INTRODUÇÃO

Precisa ser sábio para falar de sabedoria. O livro de Jó, como parte da literatura bíblica sapiencial, é repleto de diálogos de sabedoria. Tais diálogos seriam os que ocorrem entre Deus e Satanás, os quatro amigos e Jó, e também, em menor escala, entre Jó e sua mulher. Apesar de ser o menor diálogo do livro e um dos menores das Escrituras, pois se resume a uma curta sentença, a conversa entre Jó e sua mulher é repleta de sabedoria, ou falta dela.

A mulher de Jó foi, e em algumas situações ainda tem sido, muito injustiçada ao longo da história, não pela oração proferida, mas pelo verbo usado ao construir sua fala, a saber, amaldiçoa.

Não era sinal de sabedoria, mesmo na época patriarcal, mandar alguém amaldiçoar a Deus. Entretanto, vem a questão: será que ela de fato o aconselhou com tremenda falta de sabedoria? Os intérpretes e tradutores são praticamente unânimes em concordar com esta assertiva, se for considerado o termo que no geral as traduções bíblicas apresentam, ou seja, ‘amaldiçoa’.

Isso mostra que é necessário lançar um pouco de luz sobre o tema, olhando sob outra ótica – o contexto imediato. Apesar da praticamente unanimidade quanto à condenação da atitude da até então inominada esposa de Jó, alguns fatores devem ser levados em consideração para que se possa ao menos tentar lançar luz sobre o episódio fatídico que a condena e então restabelecer a justiça quanto àquela mulher.

Embora haja uma visão quase geral de que a mulher não desempenhasse um papel reconhecido em Israel no campo da sabedoria, pelo menos não nos moldes da sociedade atual, certamente ela desempenhava um papel importante no cuidado do lar e na educação dos filhos, principalmente em se tratando da mulher daquele homem cheio de bens, funcionários, riquezas e sabedoria.

Deus tirou praticamente tudo de Jó, mas deixou-lhe a esposa, para que o auxiliasse a suportar todo o sofrimento que viria em razão dos ataques de Satanás. Jó não sucumbiu justamente porque sua sábia esposa estava ao seu lado do começo ao fim, tendo seu papel reconhecido por ele e por Deus na conclusão da obra literária. Sozinho, ele não aguentaria! Ainda que o texto do livro de Jó tenha sido produzido em linguagem patriarcal, no qual a concepção que se tem é que a mulher não tem espaço para falar ou agir, a mulher de Jó dirige-lhe a palavra num momento de grande dor (de ambos).

O texto sagrado registra somente uma fala desta mulher, seguida de uma dura repreensão de seu marido. Nesse aspecto, é preciso lembrar-se que Jó é um livro que mostra a conversa entre sábios em forma de linguagem poética. Conversar faz parte da sabedoria. “A troca de experiências é fonte da sabedoria e gera o diálogo quando verbalizada. Sem dúvida, o diálogo entre sábios enriquece os interlocutores”.3 Jó e sua esposa, como se verá, sairão bem enriquecidos depois desta conversa conjugal.

Embora a literatura seja poética, o diálogo inicial descrito nos dois primeiros capítulos está em forma de narrativa, da mesma maneira que o final surpreendente do livro.4 É justamente nesta parte inicial da narrativa que aparece a curta conversa de Jó com sua esposa; na verdade, dela para com ele, já que é ela quem toma a iniciativa de quebrar o silêncio do sofrimento de ambos. Esta conversa da mulher com Jó também não poderia significar um diálogo entre sábios, como o restante do livro vai mostrar? Ou será que ela só agiu de forma impensada, emotiva e com muita falta de fé?

Para que as considerações contidas no presente trabalho sejam verdadeiras, deve-se partir de um pressuposto fundamental. No único e curto diálogo ocorrido entre marido e mulher, entre Jó e sua esposa, se ela o aconselhou a amaldiçoar a Deus, ficou clara a sua falta de fé e de sabedoria no manejo das palavras. Por outro lado, se ela disse a seu marido para abençoar a Deus e depois morrer, aí tudo faria uma profunda diferença, pois tornaria (e é bem) possível que ela também fosse uma mulher sábia, entre os demais sábios que participavam daquele diálogo.

