Resumo
A pregação de Jesus era fundamentalmente o anúncio do Reino de Deus. Suas exortações, parábolas, profecias e mesmo as bem-aventuranças, eram centradas e direcionadas no Reino de Deus, buscando explicá-lo, anunciá-lo ou mesmo realizá-lo no mundo. Cabe aos cristãos, uma vez que se declaram seguidores e imitadores de Jesus, buscarem compreender o Reino na pregação de Jesus, a fim de que seu ministério tenha continuidade em plena integridade, de modo que a igreja seja de fato o corpo de Jesus Cristo no mundo. A pregação cristã, portanto, deve incorporar a pregação de Jesus do Reino de Deus.
Introdução
Diversos aspectos da pregação de Jesus não possuem consenso nenhum entre os teólogos. O anúncio de Jesus sobre si mesmo, por exemplo, é um problema amplamente discutido e ainda em aberto. Ao mesmo tempo que alguns autores afirmam categoricamente que Jesus não pregava a si mesmo, outros ressaltam a autoafirmação de Jesus. Assim, enquanto Edward Schillebeeckx, por exemplo, afirma que “Jesus não se anunciava a si mesmo”, o judeu Jacob Neusner chega a afirmar que Jesus, em sua pregação, não omitiu nada do judaísmo, porém acrescentou uma coisa: “a si mesmo”. O questionamento de Jesus enquanto objeto de seu próprio ensino se deu especialmente pelo liberalismo no final do século XIX e início do século XX, de tal forma que J. P. Sheraton em um artigo de 1903, em que defendia o ensino de Jesus sobre si mesmo, afirmou que este seria o tema teológico mais relevante daquele momento: “o ensino de Cristo a respeito de si mesmo é, eu creio que posso afirmar sem exagero, o assunto que hoje coloca-se acima de todos os outros na Teologia”. De fato, a ideia de que Jesus se limitou a anunciar o Pai e seu Reino, desenvolveu-se mediante a chamada “busca do Jesus histórico”, e alcançou em Rudolf Bultmann sua culminância, na negação do próprio Jesus histórico frente ao Cristo da fé.
Mas será que a pregação de Jesus deve alterar em algo a nossa pregação? Segundo Bultmann, não. Para este autor, “a pregação de Jesus está entre os pressupostos da teologia do NT e não constitui uma parte dela”, de tal modo que o kerygma cristão não se fundamenta tanto nas palavras e na proclamação de Jesus nem no Jesus histórico, mas no Cristo da fé, uma vez que “não o Jesus histórico, e sim Jesus Cristo, o proclamado, é o Senhor”. Ora, se diferente de Bultmann, compreendemos que o Jesus histórico e o Cristo da fé são um e o mesmo, temos necessariamente como consequência uma relação com o que Jesus pregava. O que Jesus pregava e ensinava torna-se não apenas um referencial para a pregação cristã de todos os tempos como um verdadeiro modelo. Mas qual era o centro da pregação de Jesus? Nisso, há um consenso: a pregação de Jesus se centrou no Reino de Deus.
A pregação de Jesus não apenas proclamava o Reino, mas tinha um verdadeiro caráter “reinocêntrico”, uma vez que é a partir do Reino de Deus que se compreende tanto o sentido quanto o significado da sua pregação. Como bem indicou Norman Perrin, “todos os outros aspectos de sua mensagem e do seu ministério servem a uma função relativa a essa proclamação e derivam dela seu sentido”. Para se compreender a ideia de Jesus sobre o Reino de Deus e, consequentemente, sua pregação, faz-se necessário identificar primeiramente o significado do Reino de Deus no Antigo Testamento e no judaísmo de seu tempo.
