RESUMO

A pregação de Jesus era fundamentalmente o anúncio do Reino de Deus. Suas exortações, parábolas, profecias e mesmo as bem-aventuranças, eram centradas e direcionadas no Reino de Deus, buscando explicá-lo, anunciá-lo ou mesmo  realizá-lo  no  mundo.  Cabe  aos  cristãos,  uma  vez  que  se  declaram  seguidores  e  imitadores  de  Jesus,  buscarem compreender o Reino na pregação de Jesus, a fim de que seu ministério tenha continuidade em plena integridade, de modo que a igreja seja de fato o corpo de Jesus Cristo no  mundo.  A  pregação  cristã,  portanto,  deve  incorporar  a pregação de Jesus do Reino de Deus.

INTRODUÇÃO

Diversos aspectos da pregação de Jesus não possuem consenso  nenhum  entre  os  teólogos.  O  anúncio  de  Jesus  sobre  si  mesmo,  por  exemplo,  é  um  problema  amplamente  discutido  e  ainda em aberto. Ao mesmo tempo que alguns autores afirmam categoricamente  que  Jesus  não  pregava  a  si  mesmo,  outros ressaltam a autoafirmação de Jesus. Assim,  enquanto  Edward Schillebeeckx, por exemplo, afirma que “Jesus não se anunciava a si mesmo”, o judeu Jacob Neusner chega a afirmar que Jesus, em  sua  pregação,  não  omitiu  nada  do  judaísmo,  porém  acrescentou uma coisa: “a si mesmo”. O questionamento de Jesus enquanto objeto de seu próprio ensino se deu especialmente pelo liberalismo no final do século XIX e início do século XX, de tal forma que J. P. Sheraton em um artigo de 1903, em que defendia o ensino de Jesus sobre si mesmo, afirmou que este seria o tema teológico mais relevante daquele momento: “o ensino de Cristo a respeito de si mesmo é, eu creio que posso afirmar sem exagero, o assunto que hoje coloca-se acima de todos os outros na Teologia”. De fato, a ideia de que Jesus se limitou a anunciar o Pai e seu Reino, desenvolveu-se mediante a chamada “busca do Jesus histórico”, e alcançou em Rudolf Bultmann sua culminância, na negação do próprio Jesus histórico frente ao Cristo da fé.

Mas  será  que  a  pregação  de  Jesus  deve  alterar  em  algo a  nossa  pregação?  Segundo  Bultmann, não.  Para  este  autor,  “a  pregação de Jesus está entre os pressupostos da teologia do NT e  não  constitui  uma  parte  dela”,  de  tal  modo  que  o  kerygma cristão não se fundamenta tanto nas palavras e na proclamação de  Jesus  nem  no  Jesus  histórico,  mas  no  Cristo  da  fé,  uma  vez que “não o Jesus histórico, e sim Jesus Cristo, o proclamado, é o Senhor”. Ora, se diferente de Bultmann, compreendemos que o Jesus histórico e o Cristo da fé são um e o mesmo, temos necessariamente como consequência uma relação com o que Jesus pregava.  O  que  Jesus  pregava  e  ensinava  torna-se  não  apenas um referencial para a pregação cristã de todos os tempos como um  verdadeiro  modelo.  Mas  qual  era  o  centro  da  pregação  de Jesus?  Nisso,  há  um  consenso:  a  pregação  de  Jesus  se  centrou no Reino de Deus.

A pregação de Jesus não apenas proclamava o Reino, mas tinha um verdadeiro caráter “reinocêntrico”, uma vez que é a partir do Reino de Deus que se compreende tanto o sentido quanto o significado da sua pregação. Como bem indicou Norman Perrin, “todos os outros aspectos de sua mensagem e do seu ministério servem a uma função relativa a essa proclamação e  derivam  dela  seu  sentido”. Para  se  compreender  a  ideia  de  Jesus sobre o Reino de Deus e, consequentemente, sua pregação, faz-se necessário identificar primeiramente o significado do Reino de Deus no Antigo Testamento e no judaísmo de seu tempo.

