viveu no território de Judá, possivelmente na região Norte.

Quanto à datação, é quase que de comum acordo que o livro de Crônicas foi escrito entre os anos 450 e 400 a.C. Em relação à história narrada na perícope em estudo, Champlin (2000, p. 1578) diz pertencer ao ano de 1.444 a.C. Porém, ele não dá evidência alguma de como chegou a essa informação. Desta forma, a única conclusão cabível é que o período em que a história ocorreu deve ficar entre a época dos juízes e a monarquia.

No próximo artigo vamos continuar a busca por uma interpretação profunda da Oração de Jabes. Vamos investigar o contexto socio-cultural, fazer a análise semântica, a comparação entre versões e as impressões teológicas a respeito da perícopes analisada. Até lá!