1 – O PERSONAGEM JÓ E AS SUAS PERDAS

O nome Jó, a partir do texto hebraico, significa ‘ser hostilizado’, o que bem condiz com a história deste personagem, ou seja, foi isso que aconteceu com o protagonista no diálogo que é descrito no texto.

O próprio texto de Jó 1.1 identifica-o como oriundo de um local chamado Uz, e não de um local fictício. O texto citado também o identifica como um homem íntegro, reto e que temia a Deus. Além disso, como um patriarca muito rico, que chefiava sua família e ainda desempenhava o papel de sacerdote.

Jó foi um homem que de fato perdeu muita coisa. Na verdade, ele perdeu tudo, absolutamente tudo que possuía.5 Ele foi degradado em vários aspectos, ou seja, material, social, físico e emocional.

Não passa despercebido que Jó não era solteiro nem muito menos vivia sozinho. Ele era casado, até então com uma boa esposa, pois teve dez filhos com ela, possuiu muitos bens e em nenhum momento sua integridade como dona de casa, ou em outro papel e função, foi questionada.

Se Jó perdeu tudo, ela também perdeu. Se Jó sofreu pelas perdas que teve, ela também sofreu. Cada um a seu modo, mas ambos sofreram absurdamente por aquilo que perderam, afinal de contas esta é a ideia do livro.

Considerando que todos os homens e mulheres conhecem a experiência do sofrimento, o livro tem um apelo universal nesse aspecto.6 Jó perdeu tudo, menos a esposa, que continuou ao seu lado. Percebe-se que Jó não suportava mais a vida que estava levando, e que esta mulher também não aguentava mais viver do jeito que estava: pobre, sem filhos e ainda mais com uma agravante: ela estava vendo seu marido sofrer e definhar a cada dia.7

Parece que o fundamento da vida da esposa de Jó era a piedade e a prosperidade do marido. Jó tinha um alicerce forte; a esposa, não. Naturalmente, as tristezas dela eram extremas. É difícil um ser humano se identificar com a sua perda.8

A primeira coisa que Jó perdeu foram seus animais. Uns foram roubados e outros mortos por fogo que caiu do céu. Assim, Jó perdeu simplesmente todos os milhares de animais que possuía.

Ele não pode fazer nada sobre isso, ficou passivo diante das trágicas notícias recebidas. É bem provável que sua esposa estava ao seu lado, ouvindo as mesmas coisas que ele ouviu e vendo as reações de seu marido. Logo depois, sem dar tempo de tomar um fôlego – é o que evidenciam os versículos 15, 16, 17 e 18 do capítulo 1 – veio a notícia da perda de todos os filhos de uma única vez. A única coisa que Jó pôde fazer foi cair de joelhos e adorar a Deus, orando.

Onde estava sua esposa quando as notícias chegaram? Imagina-se que estava ao seu lado, sofrendo com ele, afinal de contas os filhos também eram dela. Jó aceitou a perda passivamente, não pôde fazer nada e ela viu aquela reação. Jó não lutou contra nada disso, pois o poder era de Deus e ele reconheceu prontamente isso, embora Jó também seja descrito por alguns autores9 como um homem queixoso ou reclamão.

Para alguns, ele é um personagem que se queixa de suas dores e sofrimentos na parte escrita em forma poética. Por isso, ele também é considerado o protótipo do homem rebelde, mas a verdade é que ele se entregou à soberania de Deus.

2 – A TRÁGICA DOENÇA DE JÓ E A COMPANHIA DE SUA ESPOSA

Conforme evidenciado no ponto anterior, o que ainda restava para Jó era a saúde e ele também a perdeu. O inimigo feriu Jó com feridas da sola dos pés até o alto da cabeça – é o que está descrito no capítulo 2, do livro que leva seu nome Jó. Que quadro terrível devia ser aquele. Devia coçar e doer muito.