1. O reino de Deus até a pregação de Jesus

Quando Jesus proclama o Reino de Deus, anuncia uma realidade já conhecida e mesmo aguardada pelos judeus de seu tempo. Ao  mesmo  tempo,  porém,  apresenta  este  de  forma  diferenciada, explicando  didaticamente,  por  meio  de  parábolas,  o  que  é  exatamente o Reino de Deus. Assim, seja para indicar a concepção usual  do judaísmo no seu tempo, seja para indicar se Jesus inovou de alguma forma em seu uso do termo, é necessário um estudo da ideia de Reino de Deus do Antigo Testamento até Jesus.

1.1. O Reino de Deus no Antigo Testamento

São poucos os casos no Antigo Testamento em que a palavra מַ  כ  ֽלּ ת (malkut) “denota um reino no sentido espacial, um território; quase sempre quer dizer o poder de reinar, a autoridade, o poder dum rei”. Assim, pode-se perceber em diversos textos o uso do termo malkut enquanto um poder ou mesmo o tempo de regência de uma determinada pessoa. Mesmo assim, porém, há textos  valiosos  que  relacionam  o  termo  a  Deus,  especialmente nos Salmos. Se o uso de “Reino de Deus” é raro, a ideia de Deus como rei (melek), com seu trono e governando as nações, é recorrente no Antigo Testamento, especialmente nos Salmos, que “estão  repletos  desses  temas”: “Deus reina [מלַךְ]  sobre  as  nações; Deus senta em seu santo trono [ִכּסּ]א ֵ” (Sl 47.8); “O Senhor vai reinar [ְִמי לֹך] para sempre e sempre” (Êx 15.18).

Segundo  Victor  Maag,  o  Reino  de  Deus  é  construído  no Antigo  Testamento  mediante  um  movimento  teológico,  resultante de uma influência cananeia e da preservação do aspecto nômade da religião israelita original. Assim, segundo este autor, a atribuição de Deus como rei é provavelmente “resultado do encontro de Javé com o El cananeu”. A primeiro momento, segundo a teoria, Deus era entendido como rei no sentido de ser um “rei divino”, um deus sobre os demais do panteão. É neste sentido que o autor percebe vários textos (Js 5.13-14; I Rs 22.19; Sl 82.1; Jó 2.6ss), mas tal ideia de um senhor sobre outros deuses “só foi adotada parcialmente”. A particularidade da religião israelita conduziu à constituição da imagem de “um Deus migrante”, cujo trono – que não está assentado em uma cidade ou território não pode ser derrubado. Este movimento do desenvolvimento da ideia do reino/reinado de Deus também fez com que Israel se tornasse  “o  único  povo  em  todo  o  âmbito  semita  a  estabelecer uma conexão séria entre o Reino de Deus e a expectativa de uma futura mudança global de todas as condições da vida terrestre”, ou seja, “somente em Israel o domínio real de Deus assume um aspecto evidentemente escatológico”.

Independentemente  da  validade  da  teoria  de  Maag,  seu  estudo  aponta  um  elemento  essencial  no  conceito  veterotestamentário: o Reino de Deus não está preso a um lugar. Não se trata, portanto, de um “Reino” em sentido moderno – um território o qual se comanda, ou mesmo um conjunto de súditos. O malkutYahweh é antes um “reinado”, enquanto o poder e a autoridade do  rei,  ao  mesmo  tempo  que  a  relação  direta  entre  o  rei  e  seu súdito.  Tal  como  bem  apontou  Geza  Vermes,  “o  Reino  de  Deus vincula-se  antes  com  a  própria  soberania  divina  do  que  com  o Reino governado por Deus”. Resumindo, compreende-se que a ideia moderna de “Reino”, acaba por perder “a chave do sentido dessa  verdade  bíblica  antiga”,  uma  vez  que,  de  modo  muito diferente da ideia ocidental de “Reino”, “para a mentalidade hebraica é, acima de tudo, uma relação pessoal entre um rei e seu povo que está em questão”.

1.2. O Reino de Deus no judaísmo do tempo de Jesus

Segundo Joachim Jeremias, a literatura do judaísmo antigo apresenta poucos casos do uso do termo “Reino (de Deus)”, de tal forma que quando se compara aos sinóticos, se percebe que “a frequência dos testemunhos nos evangelhos sinóticos é extraordinária”. Acontece, porém, que os usos do conceito de Reino de Deus no judaísmo do Segundo Templo apesar de raros, possuem  grande  importância,  sendo  relevantes  não  somente  para a compreensão das ideias escatológicas do período, como para a  compreensão  da  aplicação  feita  por  Jesus.  Também  as  ideias proféticas  e  escatológicas  que  não  trazem  necessariamente  o termo,  mas  constroem  a  base  sobre  a  qual  este  será  colocado, são relevantes.