1. O reino de Deus até a pregação de Jesus
Quando Jesus proclama o Reino de Deus, anuncia uma realidade já conhecida e mesmo aguardada pelos judeus de seu tempo. Ao mesmo tempo, porém, apresenta este de forma diferenciada, explicando didaticamente, por meio de parábolas, o que é exatamente o Reino de Deus. Assim, seja para indicar a concepção usual do judaísmo no seu tempo, seja para indicar se Jesus inovou de alguma forma em seu uso do termo, é necessário um estudo da ideia de Reino de Deus do Antigo Testamento até Jesus.
1.1. O Reino de Deus no Antigo Testamento
São poucos os casos no Antigo Testamento em que a palavra מַ כ ֽלּ ת (malkut) “denota um reino no sentido espacial, um território; quase sempre quer dizer o poder de reinar, a autoridade, o poder dum rei”. Assim, pode-se perceber em diversos textos o uso do termo malkut enquanto um poder ou mesmo o tempo de regência de uma determinada pessoa. Mesmo assim, porém, há textos valiosos que relacionam o termo a Deus, especialmente nos Salmos. Se o uso de “Reino de Deus” é raro, a ideia de Deus como rei (melek), com seu trono e governando as nações, é recorrente no Antigo Testamento, especialmente nos Salmos, que “estão repletos desses temas”: “Deus reina [מלַךְ] sobre as nações; Deus senta em seu santo trono [ִכּסּ]א ֵ” (Sl 47.8); “O Senhor vai reinar [ְִמי לֹך] para sempre e sempre” (Êx 15.18).
Segundo Victor Maag, o Reino de Deus é construído no Antigo Testamento mediante um movimento teológico, resultante de uma influência cananeia e da preservação do aspecto nômade da religião israelita original. Assim, segundo este autor, a atribuição de Deus como rei é provavelmente “resultado do encontro de Javé com o El cananeu”. A primeiro momento, segundo a teoria, Deus era entendido como rei no sentido de ser um “rei divino”, um deus sobre os demais do panteão. É neste sentido que o autor percebe vários textos (Js 5.13-14; I Rs 22.19; Sl 82.1; Jó 2.6ss), mas tal ideia de um senhor sobre outros deuses “só foi adotada parcialmente”. A particularidade da religião israelita conduziu à constituição da imagem de “um Deus migrante”, cujo trono – que não está assentado em uma cidade ou território não pode ser derrubado. Este movimento do desenvolvimento da ideia do reino/reinado de Deus também fez com que Israel se tornasse “o único povo em todo o âmbito semita a estabelecer uma conexão séria entre o Reino de Deus e a expectativa de uma futura mudança global de todas as condições da vida terrestre”, ou seja, “somente em Israel o domínio real de Deus assume um aspecto evidentemente escatológico”.
Independentemente da validade da teoria de Maag, seu estudo aponta um elemento essencial no conceito veterotestamentário: o Reino de Deus não está preso a um lugar. Não se trata, portanto, de um “Reino” em sentido moderno – um território o qual se comanda, ou mesmo um conjunto de súditos. O malkutYahweh é antes um “reinado”, enquanto o poder e a autoridade do rei, ao mesmo tempo que a relação direta entre o rei e seu súdito. Tal como bem apontou Geza Vermes, “o Reino de Deus vincula-se antes com a própria soberania divina do que com o Reino governado por Deus”. Resumindo, compreende-se que a ideia moderna de “Reino”, acaba por perder “a chave do sentido dessa verdade bíblica antiga”, uma vez que, de modo muito diferente da ideia ocidental de “Reino”, “para a mentalidade hebraica é, acima de tudo, uma relação pessoal entre um rei e seu povo que está em questão”.
1.2. O Reino de Deus no judaísmo do tempo de Jesus
Segundo Joachim Jeremias, a literatura do judaísmo antigo apresenta poucos casos do uso do termo “Reino (de Deus)”, de tal forma que quando se compara aos sinóticos, se percebe que “a frequência dos testemunhos nos evangelhos sinóticos é extraordinária”. Acontece, porém, que os usos do conceito de Reino de Deus no judaísmo do Segundo Templo apesar de raros, possuem grande importância, sendo relevantes não somente para a compreensão das ideias escatológicas do período, como para a compreensão da aplicação feita por Jesus. Também as ideias proféticas e escatológicas que não trazem necessariamente o termo, mas constroem a base sobre a qual este será colocado, são relevantes.