Ele usava cinzas como alento e se raspava com caco. Se as feridas estavam espalhadas por todo o seu corpo, certamente suas costas estavam repletas de feridas. Quem as limpava, já que fisicamente era impossível a Jó alcançar aquelas partes de seu corpo? Certamente a sua esposa. Sempre é bom lembrar que Jó não sofria somente com feridas, mas com vermes cobrindo seu corpo e o consumindo vivo. Por isso, ele precisava dos cuidados de alguém íntimo ao seu lado.

Possivelmente, sua esposa estava bem ao seu lado. Mais à frente, Jó mesmo vai declarar como se sentia quanto ao seu hálito afirmando que: “O meu hálito é intolerável para a minha mulher”.10 Esta afirmação só faz sentido, se ela estivesse junto a ele, sentindo os odores putrefatos que vinham não só de suas feridas, como também de sua boca.

O homem apresentava um quadro de um verdadeiro morto vivo. Era pele e osso, estava cheio de muitas feridas, além de estar emocionalmente acabado. Diante desse quadro dramático, vê-se que só faltava uma coisa para Jó, ou seja, morrer.

Em 1966, alguns pesquisadores médicos identificaram uma nova doença, que de nova não tinha nada, pois era bem antiga. Deram-lhe o nome de hiperimunoglobulinemia E, ou simplesmente Síndrome de Jó, pelos sintomas correspondentes no caso do patriarca bíblico.

Até hoje esta doença não tem cura! A síndrome de Jó é uma rara condição de imunodeficiência, sem etiologia definida, caracterizada por infecções de repetição do trato respiratório superior e inferior e da pele associadas a níveis elevados de imunoglobulina E, eosinofilia e alterações faciais peculiares.11

Uma pessoa nestas condições certamente não é alguém que promova uma imagem vistosa de se ver, pois parece um morto vivo. Não deve produzir bons odores para se sentir, pois as feridas na carne necrosam e vermes passam a consumi-la, mesmo com seu hospedeiro ainda vivo.12

Um indivíduo nessas condições não é capaz de produzir sons e falas agradáveis, mas tão somente choros, resmungos e gemidos intermináveis. Várias passagens do livro vão mostrar os lamentos de Jó, inclusive evidenciando que ele ficou irreconhecível, muito magro, com dores terríveis, coberto por feridas, não conseguia dormir, sofria com a febre e pesadelos, tinha mau hálito, tinha crises de depressão e choro e sentia os olhos embaçados.13

Por outro lado, bem pertinho de Jó certamente estava sua esposa. Ela sequer tinha outra opção, afinal de contas para onde iria? De quem ela cuidaria? Só lhe restava seu moribundo marido, que estava dependente integralmente dos cuidados de terceiros, no caso, dela mesma. Varela chega a defender que esta pobre e sofrida mulher tenha desenvolvido uma forma de estresse pós-traumático.14

Para desenvolver este tipo de doença, não basta ser exposto a uma situação de risco de vida, faz-se ainda necessário ter reagido a ela com “intenso medo, impotência ou horror”.15 Não parece ser o caso da mulher de Jó, pois, embora estivesse sofrendo com as perdas, alguém precisava estar firme e de pé para, pelo menos, cuidar daquele homem. A única opção era ela mesma. Ao longo da história, mulheres têm provado tirar esta força de seu interior e cuidar de entes queridos que necessitam de cuidados especiais. É uma bela capacidade feminina.

Nota-se que ela não sofreu nenhuma forma de violência contra si, apenas experimentou a perda e assistia ao sofrimento físico e emocional de seu marido. A mulher de Jó deve ter deixado de lado seu intenso sofrimento emocional e reunido forças para cuidar de seu marido. Esta força interior das mulheres, em momentos de calamidade e sofrimento, é até hoje um mistério para a ciência explicar.