Certamente  os  livros  apócrifos  e  pseudoepígrafos  estão  entre as principais fontes para o estudo do pensamento judaico no período do Novo Testamento, apesar da dificuldade existente em se definir até que ponto estes livros transmitem as ideias mais aceitas pelo povo judaico naquele contexto. Nestes livros, percebe-se claramente o Reino de Deus enquanto uma realidade escatológica  e  apocalíptica,  a  exemplo  do  capítulo  23  do  Livro dos Jubileus, onde está clara a ideia da transformação mediante a Lei do povo de Deus e seu ambiente, em um estado de bênção que deverá durar para sempre. No livro de 1 Enoque, o Reino de Deus está ligado à ideia da derrocada de Azazel, senhor dos demônios. De fato a ideia do Reino de Deus soberano e vitorioso sobre o Reino das forças do mal está presente também na Comunidade de Qumran, conforme se percebe na Regra da Comunidade e na Regra da Guerra, dos Manuscritos do Mar Morto, segundo  os  quais  o  Reino  de  Deus  haveria  de  ser  estabelecido após a vitória do Príncipe das Luzes sobre o Anjo das Trevas.

1.3. O Reino na pregação de Jesus

O uso de Jesus da expressão “Reino de Deus” (ou, “Reino dos céus”), porém, é peculiar, sendo indicado por Joachim Jeremias como algo sui generis, de modo que “não encontra nenhum paralelo na literatura do [seu] meio ambiente”. Se de fato Jesus empregou o termo com total originalidade, é um problema, especialmente quando se compreende que “no campo da religião, originalidade consiste o mais das vezes em dar um novo direcionamento a ideias em si mesmo muito antigas”. Qual foi, então, o direcionamento da ideia de Reino de Deus da parte de Jesus? Ele  não  apenas  empregou  o  conceito  inúmeras  vezes  em  sua pregação, como também se valeu de parábolas e ditos apocalípticos para explicá-lo e proclamá-lo, além de expressar-se me diante expressões completamente sem paralelos, que abrem o conceito  apocalíptico  de  Reino  de  Deus  para  uma  perspectiva de  caráter  evangelístico,  transformando  “secundariamente  em linguagem de missão”.

Qualquer leitor atento notará facilmente nos evangelhos (sinóticos) que, “para Jesus, Deus era Rei e Pai: implicitamente Rei e explicitamente Pai”. É por “Pai” (abba, em aramaico) que Jesus  chama  a  Deus;  dessa  forma  ele  se  dirige  ao  grande  Rei, cujo Reino é proclamado, mas a quem Jesus não chama de “rei”, senão em raras analogias (em parábolas). Deus não é chamado de “rei” pois não precisa ser entronizado. Deus já é rei – já está entronizado  no  céu  (cf.  Mt  5.34).  A  proclamação  do  Reino  de  Deus,  portanto,  não  é  um  anúncio  da  coroação  de  Deus  como rei de Israel, mas a vinda de um reinado já existente, o exercício de  um  rei  já  constituído,  agora  em  uma  nova  dimensão.  É  assim que se compreende a segunda petição do Pai Nosso: “Venha o  teu  reino;  seja  feita  a  tua  vontade,  assim  na  terra  como  no céu” (Mt 6.10). Jesus, portanto, vale-se da ideia de um “reinado de Deus”, um poder e influência de um rei divino, cuja ação já está presente no céu, e deve agora atingir a terra. Apesar desta proclamação de Jesus ter um sentido claramente escatológico, é antes expressa de uma forma tão material, viva e existencial, que não deve ser entendida como uma realidade abstrata ou puramente espiritual.