Certamente os livros apócrifos e pseudoepígrafos estão entre as principais fontes para o estudo do pensamento judaico no período do Novo Testamento, apesar da dificuldade existente em se definir até que ponto estes livros transmitem as ideias mais aceitas pelo povo judaico naquele contexto. Nestes livros, percebe-se claramente o Reino de Deus enquanto uma realidade escatológica e apocalíptica, a exemplo do capítulo 23 do Livro dos Jubileus, onde está clara a ideia da transformação mediante a Lei do povo de Deus e seu ambiente, em um estado de bênção que deverá durar para sempre. No livro de 1 Enoque, o Reino de Deus está ligado à ideia da derrocada de Azazel, senhor dos demônios. De fato a ideia do Reino de Deus soberano e vitorioso sobre o Reino das forças do mal está presente também na Comunidade de Qumran, conforme se percebe na Regra da Comunidade e na Regra da Guerra, dos Manuscritos do Mar Morto, segundo os quais o Reino de Deus haveria de ser estabelecido após a vitória do Príncipe das Luzes sobre o Anjo das Trevas.
1.3. O Reino na pregação de Jesus
O uso de Jesus da expressão “Reino de Deus” (ou, “Reino dos céus”), porém, é peculiar, sendo indicado por Joachim Jeremias como algo sui generis, de modo que “não encontra nenhum paralelo na literatura do [seu] meio ambiente”. Se de fato Jesus empregou o termo com total originalidade, é um problema, especialmente quando se compreende que “no campo da religião, originalidade consiste o mais das vezes em dar um novo direcionamento a ideias em si mesmo muito antigas”. Qual foi, então, o direcionamento da ideia de Reino de Deus da parte de Jesus? Ele não apenas empregou o conceito inúmeras vezes em sua pregação, como também se valeu de parábolas e ditos apocalípticos para explicá-lo e proclamá-lo, além de expressar-se me diante expressões completamente sem paralelos, que abrem o conceito apocalíptico de Reino de Deus para uma perspectiva de caráter evangelístico, transformando “secundariamente em linguagem de missão”.
Qualquer leitor atento notará facilmente nos evangelhos (sinóticos) que, “para Jesus, Deus era Rei e Pai: implicitamente Rei e explicitamente Pai”. É por “Pai” (abba, em aramaico) que Jesus chama a Deus; dessa forma ele se dirige ao grande Rei, cujo Reino é proclamado, mas a quem Jesus não chama de “rei”, senão em raras analogias (em parábolas). Deus não é chamado de “rei” pois não precisa ser entronizado. Deus já é rei – já está entronizado no céu (cf. Mt 5.34). A proclamação do Reino de Deus, portanto, não é um anúncio da coroação de Deus como rei de Israel, mas a vinda de um reinado já existente, o exercício de um rei já constituído, agora em uma nova dimensão. É assim que se compreende a segunda petição do Pai Nosso: “Venha o teu reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6.10). Jesus, portanto, vale-se da ideia de um “reinado de Deus”, um poder e influência de um rei divino, cuja ação já está presente no céu, e deve agora atingir a terra. Apesar desta proclamação de Jesus ter um sentido claramente escatológico, é antes expressa de uma forma tão material, viva e existencial, que não deve ser entendida como uma realidade abstrata ou puramente espiritual.