Mas o que vem intrigando os pesquisadores é que a grande maioria das pessoas expostas a eventos traumáticos catastróficos não desenvolve TEPT, sugerindo que a resistência emocional média das pessoas é elevada. Assim, por exemplo, 91% das mulheres americanas envolvidas em acidentes não apresentam esta síndrome. Percebe-se que fatores individuais biopsicossociais podem fazer com que uma pessoa desenvolva TEPT e outra não.16

Mesmo acometido daquela terrível doença, Jó não morria. Isso contrariava todas as expectativas. Era muito sofrimento, para ser suportado por ele e por aqueles que presenciavam aquelas cenas de horror. Sua mulher ainda se mantinha de pé.

Ela devia ser o ponto de equilíbrio do lar, de forma que, se ela caísse, tudo cairia com ela. Ela não poderia se dar ao “luxo” de cair naquele transtorno, e supostamente não caiu, caso contrário o texto faria uma referência a isso como mais uma das perdas atribuídas a Jó. Interessante que Deus deu permissão a Satanás para tocar em tudo de Jó, menos na vida dele. E o inimigo, intrigantemente, não tocou na sua mulher.

O texto não explica por que, mas para alguns era pelo fato de sua mulher não prestar, não ser uma bênção para Jó, assim seria interessante mantê-la viva ao seu lado.17

A cena visível da doença de Jó era horrível e ele, aparentemente, já estava morto. Falta-lhe apenas fechar os olhos e se entregar. Seu estado físico demonstrava isso para quem quisesse ver. Seus amigos, ao virem visita-lo e depararem com aquela cena surreal, digna de filmes de terror em que aparecem figuras de zumbis, simplesmente não o reconhecem e, num ato de desespero pelo amigo, choram alto para todo mundo ouvir.

A propósito, quem poderia segurar o choro diante daquela imagem? Depois jogam cinzas sobre si e rasgam suas vestes em ato de humilhação. Era o terror da morte aparente do amigo.

Mesmo em épocas diferentes e, às vezes, de maneira nada semelhante, a princípio, em torno da morte é celebrada uma cerimônia, que marca solidariedade do indivíduo com sua espécie e comunidade. Por mais que se queira negar, a vida de um ser humano e sua morte não são apenas um destino individual. Trata-se ainda de um elo que se estende ao gênero humano. O momento da morte também nunca se mostra como um fenômeno neutro. Causa um mal-estar e parece uma desgraça.18

A cena se completa com eles sentando ao lado do moribundo Jó, sem pronunciarem nenhuma palavra durante sete dias e sete noites, pois viram que sua dor era muito grande.19 Tudo indicava que Jó já estava morto. Só faltava fechar os olhos, parar a respiração e então eles providenciariam o sepultamento digno que ele merecia.

Mas Jó, ao contrário do que fez ao saber da perda de seus animais e funcionários, e da morte de seus filhos, agora ele sai e luta firmemente pela vida. Jó insiste em viver reconhecendo que sua vida estava nas mãos de Deus. Isso ninguém conseguia entender. Era só se entregar e pôr um ponto final naquela dor de corpo e alma que sentia. Ao seu lado, tem alguém vendo a tudo aquilo. Um silêncio congelante passa a vigorar entre quatro antigos amigos, homens sábios, por uma semana inteira.

A única coisa que restou a Jó foi sua mulher, sua querida esposa, que com ele sofria. Talvez essa foi a única razão por ele lutar tanto por se manter vivo. Nada mais o prendia a este mundo. Não tinha mais nada, emocionalmente falando, a que se apegar. Se ele morresse, o que seria dela? Uma mulher viúva, sem filhos e sem patrimônio, certamente não teria um fim muito atraente. Jó sabia disso e possivelmente apegava-se à vida por ela, mesmo todo mundo esperando sua morte evidente e certa. Só lhe faltava isso.