A linguagem a qual Jesus se vale para se referir ao Reino é  bastante  peculiar.  Não  trata  das  coisas  de  Deus  “em  termos filosóficos ou teológicos, mas numa linguagem existencial”. Em sua pregação, Jesus vale-se das imagens da Galileia rural na qual estava inserido: o reino de Deus é comparado a um campo (Mt 13.24-30; Mc 4.3-9,26-29; Lc 8.4-8), a uma vinha cujos trabalhadores são respeitados e remunerados de forma justa, a uma semente de mostarda que se torna uma grande árvore (Mt 13.31-32; Mc 4.30-32; Lc 13.18-19), assim como é associado aos elementos da pescaria – prática bem conhecida pelos seus discípulos: “O Reino dos céus é ainda semelhante a uma rede que, lançada ao mar, recolhe peixes de toda espécie” (Mt 13.47). O Reino, portanto, não é  imaginado  à  maneira  dos  reinos  e  impérios  humanos,  mas  é comparado de forma bastante simples aos elementos presentes na  vida  diária  de  Jesus  e  seus  vizinhos.  Esta  diferença  foi  bem indicada por Geza Vermes: “No reino tal como por ele concebido, não há tronos, cortesãos, coros celestiais, hostes guerreiras com carros,  espadas  ou  lanças.  Encontramos  em  lugar  disso  as  paisagens, os instrumentos de trabalho e os habitantes do campo galileu e a sua vida à beira do lago”.

2. O Evangelho do reino

Não é surpresa, portanto, que “o tema central da pregação pública de Jesus foi a soberania real de Deus”, o que é evidente pela  frequência  do  uso  de  Jesus  do  conceito  de  reino  de  Deus  nos textos sinóticos, assim como pela forma com que este ocupa uma  posição  de  destaque  em  suas  palavras.  O  Reino  de  Deus está presente, por exemplo, nas três formas dos evangelistas sinóticos resumirem a mensagem de Jesus: Marcos, no começo de seu Evangelho, resume a proclamação de Jesus pelo anúncio da proximidade do Reino e a convocação ao arrependimento: “O Reino de Deus está próximo. Arrependam-se e creiam nas boas novas!”  (Mc  1.15).  Mateus  vale-se  da  expressão  κηρύσσειν τὸ εὐαγγέλιον τῆς βασιλείας (keryssein tò evaggélion tês basileías), “anunciar  o  evangelho  do  Reino”  (Mt  4.23;  9.35).  Lucas  fala  de εὐαγγελίζεσθαι τὴς βασιλείαν (evaggelítzesthai  tèn  basileían), “anunciar a boa nova do reino” (Lc 4.43; 8.1). O Reino de Deus estava presente nos resumos da mensagem de Jesus justamente por  ser  praticamente  a  própria  mensagem  deste.  O  Pai  Nosso, já mencionado anteriormente, também expressa a centralidade do Reino na pregação de Jesus, uma vez que enquanto pregação da  comunidade  de  Jesus,  é  um  direcionamento  para  a  prática  e  mensagem de seus discípulos.

O  evangelho  do  Reino,  a  proclamação  da  vinda  deste, porém,  se  dava  tanto  no  anúncio  do  Reino  enquanto  realidade futura, quanto em uma cobrança ética presente, seguindo a afirmação da presença atual do mesmo Reino. O Reino de Deus, tal como bem apontou Ladd, é indicado ao longo do Novo Testamento mediante uma “complexidade de ensinamentos”. Não foi  à  toa  que  surgiram  tantas  e  tão  variadas  interpretações  e perspectivas escatológicas a partir da proclamação do Reino por Jesus: Albert Schweitzer indicou que Jesus anunciava a chegada do Reino para um futuro próximo, C. H. Dodd situou o Reino no tempo presente, Joachim Jeremias o colocou parte no presente e  parte  no  futuro,  e  assim  por  diante. Isso  se  dá  justamente porque no Novo Testamento o Reino é claramente proclamado para  o  futuro,  quando  Cristo  vier  em  glória  (cf.  Mt  25.34),  ao mesmo tempo que é apontado como uma realidade presente (cf. Rm 14.17) ou, ainda, um domínio no qual os seguidores de Cristo já entraram (cf. Cl 1.13). Trata-se, portanto, de um Reino futuro, um Reino presente, e um Reino presente e futuro, sem que com isto se refira a mais de um Reino: são três aspectos de uma e mesma realidade. O mesmo se pode perceber na pregação de Jesus, presente nos evangelhos. Como bem indicou Geza Vermes, nos equivocamos quando aplicamos conceitos temporais para a perspectiva  escatológica  de  Jesus. Quando interrogado pelos fariseus a respeito de quando viria o Reino de Deus, respondeu: “Não vem o Reino de Deus com visível aparência. Nem dirão: Ei-lo aqui! Ou: Lá está! Porque o Reino de Deus está dentro de vós” (Lc 17.20b-21). O Reino de Deus, portanto, é passado, presente e futuro, ao mesmo tempo que não é nenhum dos três: é uma realidade atemporal que age, que influencia, e que colocará um fim na realidade temporal. De todo modo, a linguagem temporal é  presente,  mesmo  que  não  na  natureza  do  Reino,  pelo  menos  em suas expressões.