A linguagem a qual Jesus se vale para se referir ao Reino é bastante peculiar. Não trata das coisas de Deus “em termos filosóficos ou teológicos, mas numa linguagem existencial”. Em sua pregação, Jesus vale-se das imagens da Galileia rural na qual estava inserido: o reino de Deus é comparado a um campo (Mt 13.24-30; Mc 4.3-9,26-29; Lc 8.4-8), a uma vinha cujos trabalhadores são respeitados e remunerados de forma justa, a uma semente de mostarda que se torna uma grande árvore (Mt 13.31-32; Mc 4.30-32; Lc 13.18-19), assim como é associado aos elementos da pescaria – prática bem conhecida pelos seus discípulos: “O Reino dos céus é ainda semelhante a uma rede que, lançada ao mar, recolhe peixes de toda espécie” (Mt 13.47). O Reino, portanto, não é imaginado à maneira dos reinos e impérios humanos, mas é comparado de forma bastante simples aos elementos presentes na vida diária de Jesus e seus vizinhos. Esta diferença foi bem indicada por Geza Vermes: “No reino tal como por ele concebido, não há tronos, cortesãos, coros celestiais, hostes guerreiras com carros, espadas ou lanças. Encontramos em lugar disso as paisagens, os instrumentos de trabalho e os habitantes do campo galileu e a sua vida à beira do lago”.
2. O Evangelho do reino
Não é surpresa, portanto, que “o tema central da pregação pública de Jesus foi a soberania real de Deus”, o que é evidente pela frequência do uso de Jesus do conceito de reino de Deus nos textos sinóticos, assim como pela forma com que este ocupa uma posição de destaque em suas palavras. O Reino de Deus está presente, por exemplo, nas três formas dos evangelistas sinóticos resumirem a mensagem de Jesus: Marcos, no começo de seu Evangelho, resume a proclamação de Jesus pelo anúncio da proximidade do Reino e a convocação ao arrependimento: “O Reino de Deus está próximo. Arrependam-se e creiam nas boas novas!” (Mc 1.15). Mateus vale-se da expressão κηρύσσειν τὸ εὐαγγέλιον τῆς βασιλείας (keryssein tò evaggélion tês basileías), “anunciar o evangelho do Reino” (Mt 4.23; 9.35). Lucas fala de εὐαγγελίζεσθαι τὴς βασιλείαν (evaggelítzesthai tèn basileían), “anunciar a boa nova do reino” (Lc 4.43; 8.1). O Reino de Deus estava presente nos resumos da mensagem de Jesus justamente por ser praticamente a própria mensagem deste. O Pai Nosso, já mencionado anteriormente, também expressa a centralidade do Reino na pregação de Jesus, uma vez que enquanto pregação da comunidade de Jesus, é um direcionamento para a prática e mensagem de seus discípulos.
O evangelho do Reino, a proclamação da vinda deste, porém, se dava tanto no anúncio do Reino enquanto realidade futura, quanto em uma cobrança ética presente, seguindo a afirmação da presença atual do mesmo Reino. O Reino de Deus, tal como bem apontou Ladd, é indicado ao longo do Novo Testamento mediante uma “complexidade de ensinamentos”. Não foi à toa que surgiram tantas e tão variadas interpretações e perspectivas escatológicas a partir da proclamação do Reino por Jesus: Albert Schweitzer indicou que Jesus anunciava a chegada do Reino para um futuro próximo, C. H. Dodd situou o Reino no tempo presente, Joachim Jeremias o colocou parte no presente e parte no futuro, e assim por diante. Isso se dá justamente porque no Novo Testamento o Reino é claramente proclamado para o futuro, quando Cristo vier em glória (cf. Mt 25.34), ao mesmo tempo que é apontado como uma realidade presente (cf. Rm 14.17) ou, ainda, um domínio no qual os seguidores de Cristo já entraram (cf. Cl 1.13). Trata-se, portanto, de um Reino futuro, um Reino presente, e um Reino presente e futuro, sem que com isto se refira a mais de um Reino: são três aspectos de uma e mesma realidade. O mesmo se pode perceber na pregação de Jesus, presente nos evangelhos. Como bem indicou Geza Vermes, nos equivocamos quando aplicamos conceitos temporais para a perspectiva escatológica de Jesus. Quando interrogado pelos fariseus a respeito de quando viria o Reino de Deus, respondeu: “Não vem o Reino de Deus com visível aparência. Nem dirão: Ei-lo aqui! Ou: Lá está! Porque o Reino de Deus está dentro de vós” (Lc 17.20b-21). O Reino de Deus, portanto, é passado, presente e futuro, ao mesmo tempo que não é nenhum dos três: é uma realidade atemporal que age, que influencia, e que colocará um fim na realidade temporal. De todo modo, a linguagem temporal é presente, mesmo que não na natureza do Reino, pelo menos em suas expressões.