Mas esta mulher chega aos ouvidos de seu esposo, e talvez tenha proferido algo semelhante a isso: Querido, abençoa a Deus e morre. Como quem diz: eu te libero de teu compromisso e cuidado para comigo, pode ir ao encontro de Deus. Mas ela não sabia que seu ato de amor condenava a si própria a um destino terrível e cruel. Isso Jó não poderia suportar, principalmente porque ela era a única coisa a que ele se apegava. Ou talvez de fato tenha dito para amaldiçoar a Deus e morrer, afinal de contas, na teologia de Jó, o mal era considerado fruto de algum pecado.20 E isso não tiraria a sabedoria dela.

Precisava de muita sabedoria para chegar neste ponto a que ela deve ter chegado. Liberar psicologicamente o marido para morrer, ou convencê-lo a se entregar, pelo menos na ótica dela. Morre Jó, eu ficarei bem! Mas ela não ficaria bem. Jó sabia disso e diz a ela que estava falando como uma doida, como uma pessoa tola que não sabe as consequências daquilo que está falando. Jó era um homem sábio, afinal de contas.

Morrer não é nem nunca foi fácil. Algumas noções escapam à ciência: beleza, compaixão, dor, e por que não a morte? As teorias científicas quase nada podem esclarecer a respeito delas. Jó estava praticamente numa UTI a céu aberto. Ali, ele precisa de cuidados humanos e de medicamentos, ainda que precários e adaptados.

Na prática médica, além de objetos concretos, como os medicamentos, há de se pensar no medicinal, que é tudo aquilo que serve para consolar os infortúnios da existência: atos, ações, remédios que fazem cessar males ou mesmo diminuir um sofrimento, levando-se sempre em conta as épocas e culturas. O medicinal evoca uma função, a de cuidar, e está presente tanto em quem trata como em quem é tratado.21

Jó pensava estar tratando de sua mulher, mantendo-se vivo. Ela pensava estar cuidando de Jó, liberando-o para morrer. Ambos enfrentavam o duro processo da morte, que aparentava ser inevitável, mas de maneiras diferentes. Jó não queria morrer; mesmo consciente desta realidade, ele afirma que não queria ter nascido, mas nunca que queria morrer.

Proteger sua esposa era um ato digno a ser feito por qualquer homem daquele período histórico, como ainda é nos dias de hoje. Agindo assim, Jó demonstrava mais uma vez sua profunda sabedoria e integridade para com Deus e para com as pessoas a sua volta. Era um homem justo e reto, desviava-se do mal e exatamente por isso ela o questiona: ainda manténs sua integridade? Diante dessa situação, o texto apresenta expressões que revelam o amor e dor presentes no coração tanto do próprio Jó como de sua esposa.

Na escala filogenética, o homem é o único animal que se sabe mortal. A consciência da morte faz parte das conquistas constitutivas dos homens. Já não é mais uma questão de instinto, e sim a aurora do pensamento humano, que se traduz por uma espécie de revolta contra a morte. A consciência da morte e o horror que ela provoca são marcas da humanidade.22

3 – UMA BIOGRAFIA DA MULHER DE JÓ E A SUA FALA EM JÓ 2.9

O famoso diálogo entre Jó e sua esposa está registrado nas Escrituras sagradas, em Jó 2.9, sendo traduzido da seguinte forma: Então, sua mulher lhe disse: Ainda reténs a tua sinceridade? Amaldiçoa a Deus e morre. O texto foi produzido originalmente em língua hebraica23 da forma como segue abaixo24:

Pelo comentário da esposa de Jó, que aparece no texto citado acima, sem dúvida alguma, a mulher de Jó tornou-se uma das mulheres mais detestadas de toda a Bíblia. A palavra que merece análise neste texto é bārak, que em hebraico é escrita da seguinte forma:

Por esta simples análise, poderia ser inferido que, na verdade, em Jó, a mulher dele precisamente não diz amaldiçoa e morre, mas abençoa e morre. Todavia, este argumento requer bem mais fundamentações do que simplesmente esta inferência, já que de fato o vocábulo bārak também propicia o significado amaldiçoar.27 O contexto pode ajudar a responder esta questão. O verso seguinte, em que consta a repreensão de Jó, chamando-a de doida, na qual interrompeu sua primeira e derradeira fala, pode ter sido um dos motivos dos intérpretes optarem por ‘amaldiçoa’ ao invés de ‘abençoa’. A questão é que, se eles estavam errados, cometeram uma enorme injustiça contra aquela mulher, injustiça que perdura até hoje.