2.1. O anúncio do Reino futuro

 

A indicação  futura  do  Reino  é  evidente  em  muitas  passagens: “venha  a  nós  o  teu  Reino”  (Mt  6.10);  “o  Reino  dos  céus  será semelhante…” (Mt 25.1); “está próximo o reino dos céus” (Mt 10.7);  “nem  todo  que  me  diz:  Senhor,  Senhor!  Entrará no  Reino dos  céus”  (Mt  7.21).  Fala-se  em  “entrar  no  Reino  de  Deus”,  “na vida”, “na alegria”, de modo que “palavras semelhantes perpassam  todos  os  evangelhos”. Na  Páscoa,  a  expressão  futura  do  reino é ainda mais marcante: enquanto estava comendo a Páscoa com seus discípulos, Jesus afirma: “vos digo que nunca mais a comerei, até que ela se cumpra no reino de Deus” (Lc 22.16); e tomando do cálice disse: “de agora em diante, não mais beberei do fruto da videira, até que venha o Reino de Deus” (Lc 22.18 e par.). Os discípulos interpretaram estas palavras como a parusia, a  segunda  vinda  de  Jesus  Cristo,  aguardada  desde  o  início  do cristianismo,  portanto,  relacionada  com  o  pleno  cumprimento do  Reino  de  Deus.  Também  as  bem-aventuranças  expressam  o  caráter futuro do reino de Deus:

Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus.
Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.
Bem-aventurados  os  mansos,  porque  herdarão  a  terra.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos.
Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.
Bem-aventurados  os  pacificadores,  porque  serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados  os  perseguidos  por  causa  da  justiça, porque deles é o reino dos céus…
(Mt 5.3-10)

Reino de Deus que está próximo. Diante da promessa do Reino, somente este deve ocupar os discípulos: “Buscai, antes de tudo, o seu Reino, e estas coisas vos serão acrescentadas. Não temais, ó pequenino rebanho; porque vosso Pai se agradou em dar-vos o seu Reino” (Lc 12.31-32). A confiança, porém, deve ser expressa em uma entrega total, um desapego completo, em troca de um tesouro prometido, mas muito superior: “Vendei os vossos bens e  dai  esmola;  fazei  para  vós  outros  bolsas  que  não  desgastem, tesouro  inextinguível  nos  céus,  onde  não  chega  o  ladrão,  nem a traça consome” (Lc 12.33). Não se trata, no entanto, de uma barganha,  senão  de  uma  demonstração  de  que  o  coração  está  com Deus: “porque, onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” (Lc 12.34). Aquele que quiser entrar no reino de  Deus  deve  assumir  o  jugo  de  Jesus,  um  jugo  que  aparentemente  é  pesado,  mas  que  na  realidade  é  leve:  “Porque  o  meu jugo é suave, e o meu fardo é leve” (Mt 11.30). Não mais é cobrado o jugo da Lei, mas o jugo do amor, que implica na obediência a Deus, mediante o amor ao próximo. Cabe ao homem escolher hoje se dirigir ao futuro Reino de Deus, obedecendo e vivendo a justiça de Deus em sua vida.