2.1. O anúncio do Reino futuro
A indicação futura do Reino é evidente em muitas passagens: “venha a nós o teu Reino” (Mt 6.10); “o Reino dos céus será semelhante…” (Mt 25.1); “está próximo o reino dos céus” (Mt 10.7); “nem todo que me diz: Senhor, Senhor! Entrará no Reino dos céus” (Mt 7.21). Fala-se em “entrar no Reino de Deus”, “na vida”, “na alegria”, de modo que “palavras semelhantes perpassam todos os evangelhos”. Na Páscoa, a expressão futura do reino é ainda mais marcante: enquanto estava comendo a Páscoa com seus discípulos, Jesus afirma: “vos digo que nunca mais a comerei, até que ela se cumpra no reino de Deus” (Lc 22.16); e tomando do cálice disse: “de agora em diante, não mais beberei do fruto da videira, até que venha o Reino de Deus” (Lc 22.18 e par.). Os discípulos interpretaram estas palavras como a parusia, a segunda vinda de Jesus Cristo, aguardada desde o início do cristianismo, portanto, relacionada com o pleno cumprimento do Reino de Deus. Também as bem-aventuranças expressam o caráter futuro do reino de Deus:
Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus.
Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.
Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos.
Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.
Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus…
(Mt 5.3-10)
Reino de Deus que está próximo. Diante da promessa do Reino, somente este deve ocupar os discípulos: “Buscai, antes de tudo, o seu Reino, e estas coisas vos serão acrescentadas. Não temais, ó pequenino rebanho; porque vosso Pai se agradou em dar-vos o seu Reino” (Lc 12.31-32). A confiança, porém, deve ser expressa em uma entrega total, um desapego completo, em troca de um tesouro prometido, mas muito superior: “Vendei os vossos bens e dai esmola; fazei para vós outros bolsas que não desgastem, tesouro inextinguível nos céus, onde não chega o ladrão, nem a traça consome” (Lc 12.33). Não se trata, no entanto, de uma barganha, senão de uma demonstração de que o coração está com Deus: “porque, onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” (Lc 12.34). Aquele que quiser entrar no reino de Deus deve assumir o jugo de Jesus, um jugo que aparentemente é pesado, mas que na realidade é leve: “Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve” (Mt 11.30). Não mais é cobrado o jugo da Lei, mas o jugo do amor, que implica na obediência a Deus, mediante o amor ao próximo. Cabe ao homem escolher hoje se dirigir ao futuro Reino de Deus, obedecendo e vivendo a justiça de Deus em sua vida.
2.2. A ética do Reino presente
O Reino de Deus anunciado por Jesus possui um vínculo inseparável com a justiça, tal como apontou Karl Adam: “Na pregação de Jesus, ‘o Reino dos céus’ e a ‘justiça’ estão tão intimamente ligados que formam um só e idêntico ideal: ‘Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça’”. Assim, se compreende que os ensinamentos éticos de Jesus Cristo também fazem parte de sua proclamação do Reino, uma vez que tais ensinamentos visam a criação de uma ética da comunidade do Reino. O aspecto da justiça, não apenas proclamada, mas verdadeiramente cobrada por Jesus Cristo, evidencia justamente o aspecto presente do Reino de Deus.