Se Jó a repreendeu de fato, como tudo indica, tinha um bom motivo para isso, e aparentemente não era pejorativo. Interessante que, no capítulo anterior, quando Satanás coloca em dúvida a fidelidade de Jó, ele argumenta com Deus que ele era rico, saudável e possuidor de uma bela família, somente porque, segundo o acusador, Deus o cobre com bênçãos (bārak).28 Se for observado, a partir do hebraico, o termo que aparece no texto é bārak, ou seja, é a mesma palavra interpretada em sentido oposto quanto à fala da mulher de Jó.

Além disso, é preciso considerar que todos que se relacionam com os fatos narrados do terceiro capítulo em diante de Jó, inclusive o próprio personagem que empresta seu nome ao título do livro, serão repreendidos por Deus pela sua falta de sabedoria, mesmo eles achando que a tinham de sobra. Todos os personagens serão repreendidos, com exceção de dois. Estes dois não receberão a reprovação de Deus, exatamente porque é provável que, quanto a eles, não faltou sabedoria, como se imagina, antes, porém, sobrou.

Um deles é o quarto amigo de Jó e o mais novo dentre eles, Eliú, uma vez que este foi quem deu o melhor diagnóstico e a melhor resposta ao sofrimento de Jó.29 O outro personagem, quem mais poderia ser? Ela mesma – a mulher de Jó. Na narrativa de Jó, existem seis pessoas envolvidas na trama. Jó e os três amigos iniciais, embora sábios, erram em suas falas e são repreendidos no final. No final dos debates humanos, por duas vezes Jó precisou reconhecer que era homem, calar-se e ouvir a voz de Deus.30 Seus amigos, Elifaz, Bildade e Zofar, no derradeiro capítulo do livro, são perdoados somente depois da intercessão de Jó. Mas Eliú e a mulher de Jó, que também interagiram com ele na trama, não recebem qualquer repreensão.

O capítulo final do livro de Jó, quando ele novamente recebe as bênçãos, pode indicar que sua esposa poderia ser uma mulher virtuosa, nos mesmos moldes citados em outra literatura sapiencial – o livro de Provérbios no capítulo 31. Se assim o for, ela era a mulher mais valiosa do que as finas joias. Suas virtudes são muitas. O texto do livro de Jó mostra que seus filhos, no total de dez, eram abençoados por seu pai e sempre viviam juntos festejando. Isso aparenta que foram bem-criados e educados, tanto que amavam ficar juntos. Jó era um homem de muitas posses e certamente vivia ocupado, administrando seu extenso patrimônio.

O texto de Jó, capítulo 29, mostra que Jó não somente vivia ocupado, administrando seus bens, como ele mesmo testemunha, mas que ele também era visto por todos como um homem feliz, tanto que as pessoas vinham até ele para se aconselhar. Seus filhos não lhe deviam dar qualquer problema ou desgosto, mas, ainda assim, ele os santificava nas madrugadas, pela simples suposição de que talvez eles, em meio à celebração das festas e movidos de muita alegria, possam ter pecado contra Deus.

Mas quem educou aqueles sete meninos e três meninas para serem assim, bons filhos? Não se pode esquecer de Jó, mas certamente ela, sua sábia mulher, esteve ao seu lado, auxiliando nessa tarefa, pois, como dito acima, as mulheres também eram responsáveis por essa tarefa. Além disso, Jó não devia ter muito tempo para isso.