2.2. A ética do Reino presente

O  Reino  de  Deus  anunciado  por  Jesus  possui  um  vínculo inseparável com a justiça, tal como apontou Karl Adam: “Na pregação  de  Jesus,  ‘o  Reino  dos  céus’  e  a  ‘justiça’  estão  tão  intimamente ligados que formam um só e idêntico ideal: ‘Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça’”. Assim, se compreende que os ensinamentos éticos de Jesus Cristo também fazem parte  de  sua  proclamação  do  Reino,  uma  vez  que  tais  ensinamentos visam a criação de uma ética da comunidade do Reino. O aspecto da justiça, não apenas proclamada, mas verdadeiramente cobrada por Jesus Cristo, evidencia justamente o aspecto presente do Reino de Deus.

A  pregação  de  Jesus  surge  como  continuação  e  cumprimento da pregação de João Batista, que é entendido pelos evangelhos como aquele que veio para anunciar o Cristo. A pregação de João Batista é centrada no arrependimento (Mt 3.1; Mc 1.4; Lc 3.3,8). Mesmo seu batismo é relacionado ao arrependimento, como método de remoção de pecados (cf. Mc 1.4). Jesus, assim como  João,  foi  um  pregador  do teshuvah, do  arrependimento,  assim como do Reino de Deus. Tal como apontou Günther Bornkamm, “o chamado de Jesus à conversão possui um horizonte inteiramente  novo  [pois]  Ele  se  faz  ouvir  em  face  do  Reino  de Deus que está para irromper”. Porém, o que distingue a pregação de Jesus da pregação de seu predecessor “é o fato de que Jesus anuncia a chegada do Reino convocando os seres humanos a  uma  alteração  total  em  seus  relacionamentos  e  forma  de  vida”. Jesus, portanto, estabelece uma nova forma de anúncio do Reino:  coloca-se  não  mais  somente  como  alguém  que  anuncia  apenas o reino vindouro, mas como aquele que inaugura o Reino de Deus. O chamado ao arrependimento está em conjunto com uma nova forma de vida, a vida segundo os padrões do Reino.

Junto às bem-aventuranças do Reino vindouro, os evangelistas Mateus (Mt 5-7) e Lucas (Lc 6.17ss) colocam o ensino de Jesus a respeito dos mandamentos. Mateus o faz de modo mais destacado que Lucas, colocando Jesus sobre o monte, anunciando a Lei como um novo Moisés. Tanto o Sermão da Motanha (Mt 5-7) quanto o Sermão da Planície (Lc 6.20-49)  partem das bem-aventuranças e apresentam a nova ética anunciada por Jesus. É evidente que esta ética é o requisito básico para a entrada efetiva no Reino de Deus: “Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no Reino dos céus” (Mt 5.20). Porém, também se apresenta como uma forma de realização do próprio Reino de Deus no presente. Assim, uma explicação interessante do ensino de Jesus do Reino presente foi o resumo de Joachim Jeremias:

É  como  se  Jesus  dissesse:  Quero  dar-vos,  por meio  de  alguns  exemplos, uma  ideia  da  vida  nova (…) Pessoalmente deveis ser sinais do Reino de Deus que vem, sinais de que alguma coisa aconteceu; vossa vida (…) deve testemunhar aos olhos do mundo a vinda do Reino. Em vossas vidas, (…) no reino de Deus, deve-se manifestar a vitória do Reino de Deus.

Após o ensino da ética do Reino, seja no Sermão da Montanha, ou no Sermão da Planície, Jesus realiza milagres. Assim, depois  de  anunciar  a  ética  do  Reino,  Jesus  realiza  a  obra  que manifesta o Reino de Deus de forma evidente: os milagres. Os milagres, tanto de cura quanto de expulsão de demônios, indicavam a chegada do Reino de Deus. Quando Jesus envia seus doze discípulos a pregarem, Lucas deixa claro que estes são enviados “para pregar o Reino de Deus e a curar os enfermos” (Lc 9.2). A cura estava diretamente associada à pregação do Reino, uma vez que era justamente a principal forma de evidenciar e proclamar que o reino havia chegado. Quando João Batista pergunta a Jesus “És tu aquele que havia de vir ou esperamos outro?”, Jesus lhe responde com seus milagres: “Ide e anunciai a João o que tendes visto e ouvido: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres anuncia-se o evangelho” (Lc 7.22). Os milagres são, portanto, a evidenciação da chegada do Reino esperado. Também a expulsão de demônios não somente estava entre as missões dos discípulos de Jesus (Mt 10.7-8; Mc 6.7), como era um sinal claro da  chegada  do  Reino:  “Mas,  se  eu  expulso  os  demônios  pelo  dedo de Deus, certamente, é chegado o Reino de Deus sobre vós” (Lc 11.20). Cabe aqui uma explicação sobre esse texto. Quando Jesus é acusado pelos judeus de agir pelo “poder de Belzebu, o maioral dos demônios” (cf. Mt 12.24; Mc 3.22; Lc 11.15), explica aos seus acusadores que um reino não pode estar dividido. Não age pelo reino de Satanás, mas se o combate, é porque age pelo poder de outro reino, que combate este: o Reino de Deus. Assim, tão importante quanto Jesus agir pelo “dedo de Deus” (Lucas) ou pelo “Espírito de Deus” (Mateus), é o que esta ação evidencia: “é chegado o Reino de Deus sobre vós” (Mt 12.28; Lc 11.20).