A pregação de Jesus surge como continuação e cumprimento da pregação de João Batista, que é entendido pelos evangelhos como aquele que veio para anunciar o Cristo. A pregação de João Batista é centrada no arrependimento (Mt 3.1; Mc 1.4; Lc 3.3,8). Mesmo seu batismo é relacionado ao arrependimento, como método de remoção de pecados (cf. Mc 1.4). Jesus, assim como João, foi um pregador do teshuvah, do arrependimento, assim como do Reino de Deus. Tal como apontou Günther Bornkamm, “o chamado de Jesus à conversão possui um horizonte inteiramente novo [pois] Ele se faz ouvir em face do Reino de Deus que está para irromper”. Porém, o que distingue a pregação de Jesus da pregação de seu predecessor “é o fato de que Jesus anuncia a chegada do Reino convocando os seres humanos a uma alteração total em seus relacionamentos e forma de vida”. Jesus, portanto, estabelece uma nova forma de anúncio do Reino: coloca-se não mais somente como alguém que anuncia apenas o reino vindouro, mas como aquele que inaugura o Reino de Deus. O chamado ao arrependimento está em conjunto com uma nova forma de vida, a vida segundo os padrões do Reino.
Junto às bem-aventuranças do Reino vindouro, os evangelistas Mateus (Mt 5-7) e Lucas (Lc 6.17ss) colocam o ensino de Jesus a respeito dos mandamentos. Mateus o faz de modo mais destacado que Lucas, colocando Jesus sobre o monte, anunciando a Lei como um novo Moisés. Tanto o Sermão da Motanha (Mt 5-7) quanto o Sermão da Planície (Lc 6.20-49) partem das bem-aventuranças e apresentam a nova ética anunciada por Jesus. É evidente que esta ética é o requisito básico para a entrada efetiva no Reino de Deus: “Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no Reino dos céus” (Mt 5.20). Porém, também se apresenta como uma forma de realização do próprio Reino de Deus no presente. Assim, uma explicação interessante do ensino de Jesus do Reino presente foi o resumo de Joachim Jeremias:
É como se Jesus dissesse: Quero dar-vos, por meio de alguns exemplos, uma ideia da vida nova (…) Pessoalmente deveis ser sinais do Reino de Deus que vem, sinais de que alguma coisa aconteceu; vossa vida (…) deve testemunhar aos olhos do mundo a vinda do Reino. Em vossas vidas, (…) no reino de Deus, deve-se manifestar a vitória do Reino de Deus.
Após o ensino da ética do Reino, seja no Sermão da Montanha, ou no Sermão da Planície, Jesus realiza milagres. Assim, depois de anunciar a ética do Reino, Jesus realiza a obra que manifesta o Reino de Deus de forma evidente: os milagres. Os milagres, tanto de cura quanto de expulsão de demônios, indicavam a chegada do Reino de Deus. Quando Jesus envia seus doze discípulos a pregarem, Lucas deixa claro que estes são enviados “para pregar o Reino de Deus e a curar os enfermos” (Lc 9.2). A cura estava diretamente associada à pregação do Reino, uma vez que era justamente a principal forma de evidenciar e proclamar que o reino havia chegado. Quando João Batista pergunta a Jesus “És tu aquele que havia de vir ou esperamos outro?”, Jesus lhe responde com seus milagres: “Ide e anunciai a João o que tendes visto e ouvido: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres anuncia-se o evangelho” (Lc 7.22). Os milagres são, portanto, a evidenciação da chegada do Reino esperado. Também a expulsão de demônios não somente estava entre as missões dos discípulos de Jesus (Mt 10.7-8; Mc 6.7), como era um sinal claro da chegada do Reino: “Mas, se eu expulso os demônios pelo dedo de Deus, certamente, é chegado o Reino de Deus sobre vós” (Lc 11.20). Cabe aqui uma explicação sobre esse texto. Quando Jesus é acusado pelos judeus de agir pelo “poder de Belzebu, o maioral dos demônios” (cf. Mt 12.24; Mc 3.22; Lc 11.15), explica aos seus acusadores que um reino não pode estar dividido. Não age pelo reino de Satanás, mas se o combate, é porque age pelo poder de outro reino, que combate este: o Reino de Deus. Assim, tão importante quanto Jesus agir pelo “dedo de Deus” (Lucas) ou pelo “Espírito de Deus” (Mateus), é o que esta ação evidencia: “é chegado o Reino de Deus sobre vós” (Mt 12.28; Lc 11.20).