Ela também cuidou de seu esposo, durante todo o período de agudo sofrimento. É o que mostra o capítulo 2 do livro de Jó. Ela passou seu luto ao lado do marido, e quando a doença lhe acometeu, ela abriu mão de seu sofrimento particular para viver o dele. Cuidou dele como uma boa enfermeira. Ficou ao seu lado como uma boa psicóloga. Suportou suas dificuldades físicas e psicológicas como verdadeira esposa, constituída por Deus para ser uma ajudadora, como alguém que de fato estivesse ao lado dele.

Quando ela sentiu que estava impotente para ajudá-lo mais a minorar todo aquele sofrimento, ela não entrega os pontos, antes vem até ele e o aconselha a reconhecer que Deus estava querendo tirar-lhe a vida, bastando àquele homem entregar-se. Ela não discutiu com seu marido quando foi por ele repreendida, pois sabia que aquilo que ele dizia era verdade e, diante daquele argumento de que tudo pertence a Deus, ela se cala para não mais tocar no assunto. Se lhe faltasse sabedoria, certamente discutiria o assunto, tentando impor seu ponto de vista, mas não o fez.

Assim como o livro começa na forma literária de narrativa, da mesma forma assim também termina. Se começa com tragédia, termina com glória. Deus advertiu àqueles que deixaram a sabedoria divina de lado e se pronunciaram humanamente, corrigindo a cada um, depois de tratar com Jó nos quatro capítulos anteriores. Sua mulher só aparece no início e no fim do livro, mas não nos discursos poéticos no interior da obra. Nem precisaria, já que seu diálogo faz parte da moldura em prosa do livro em que no centro está o tema de Jó piedoso e Justo.31

Mas a sabedoria da mulher de Jó não foi rejeitada. Sequer foi repreendida por Deus. No último capítulo do livro, fica demonstrado que os repreendidos são citados um a um pelos seus nomes, os omitidos, não foram repreendidos. E se Deus não repreendeu, possivelmente é porque Ele aprovou sua atuação, ou seja, Deus pode ter reconhecido sua sabedoria.

Eliú não aparece na repreensão, pois ele foi de fato um sábio com fé.

Todavia, a mulher de Jó aparece no último trecho do último capítulo do livro, e aparece de forma brilhante. Jó recebe tudo que perdeu em dobro. Quase tudo! Ele se recupera, volta a dormir com sua amada esposa, tem outros dez filhos com ela. Filhos com ela e não com outra mulher, uma vez que Jó não tinha um harém.32 Filhos são insubstituíveis; talvez por isso, bastava ter outros dez para reanimar o coração daquela família lutadora e sofredora. Os dez que morreram estavam morando com Deus, não precisa mais de luto. Agora eles tinham outros dez para criar e educar, mas agora vendo Deus face a face e não mais por ouvir dizer.

O detalhe fundamental e maravilhoso, que não pode passar despercebido e que corrige toda injustiça contra esta mulher, vem em seguida. O escritor do livro, devidamente inspirado por Deus, cita os sete filhos (homens) genericamente, mas nomeia as três filhas uma a uma, conforme o relato em Jó 42.14. Isso não era a prática mais comum em Israel – citar nomes das mulheres, principalmente no período patriarcal. Mas agora os nomes das três meninas são mencionados. Não foi simplesmente citado seus nomes, mas afirmado que elas eram lindas, mais belas que qualquer outra mulher em toda a terra. A quem elas puxaram? Não se pode ignorar a sábia mãe que possuíam. Outro hábito incomum em Israel acontece aqui, ou seja, Jó lhes dá herança entre seus irmãos, reconhecendo o valor da mulher exatamente no mesmo patamar dos homens.

Assim, fica claro que Jó estava reconhecendo a esposa maravilhosa e sábia que Deus lhe deu, e fazendo de tudo para que suas três filhas fossem iguais a sua mãe. Deus, ao inspirar este texto, está corrigindo uma injustiça que sempre recaiu sobre esta mulher, e mostrando o quão valorosa ela era. Se ela de fato o aconselhou o marido a amaldiçoar Deus, talvez a repreensão sábia do marido, logo no teor da conversa, tenha servido para que ela se arrependesse de sua fala, já que ela não aparece mais no texto.