2.3. O Reino de Deus presente e futuro

O Reino de Deus é, portanto, tanto uma realidade futura quanto  uma  realidade  presente. De  certa  forma,  portanto,  o Reino “se expressa em diferentes estágios ao longo da história da redenção”, nunca tendo sido plenamente concretizado ou mesmo vislumbrado. O Reino de Deus é uma realidade que chama o  homem  à  sua  situação  existencial  presente.  No  encontro  do amanhã com o hoje, o homem é encarado e confrontado. Assim, a  proclamação “Arrependam-se, pois o Reino dos céus está próximo”,  faz  com  que  a  realidade  futura  anunciada  implique  em escolha no aqui e agora. O aspecto presente e futuro do Reino é  expresso  em  parábolas:  Jesus  relata  que  o  Reino  de  Deus  é como um grão de mostarda, que se torna uma planta grande o suficiente para os pássaros fazerem ninhos (Mc 4,30ss); ou ainda como o fermento que é colocado na farinha para fermentar (Mt 13.33; Lc 13.20-21). Assim é o Reino de Deus: “Tal como a semente plantada no solo, ele já está em vir a ser. Tal como o fermento na massa, ele já está em ação”.

O homem não pode fugir da decisão, uma vez que “o Reino, quando confronta os homens, exige decisão – decisão eterna. O  amanhã  encontrou  o  hoje.  A  era  por  vir  alcançou  esta  era.

A  vida  futura  é-nos  oferecida  aqui  e  agora”.  O  momento  da  decisão, tal como enfatizou Rudolf Bultmann, “é a situação em que está abolido qualquer caráter de espectador”. No momento da  decisão,  portanto,  o  ser  humano  é  encarado  e  confrontado,  sendo  a  falta  de  decisão  já  uma  decisão  negativa:  “quem  não é por mim, é contra mim; e quem comigo não ajunta espalha” (Mt  12.30;  Lc  11.23).  Pelo  Reino  vindouro  que  já  está  presente, o  ser  humano  é  chamado  não  para  a  espera,  quieta  e  passiva, mas para a esperança, viva e atuante. Aquele que ouve a proclamação  do  Reino  deve  viver  conforme  as  exigências  do  Reino  e também proclamá-lo. Os discípulos são o sal da terra e a luz do mundo (Mt 5.13ss). Isso significa que suas vidas devem apontar para o Reino de Deus, uma vez que suas obras devem resultar na glorificação do Pai, que está nos céus (Mt 5.16), já que sua conduta é de acordo com a perfeição do próprio Pai (Mt 5.48). Assim, se compreende que o Reino de Deus “realiza-se pela proclamação da boa-nova por meio de palavras e de atos”.

Apesar de existir quem afirme que o cristianismo desde suas origens substituiu a proclamação do Reino pela proclamação do próprio Jesus Cristo, não se pode separar completamente  Jesus  do  Reino  de  Deus  anunciado  por  ele.  A  ideia  de  Jesus como o Filho do Homem, por exemplo, relaciona-se diretamente com o Reino proclamado. Segundo George Eldon Ladd, a relação se dá até mesmo em termos de estrutura, uma vez que da mesma forma que o Reino glorioso futuro é anunciado e já começou a operar no presente, o Filho do Homem que virá glorioso nas  nuvens  “já  está  presente  entre  os  seres  humanos,  mas  de uma forma que eles dificilmente esperariam”.