2.3. O Reino de Deus presente e futuro
O Reino de Deus é, portanto, tanto uma realidade futura quanto uma realidade presente. De certa forma, portanto, o Reino “se expressa em diferentes estágios ao longo da história da redenção”, nunca tendo sido plenamente concretizado ou mesmo vislumbrado. O Reino de Deus é uma realidade que chama o homem à sua situação existencial presente. No encontro do amanhã com o hoje, o homem é encarado e confrontado. Assim, a proclamação “Arrependam-se, pois o Reino dos céus está próximo”, faz com que a realidade futura anunciada implique em escolha no aqui e agora. O aspecto presente e futuro do Reino é expresso em parábolas: Jesus relata que o Reino de Deus é como um grão de mostarda, que se torna uma planta grande o suficiente para os pássaros fazerem ninhos (Mc 4,30ss); ou ainda como o fermento que é colocado na farinha para fermentar (Mt 13.33; Lc 13.20-21). Assim é o Reino de Deus: “Tal como a semente plantada no solo, ele já está em vir a ser. Tal como o fermento na massa, ele já está em ação”.
O homem não pode fugir da decisão, uma vez que “o Reino, quando confronta os homens, exige decisão – decisão eterna. O amanhã encontrou o hoje. A era por vir alcançou esta era.
A vida futura é-nos oferecida aqui e agora”. O momento da decisão, tal como enfatizou Rudolf Bultmann, “é a situação em que está abolido qualquer caráter de espectador”. No momento da decisão, portanto, o ser humano é encarado e confrontado, sendo a falta de decisão já uma decisão negativa: “quem não é por mim, é contra mim; e quem comigo não ajunta espalha” (Mt 12.30; Lc 11.23). Pelo Reino vindouro que já está presente, o ser humano é chamado não para a espera, quieta e passiva, mas para a esperança, viva e atuante. Aquele que ouve a proclamação do Reino deve viver conforme as exigências do Reino e também proclamá-lo. Os discípulos são o sal da terra e a luz do mundo (Mt 5.13ss). Isso significa que suas vidas devem apontar para o Reino de Deus, uma vez que suas obras devem resultar na glorificação do Pai, que está nos céus (Mt 5.16), já que sua conduta é de acordo com a perfeição do próprio Pai (Mt 5.48). Assim, se compreende que o Reino de Deus “realiza-se pela proclamação da boa-nova por meio de palavras e de atos”.
Apesar de existir quem afirme que o cristianismo desde suas origens substituiu a proclamação do Reino pela proclamação do próprio Jesus Cristo, não se pode separar completamente Jesus do Reino de Deus anunciado por ele. A ideia de Jesus como o Filho do Homem, por exemplo, relaciona-se diretamente com o Reino proclamado. Segundo George Eldon Ladd, a relação se dá até mesmo em termos de estrutura, uma vez que da mesma forma que o Reino glorioso futuro é anunciado e já começou a operar no presente, o Filho do Homem que virá glorioso nas nuvens “já está presente entre os seres humanos, mas de uma forma que eles dificilmente esperariam”.