A história desta mulher está atrelada à de seu marido, mas isto não a ofusca, antes, a enaltece. Jó foi um homem de caráter, conforme diz o refrão da bela canção intitulada Coração de Jó: “Jó não blasfemou no dia em que tudo virou cinzas. Eu preciso ser assim, Senhor, me ensina. Toca Senhor, no meu caráter, me dá o coração de Jó. Que não blasfema, que te adora mesmo se tudo virar pó. Toca Senhor, no meu caráter, me dá o coração de Jó, em meio ao tudo, em meio ao nada. Quero te adorar, Senhor, Tu és meu melhor”.33

Em grande parte, Jó só foi assim porque tinha alguém precioso do seu lado. Mulher virtuosa, quem a achará? Jó achou! Seu papel foi mostrar a ele que o mundo foi feito por Deus, é a propriedade de Deus e é bom.34

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Esta discussão só foi possível porque as versões em português estão praticamente iguais quanto à tradução da palavra bārak. É provável que estejam corretas quanto a isso, no entanto, e se não estiverem? Na versão Almeida Revista e Atualizada, a palavra traduzida é “Blasfema a Deus” as demais é “Amaldiçoa”. Também na versão em inglês a palavra “curse” tem o mesmo significado de amaldiçoar.

Seja como for, uma mulher da estatura da esposa de Jó não pronunciaria uma maldição contra Deus sem que ficasse impune, mesmo que estivesse sob influência de um estado de estresse pós-traumático, até porque, se assim o fosse, ela não teria condições de cuidar nem de si mesma, e muito menos de seu marido, seria mais uma enferma na cena. Quando Jó fala em não rejeitar a desgraça que vem de Deus, no momento que a repreendeu, possivelmente esteja consciente, como sábio que era, de que as doenças, assim como as perdas que tivera, estavam sob a soberania de Deus, que, da mesma forma como dá algo a uma pessoa, também o retira, segundo Sua vontade. Ele não poderia entregar-se a morte, até porque se Deus quisesse matá-lo, ou já teria feito, ou faria a qualquer momento num estalar de dedos.

Desta forma, poderia ser entendido, no texto hebraico original, que a mulher de Jó de fato aconselhou seu marido a abençoar a Deus, reconhecendo que Ele queria tirar-lhe a vida como última providência, mais do que interpretar que ela, num ato de fragilidade emocional e loucura, disse ao seu marido para amaldiçoar a Deus e morrer. A resposta para esta dúvida foi achada no contexto que envolve todo o sofrimento de Jó, a partir de suas perdas até a conclusão maravilhosa do livro, quando Deus o cobre de bênçãos depois da sua profunda provação. Mas, ainda que “amaldiçoa” seja a tradução correta de sua afirmação, isso não tira o mérito da sabedoria mostrada por esta mulher no decorrer do livro, pois o contexto da obra e o reconhecimento final por ela recebido de Jó e de Deus deixam bem claro que foi uma esposa sábia e que aceitou a repreensão com submissão.

A história de Jó e de sua mulher deixam bem claras algumas verdades espirituais. A primeira é que coisas ruins acontecem com as pessoas boas, sem uma explicação óbvia. Outra verdade demonstrada no texto é que vale a pena ser fiel a Deus, mesmo diante da dor e do sofrimento. Uma terceira verdade é que, quando as pessoas se calam, Deus responde para elas e para aqueles que estão a sua volta de forma justa. Por fim, a verdade mais importante é que Deus sempre será justo e perfeito em tudo que fizer. A esposa de Jó o ajudou no seu sofrimento, pelo menos a suportar sua perda, auxiliar na sua procura e participar da sua descoberta de que o mundo sempre foi a obra de Deus, e por ser assim, ele é não só bom, como também maravilhoso. Pode haver muita sabedoria nas poucas palavras da mulher de Jó.