Assim, da mesma forma que Jesus Cristo já veio ao mundo, mas virá em toda sua glória, também o Reino já é operante, mas se concretizará plenamente  no  futuro.  É  neste  sentido  que  os  discípulos  compreendem a morte e ressurreição de Jesus Cristo como manifestação do Reino de Deus, mesmo que ainda não completa: cabe ainda a ressurreição dos mortos, dos quais Jesus foi o primeiro.

3. A pregação do reino de Deus hoje

Friedrich Nietzsche (1844-1900), filósofo alemão cuja crítica ao cristianismo se deu com verdadeiros golpes de martelo, destacava principalmente a inércia dos cristãos, que seria resultado, segundo ele, da incompreensão dos mesmos sobre o Reino de  Deus.  Segundo  Nietzsche,  o  Reino  de  Deus  seria  não  uma fé,  mas  uma  ação,  de  modo  que  a  passividade  cristã  se  dava  principalmente pelo “Reino de Deus considerado como ato final, como promessa”. Sua crítica tem grande importância quando se percebe que o anúncio do Reino futuro muitas vezes apagou o aspecto presente do Reino. Nietzsche, apesar de romper com o cristianismo, destacava a presença atuante do Reino, lembrando a expressiva sentença de Jesus “o Reino de Deus está em vós”. Assim sendo, o Reino não é algo que deva apenas ser esperado, mas  é  uma  realidade  presente  no  interior  do  ser  humano,  que altera o seu ser e o leva a agir de modo diferente no mundo. Não é apenas uma realidade “para além da Terra, ou depois da morte”, mas é, também, uma realidade para a vida presente, para o aqui e agora. A fé e a esperança, direcionadas para o futuro, acabaram anulando a prática, que deveria estar voltada ao presente:

(…)  a  prática  cristã,  uma  vida  tal  como  a  viveu aquele que morreu na cruz, apenas isso é cristão

(…) o cristianismo autêntico, o cristianismo primitivo,  será  possível  em  todas  as  épocas…  Não uma fé, mas uma ação, um não fazer certas coisas e, sobretudo, um modo diferente de ser.

É  evidente  que  Nietzsche  ultrapassa  a  visão  tradicional  da igreja, mas certamente lembra a esta o seguinte: a pregação cristã atual deve acompanhar a pregação de Jesus Cristo sobre o Reino de Deus em sua integralidade, proclamando tanto o Reino enquanto realidade presente quanto o Reino enquanto realidade futura, assumindo a tensão entre presente e futuro que é característica  do  cristianismo.  A  crítica  de  Nietzsche,  portanto,  não deveria ser rejeitada, mas assumida e encarada pelos cristãos, a fim de proclamarem não ideias, mas atitudes, não conhecimentos, mas princípios, não questões da alma, mas do ser humano em sua integralidade e em sua existência aqui e agora. O futuro do Reino de Deus anunciado deve começar hoje: não deve gerar uma espera, mas uma esperança, que implica necessariamente em ação e transformação.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O próprio Jesus indicou que o Reino de Deus deveria ser pregado:  “E  este  Evangelho  do  Reino  será  pregado  em  todo o mundo, em testemunho a todas as gentes, e então virá o fim” (Mt 24.14). Segundo Ladd, esse versículo é “um dos mais importantes  de  toda  a  Palavra  de  Deus  para  garantir  o  sentido  e  o  propósito  da  história  humana”. Tal  como  bem  mostrou  Ladd  em seu livro O evangelho do Reino, hoje, mais do que nunca, o ser humano está em situação de crise quanto ao destino da história. Com o fim das Grandes Guerras, tal como bem indicou Rudolf Bultmann, a grande crença no progresso caiu por terra, de tal modo que “hoje não podemos afirmar que conhecemos o fim e o objetivo da história”. Mais do que nunca, o mundo expõe sua necessidade em relação à proclamação do Reino de Deus – esperança para o mundo, para a história, e para cada indivíduo. Mais do que nunca, para as inquietações provocadas pela existência humana,  pelas  crises  tanto  a  nível  social  quanto  individual,  e mesmo para a busca de sentido e propósito, o evangelho do Rei no é a resposta.

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