Assim, da mesma forma que Jesus Cristo já veio ao mundo, mas virá em toda sua glória, também o Reino já é operante, mas se concretizará plenamente no futuro. É neste sentido que os discípulos compreendem a morte e ressurreição de Jesus Cristo como manifestação do Reino de Deus, mesmo que ainda não completa: cabe ainda a ressurreição dos mortos, dos quais Jesus foi o primeiro.
3. A pregação do reino de Deus hoje
Friedrich Nietzsche (1844-1900), filósofo alemão cuja crítica ao cristianismo se deu com verdadeiros golpes de martelo, destacava principalmente a inércia dos cristãos, que seria resultado, segundo ele, da incompreensão dos mesmos sobre o Reino de Deus. Segundo Nietzsche, o Reino de Deus seria não uma fé, mas uma ação, de modo que a passividade cristã se dava principalmente pelo “Reino de Deus considerado como ato final, como promessa”. Sua crítica tem grande importância quando se percebe que o anúncio do Reino futuro muitas vezes apagou o aspecto presente do Reino. Nietzsche, apesar de romper com o cristianismo, destacava a presença atuante do Reino, lembrando a expressiva sentença de Jesus “o Reino de Deus está em vós”. Assim sendo, o Reino não é algo que deva apenas ser esperado, mas é uma realidade presente no interior do ser humano, que altera o seu ser e o leva a agir de modo diferente no mundo. Não é apenas uma realidade “para além da Terra, ou depois da morte”, mas é, também, uma realidade para a vida presente, para o aqui e agora. A fé e a esperança, direcionadas para o futuro, acabaram anulando a prática, que deveria estar voltada ao presente:
(…) a prática cristã, uma vida tal como a viveu aquele que morreu na cruz, apenas isso é cristão
(…) o cristianismo autêntico, o cristianismo primitivo, será possível em todas as épocas… Não uma fé, mas uma ação, um não fazer certas coisas e, sobretudo, um modo diferente de ser.
É evidente que Nietzsche ultrapassa a visão tradicional da igreja, mas certamente lembra a esta o seguinte: a pregação cristã atual deve acompanhar a pregação de Jesus Cristo sobre o Reino de Deus em sua integralidade, proclamando tanto o Reino enquanto realidade presente quanto o Reino enquanto realidade futura, assumindo a tensão entre presente e futuro que é característica do cristianismo. A crítica de Nietzsche, portanto, não deveria ser rejeitada, mas assumida e encarada pelos cristãos, a fim de proclamarem não ideias, mas atitudes, não conhecimentos, mas princípios, não questões da alma, mas do ser humano em sua integralidade e em sua existência aqui e agora. O futuro do Reino de Deus anunciado deve começar hoje: não deve gerar uma espera, mas uma esperança, que implica necessariamente em ação e transformação.
Considerações Finais
O próprio Jesus indicou que o Reino de Deus deveria ser pregado: “E este Evangelho do Reino será pregado em todo o mundo, em testemunho a todas as gentes, e então virá o fim” (Mt 24.14). Segundo Ladd, esse versículo é “um dos mais importantes de toda a Palavra de Deus para garantir o sentido e o propósito da história humana”. Tal como bem mostrou Ladd em seu livro O evangelho do Reino, hoje, mais do que nunca, o ser humano está em situação de crise quanto ao destino da história. Com o fim das Grandes Guerras, tal como bem indicou Rudolf Bultmann, a grande crença no progresso caiu por terra, de tal modo que “hoje não podemos afirmar que conhecemos o fim e o objetivo da história”. Mais do que nunca, o mundo expõe sua necessidade em relação à proclamação do Reino de Deus – esperança para o mundo, para a história, e para cada indivíduo. Mais do que nunca, para as inquietações provocadas pela existência humana, pelas crises tanto a nível social quanto individual, e mesmo para a busca de sentido e propósito, o evangelho do Rei no é a resposta.
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